Categoria: Anti-Dühring

DÜHRING, Eugen (1833-1921); em «Os Princípios Elementares da Filosofia»

Uma famosa obra de divulgação da filosofia, escrito a partir das aulas de Georges Politzer por um dos seus alunos na Universidade Operária de Paris, foi recentemente disponibilizada no site da Organização Regional de Lisboa do PCP: Os Princípios Elementares da Filosofia.

Visto que, aqui no blog ainda nos debruçamos  no livro Anti-Dühring, fui procurar o que diz em Os Princípios Elementares da Filosofia sobre o Sr. Dühring. No final, no índice dos nomes citados, diz:

DÜHRING, Eugen (1833-1921). – Filósofo e economista alemão, algum tempo encarregado do curso de filosofia e economia política na Universidade de Berlim. Cegando completamente pouco depois, viveu, até à morte, como escritor, primeiro, em Berlim, mais tarde, em Nowawes. O representante mais considerável de um socialismo burguês, que via nos «esforços naturais do espírito individual» o fundamento da ordem social, pregava a teoria da parte crescente dos operários no produto social, e esperava da conciliação dos antagonismos de classe a salvação do futuro; considerava-se um reformador da humanidade. Perante numerosos auditórios, fez conferências sobre os mais diversos assuntos, mas depressa foi privado da sua cátedra, em consequência dos seus vivos ataques públicos contra professores de Berlim. Entre 1870 e 1880, teve um grande número de partidários na social-democracia. Desenvolveu, em numerosas obras, um sistema particular sócio-filosófico, que se construirá com o auxilio de várias «verdades de última instância», absolutas, que julgava ter descoberto. Era um adversário do cristianismo e um anti-semita ardente. Prestou, indirectamente, e contra sua vontade, um grande serviço ao comunismo científico; os seus ataques apaixonados contra Marx e Lassalle e a sua «filosofia da realidade», sinal da mania das grandezas, provocaram, com efeito, a réplica do famoso panfleto clássico de Engels: «O sr. Eugen Dühring perturba a ciência» («Anti-Dúhring»), obra que depressa se tornou o guia filosófico da nova geração operária revolucionária. Nela, Engels desmontava, impiedosamente, todo o sistema de vilezas de Duhring, fazendo, pela primeira vez, com mão de mestre, uma exposição completa e clara do materialismo dialéctico. (Ver «Anti–Duhring», de F. Engels, Edições sociais.)

É possivel que no futuro voltemos a este livro. Por agora, assim que houver disponibilidade, seguiremos com o que falta de Anti-Dühring.

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Cap. III – divisão. apriorismo

Nota prévia: Voltamos ao “Anti-Dühring”, naquilo que pretendemos que seja uma postagem mais frequente. Revisitaremos alguns capítulos sobre os quais já existem posts por pretendermos ganhar balanço e efectuar uma discussão mais colectiva.

O apriorismo de Dühring

É neste capítulo que Engels empreende a crítica às teses de Dühring, começando pela sua filosofia. Com base na profunda semelhança entre as ideias do influente filósofo alemão Hegel e as propostas por Dühring, Engels identifica este último como um pensador idealista, isto é, alguém que pretende “tirar da sua cabeça, sem utilizar a experiência que nos oferece o mundo exterior”, as formas desse mesmo “ser exterior”.

A abordagem de Dühring parte do estabelecimento de princípios “de todo o saber e todo o querer” através da filosofia. Este desenvolvimento da consciência permitiria depois aplicar um esquema de dedução lógica relativamente a todas as esferas particulares da vida: da organização do universo, aos fundamentos da natureza e, finalmente, aos da humanidade. Esta formulação pode ser denominada de apriorísitica pois estabelece princípios preexistentes ao mundo a partir dos quais  o mundo é concebido. Verifica-se que no limite, ao apresentar estes princípios, Dühring acaba por negar qualquer progresso para o conhecimento humano e para as suas ciências, adoptando uma postura omnisciente!

Bem, como a leitura das teses de Dühring é mediada por Engels, só o absurdo pode vir ao de cima. Interessa antes perceber como se constrói a crítica positiva de Engels, naquilo que é uma exploração dos fundamentos epistemológicos do marxismo.

As insuficiências do apriorismo

Como se forma, então, o conhecimento do mundo para o homem, ser pensante? Em contraponto com as posições idealistas, Engels traça uma perspectiva baseada e regida pela experiência humana:

Os princípios não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais; não se aplicam à natureza e à história humana, mas deles são extraídos; não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história.

Mas se isto parece tão simples, como explicar o caminho percorrido por Dühring, como compreender esta visão “de cabeça para baixo”? Engels aponta a concordância que os idealistas encontram entre a consciência e a natureza, levando-os a derivar esta da primeira. Mas este é um ponto fundamental: o que pensamos é produzido por um cérebro humano que por seu lado é produto da natureza e se desenvolve com no seu meio ambiente. Não devia, portanto, causar admiração a identificação entre o pensamento humano e a ordem da natureza.

Segundo Engels, a vanidade e a megalomania de Dühring justificam que este rejeite uma explicação tão simples e se atarefe a tornar o pensamento independente do homem e da base real que o sustenta.

Na fantasia de Dühring era possível a partir do mundo do pensamento determinar o sistema de funcionamento da Realidade. As tais preposições pré-existentes a partir dos quais  o mundo é concebido é quanto basta para deduzir o Todo.  Na presunção do Sr. Dühring seria então possível definir um sistema fechado e determinado das concatenações do universo, tanto físico, espiritual e histórico. Assim, teria chegado ao fim o ciclo – ou o processo – do conhecimento e da história. Tal não acontece, e Engels expõe-o nestas palavras:

Os homens vêm-se, pois, colocados ante esta contradição: de um lado, levados a investigar o sistema do mundo, englobando todas as suas condições e relações; de outro, por sua própria natureza e pela natureza mesma do sistema do mundo, não podem jamais resolver por completo esse problema.

Apenas um anúncio e uma “lista-guia”

Entramos na 2ª parte do livro que é dedicada à Economia Política. Dado ao método e às conclusões do Sr. Dühring, pelos motivos e exemplos já apresentados em posts anteriores, pouco me debruçarei sobre ele.

Esta segunda parte contêm os seguintes dez capítulos:

Capítulo I – Objecto e Método
Capítulo II – Teoria da violência
Capítulo III – Teoria da Violência (Continuação)
Capítulo IV – Teoria da Violência (Conclusão)
Capítulo V – Teoria do Valor
Capítulo VI – Trabalho Simples e Trabalho Complexo
Capítulo VII – Capital e Mais-valia
Capítulo VIII – Capital e Mais-valia (Conclusão)
Capítulo IX – Leis Naturais da Economia – A Renda Territorial
Capítulo X – Sobre a”História Crítica”

Os próximos posts, de forma semelhante ao que tem sido feito, deverão apresentar o essencial desta 2ª parte. É a isso que me proponho, dependendo muito da disponibilidade – que tenderá a ser menor  – nos próximos tempos.

Adivinhando um período de baixa frequência de posts, deixo aqui uma pequena lista-guia, com o objectivo de facilitar aos interessados a leitura do que foi anteriormente publicado sobre o Anti-Dühring.

“LISTA-GUIA”

1) – Estes dois posts contextualizam no tempo o livro e a necessidade de Engels de escreve-lo. A ler:

kick-off

[I] evolução das ideias socialistas

2) – Os próximos dois debruçam-se sobre a Moral e o Direito, tendo ainda o primeiro uma breve explicação sobre o método de Dühring. A ler:

A Igualdade

Liberdade e Necessidade

3) – Depois, após inserido um post sobre as Leis da Dialéctica a partir duma tradução do artigo da Wikipédia, os seguintes links apresentam vários exemplos dados no livro sobre cada umas das leis. É importante ler alguns dos comentários deixados. A ler:

Capítulo: Dialéctica. A lei da unidade e conflito de opostos

Capítulo: Dialéctica. Lei das mudanças quantitativas em qualitativas

Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (1)

E em continuação do link anterior, mas contextualizando com os conceitos Forças Produtivas, Relações de Produção e Modo de Produção. A ler:

Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (2)

Espero que ajude.

Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (2) – em Anti-Dühring

O Sr. Dühring achava a Dialéctica um absurdo, pois lhe era inaceitável que algo pudesse ter compreendido duas características opostas simultaneamente, e que uma delas pudesse resultar na negação da outra. Engels apoiando-se no trabalho desenvolvido por Marx em O Capital resume aquilo que Dühring classificara como «arabescos imaginativos».

Irei transcrever esse resumo, mas porque ele tem em si outros conceitos importantes para o marxismo, aproveitarei para apresentar uma muito breve referência a eles. Para isso coloco um trecho retirado do blog Anónimo do Séc XXI¹ onde se faz referência a esses conceitos: Forças Produtivas, Relações de Produção e Modo de Produção.

FP - Forças Produtivas;
FP - Forças Produtivas; R de P - Relações de Produção

Enquanto as forças produtivas (FP) se desenvolvem incessantemente, as relações de produção (RdeP) definem estádios ou patamares adequados às fases desse desenvolvimento, definindo modos de produção (MdeP), que começam a ser instáveis (a sofrer crises…) quando, face à continuidade do progresso nas forças produtivas, perdem adequabilidade e se criam situações de rotura, que podem ser remediadas, adiadas, que podem mesmo travar o desenvolvimento das FP, mas roturas que, inevitavelmente, virão a concretizar-se por passagem a novo patamar de RdeP e a novo MdeP.

Agora, penso que será muito mais rica a leitura do que se seguirá e, tal como fiz acima, coloco a negrito alguns termos para facilitar a preensão do texto. Passo a transcrever²:

Antes de advir a era capitalista, dominava, pelo menos na Inglaterra, a pequena indústria baseada na propriedade privada do operário sobre os meios de produção. A chamada acumulação primitiva do capital se caracterizou, nestas condições, pela expropriação desses produtores imediatos, isto é, pela abolição da propriedade privada, baseada no trabalho do próprio produtor. Efectivou-se tal coisa porque aquele regime de pequena indústria era compatível somente com as proporções limitadas e primitivas da produção e da sociedade, engendrando, tão logo os meios materiais de produção atingiram um certo grau de progresso, a sua própria destruição. Esta destruição, que consistiu na transformação dos meios individuais e dispersos de produção em meios de produção socialmente concentrados, constitui a pré-história do capital. A partir do momento em que os operários se transformam em proletários, em que as suas condições de trabalho passam a ter a forma de capital, a partir do instante em que o regime capitalista de produção começa a se mover por sua própria conta, a socialização do trabalho e a mudança do sistema de exploração da terra e dos demais meios de produção, e, portanto, a expropriação dos proprietários privados individuais, é preciso, para continuarem progredindo, que seja adoptada uma nova forma.

E continua, mas agora citando Marx directamente:

“Não se trata mais de expropriar o operário que produz por sua própria conta, mas o capitalista explorador de muitos operários. E essa nova expropriação se realiza pelo jogo das leis imanentes da própria produção capitalista, pela concentração dos capitais. Cada capitalista devora muitos outros. E, ao mesmo tempo em que alguns capitalistas expropriam a muitos outros, desenvolve-se, em grau cada vez mais elevado, a forma cooperativa do processo de trabalho, a aplicação técnica e consciente da ciência, sendo a terra cultivada mais metodicamente, os instrumentos de trabalho tendem a alcançar formas que são manejáveis unicamente pelo esforço combinado de muitos, economizam-se os meios da produção em sua totalidade, ao serem aplicados pela colectividade como meios de trabalho social, o mundo inteiro se vê envolvido na rede do mercado mundial, e, com isso, o regime capitalista passa a apresentar um carácter internacional cada vez mais acentuado. E, deste modo, enquanto vai diminuindo progressivamente o número dos magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, aumenta no pólo oposto, proporcionalmente, a pobreza, a opressão, a escravização, a degradação e a exploração. Mas, ao mesmo tempo, cresce a revolta da classe operária e esta se torna cada dia mais numerosa, mais disciplinada, mais unida e organizada pelo próprio método capitalista de produção. O monopólio capitalista transforma-se nas grilhetas do regime de produção que com ele e sob as suas normas floresceu. A concentração dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se tornam incompatíveis com o seu envolto capitalista, e o envolto se desagrega. Soou a hora final da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.

Acho que se percebe porque hoje (quase) ninguém ouviu falar de Dühring, e pelo contrário, Marx e Engels são uma referência fundamental na nossas vidas.

Em Relação com a Actualidade

Com tudo isto, parece-me pertinente perguntar:

Não será a grave crise económica que vivemos um sintoma de que as relações de produção estão desadequadas às forças produtivas, e é cada vez mais urgente os expropriados se tornem agora nos novos expropriadores, construindo um mais adequado e avançado modo de produção?

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[1] de Sérgio Ribeiro; e trecho transcrito da etiqueta Materialismo Histórico, episódio 14.
[2] transcrição retirada de Capítulo XIII – Negação da Negação.
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Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (1) – em Anti-Dühring

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica expostos em Anti-Dühring. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2). As transcrições[1] serão relativas à Lei da Negação da Negação.

No Reino Vegetal

Todos os dias, milhões de grãos de cevada são moídos, cozidos, e consumidos, na fabricação de cerveja. Mas, em circunstâncias normais e favoráveis, esse grão, plantado em terra fértil, sob a influencia do calor e da unidade, experimenta uma transformação específica: germina. Ao germinar, o grão, como grão, se extingue, é negado, destruído, e, em seu lugar, brota a planta, que, nascendo dele, é a sua negação. E qual é a marcha normal da vida dessa planta? A planta cresce, floresce, é fecundada e produz, finalmente, novos grãos de cevada, devendo, em seguida ao amadurecimento desses grãos, morrer, ser negada, e, por sua vez, ser destruída. E, como fruto desta negação da negação, temos outra vez o grão de cevada inicial, mas já não sozinho, porém ao lado de dez, vinte, trinta grãos.

Onde a frequência da repetição do fenómeno da negação é maior, é mais óbvia a observação do desenvolvimento preconizado pelo organismo.  Engels exemplifica

Se tratarmos a semente [duma dália ou orquídea] e a planta que dela brota, com os cuidados da arte da jardinagem, obteremos como resultado deste processo de negação da negação, não apenas novas sementes, mas sementes qualitativamente melhoradas, capazes de nos fornecer flores mais belas; cada repetição deste processo, cada nova negação da negação, representará um grau a mais nesta escala de aperfeiçoamento.

No Reino Animal

Engels dá aqui o exemplo das mariposas:

Nascem, estas, também, do ovo, por meio da negação do próprio ovo, destruindo-o, atravessando depois uma série de metamorfoses até chegar à maturidade sexual, se fecundam e morrem por um novo ato de negação, tão logo se consume o processo de procriação, que consiste em pôr a fêmea os seus numerosos ovos.

Assim, ele reforça com exemplos do reinos do mundo orgânico o fundamento da Lei da Negação da Negação.

Na Geologia

Toda a geologia não é mais que uma série de negações negadas, uma série de desmoronamentos de formações rochosas antigas, sobrepostas umas às outras, e de justaposição de novas formações. A sucessão começa porque a crosta terrestre primitiva, formada pelo resfriamento da massa fluida, vai-se fracionando pela ação das forças oceânicas, meteorológicas e químico-atmosféricas, formando-se, assim, massas estratificadas no fundo do mar. Ao emergir, em certos pontos, as matérias do fundo do mar à superfície das águas, parte destas estratificações se vêm submetidas novamente à ação da chuva, às mudanças térmicas das estações, à ação do hidrogênio e dos ácidos carbônicos da atmosfera; e a essas mesmas influências se acham expostas as massas pétreas fundidas e logo depois esfriadas que, brotando do seio da terra, perfuram a crosta terrestre. Durante milhares de séculos vão se formando, dessa forma, novas e novas camadas que, por sua vez, são novamente destruídas em sua maior parte e, algumas vezes, são utilizadas como matéria para a formação de outras novas camadas.

Na Matemática

Tomemos uma qualquer grandeza algébrica, por exemplo a. Se a negarmos, teremos -a (menos a). Se negarmos esta negação, multiplicando -a por -a, teremos +a2, isto é, a grandeza positiva da qual partimos, mas num grau superior elevada à segunda potência. Mas aqui não nos interessa que a este resultado (a2) se possa chegar multiplicando a grandeza positiva a por si mesma, pois a negação negada é algo que se acha tão arraigado na grandeza a2, que esta encerra, sempre e de qualquer modo, duas raízes quadradas, a saber: a do a e a do -a. E esta impossibilidade de nos desprendermos da negação negada, da raiz negativa contida no quadrado, toma, nas equações dos quadrados, um carácter de evidência marcante.

Agora um exemplo em calculo diferencial:

Começamos, então, por diferenciar as duas grandezas, x e y isto é, por supor que são tão infinitamente pequenas que desaparecem, comparadas com qualquer outra grandeza real, por pequena que seja, não restando, portanto, de x e y nada mais que sua razão ou proporção, despojada, por assim dizer, de toda a base material, reduzida a uma relação quantitativa da qual se eliminou a quantidade dy/dx, isto é, a razão ou proporção das duas diferenciais de x e y, se reduz, portanto, a 0/0, mas esta fórmula – nada mais é que a expressão da fórmula y/x. (…) Mas o que se fez senão negar x e y, negar, como a metafísica que omite e prescinde do que nega, senão negar de modo conforme com o caso presente? Substituímos as grandezas x e y pela sua negação, chegando, assim, em nossas fórmulas ou equações a dx e dy. Isso feito, seguimos nossos cálculos operando com dx e dy como grandezas reais, embora sujeitas a certas leis de exceção e ao chegar a um determinado momento, negamos a negação, isto é, integramos a fórmula diferencial, obtendo novamente, em vez de dx e dy, as grandezas reais x e y. E, ao fazê-lo, não tornaremos a nos encontrar no ponto do qual partimos, mas teremos resolvido o problema contra o qual se debateram, em vão, por outros caminhos, a geometria e a álgebra elementares.

Na Filosofia

A filosofia antiga era uma filosofia materialista, porém primitiva e rudimentar. Esse materialismo não seria capaz de explicar claramente as relações entre o pensamento e a matéria. A necessidade de se chegar a conclusões claras a respeito desse problema, levou à criação da teoria de uma alma separada do corpo e logo depois se passou à afirmação da imortalidade da alma e, por fim, ao monoteísmo. Desse modo, o materialismo primitivo se via negado pelo idealismo. Mas, com o desenvolvimento da filosofia, também o idealismo se tornou insustentável e, por sua vez, teve de ser negado pelo materialismo moderno. Este não é, entretanto, como negação da negação, a mera restauração do materialismo primitivo, mas, pelo contrário, corresponde à incorporação, às bases permanentes deste sistema, de todo o conjunto de pensamentos, que nos provêm de dois milênios de progressos no campo da filosofia e das ciências naturais e da história mesma destes dois milênios. Não se trata já de uma filosofia, mas de uma simples concepção do mundo, de um modo de ver as coisas, que não é levado à conta de uma ciência da ciência, de uma ciência à parte, mas que tem, pelo contrário, a sua sede e o seu campo de ação em todas elas. Vemos, pois, como a filosofia é, desse modo,”cancelada”, isto é,”superada ao mesmo tempo que mantida”; superada, com relação à sua forma; conservada, quanto ao seu conteúdo.

O próximo post continuará com mais dois exemplos da Negação da Negação, onde em ambos, o desenvolvimento das forças produtivas tem um papel directo.

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[1] Todas as transcrições foram retiradas de Capítulo XIII – Negação da Negação.
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Capítulo: Dialéctica – em Anti-Dühring (2)

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2). As transcrições serão relativas à lei das mudanças quantitativas em qualitativas.

É preciso um determinado valor de troca para se converter em capital

Engels cita Marx:

“nem toda a soma de dinheiro ou de valor, qualquer que seja, pode ser convertida em capital, sem que esta transformação suponha antes, a existência de um determinado mínimo de dinheiro ou de valor de troca nas mãos do possuidor de dinheiro, ou de mercadorias.”

E de seguida explica o exemplo dado por este:

Num ramo qualquer de trabalho, o operário trabalha para si mesmo 8 horas diárias, ou seja, para criar o valor de seu salário, trabalhando outras 4 horas para o capitalista a fim de produzir a mais-valia que vai então para os seus bolsos. Para isso, deve, necessariamente, existir alguém que disponha de uma soma de valor que lhe permita fornecer aos operários matérias-primas, meios de trabalho e salários, do modo a poder embolsar, todos os dias, a mais-valia necessária para poder viver, pelo menos, tão bem como dois de seus operários.

Mas como a produção capitalista não tem como objectivo simplesmente o de viver e se sustentar, mas também, o de incrementar a riqueza, não será suficiente que o nosso empresário tenha esses elementos, para que, utilizando os seus dois operários, seja um verdadeiro capitalista. Para poder viver duas vezes melhor do que um operário comum e para voltar a transformar em capital, a metade da mais-valia produzida, deveria dar trabalho a oito operários, possuindo portanto, quatro vezes a soma de valor de que tiveram necessidade para sustentar dois trabalhadores.

Estado Sólido, Líquido e Gasoso

[A] transformação dos estados da agregação da água que, sob a pressão normal do ar, ao chegar a 0 ºC, se converte de um corpo líquido em corpo sólido e aos 100º, de líquido em gasoso, caso esse que demonstra como, ao alcançar esses dois pontos decisivos, uma simples mudança quantitativa de temperatura provoca uma transformação qualitativa do corpo.

Mais exemplos na Química

Das séries homólogas de combinações de carbono, muitas das quais já são conhecidas [1], cada uma delas tendo a sua própria forma algébrica sintética. Assim, pois, Se, do mesmo modo que os químicos, chamarmos um, átomo de carbono de C, um átomo de hidrogênio de H um átomo de oxigênio de O e por n o número dos átomos de carbono encerrados em cada combinação, podemos expor as fórmulas moleculares de algumas dessas séries, do seguinte modo:

Série da parafina normal: CnH2n+2
Série de alcooes primários: CnH2n+20
Série dos ácidos graxos monobásicos: CnH2n O2.

Se tomarmos como exemplo a última dessas séries e adotarmos, sucessivamente, n=1, n=2, n=3, etc., teremos os seguintes resultados (deixando de pôr os isómeros):

ácido fôrmico – CH2O2 – ponto de ebulição: 100 º – ponto de fusão: 1.º
ácido acético – C2H4O2 – ponto de ebulição: 118º – ponto de fusão: 17.º
ácido propriônico – C3H6O2 – ponto de ebulição: 140º – ponto de fusão: –
ácido butirico – C4H8O2 – ponto de ebulição: 162º – ponto de fusão: –
ácido valeriânico – C2H10O2 – ponto de ebulição: 175º – ponto de fusão: –

e assim sucessivamente, até chegar ao ácido melíssico (C30H60O2) que não se funde até os 80º e não tem ponto de ebulição pela simples razão de que esse ácido se decompõe ao se evaporar.

Temos, pois, aqui, toda uma série de corpos qualitativamente distintos, formados pela simples adição quantitativa de elementos que são, além do mais, agregados sempre na mesma proporção. Esse fenômeno ainda se torna mais claro quando todos os elementos, que entram na composição, variam na mesma proporção e na mesma quantidade, como acontece com a série das parafinas normais (CnH2n+2). A primeira fórmula é o metano (CH4) que é um gás; a fórmula mais elevada que se conhece é o hecdecano (C16H34), corpo sólido formado por cristais incolores, que se funde a 21º, e que só atinge o seu ponto de ebulição a 278º. Em ambas as séries basta acrescentar CH2 ou seja, um átomo de carbono e dois de hidrogênio, à fórmula molecular do membro anterior da série, para que se tenha um corpo novo; donde se conclui que uma mudança puramente quantitativa da fórmula molecular faz surgir um corpo qualitativamente diferente.

Testemunho de Napoleão

Este é um exemplo curioso! Diz Engels:

Para terminar este capítulo vamos dar um testemunho final a favor da mudança da quantidade em qualidade: o testemunho de Napoleão. Napoleão descreve o combate travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão:

“Dois mamelucos sobrepujavam, indiscutivelmente, a três franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100 franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1.000 franceses derrotavam, inevitavelmente, 1.500 mamelucos”.

Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a força da disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças, com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta de melhores montarias e de soldados tão bravos pelo menos quanto os outros.

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[1] Anti-Dühring é de 1877…

Capítulo: Dialéctica – em Anti-Dühring

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2).

O capítulo Dialéctica: Quantidade e Qualidade, começa com a perspectiva de Dühring sobre a Dialéctica. Engels resume numa frase essa perspectiva: “a contradição é o absurdo e que, portanto, não pode se dar no mundo da realidade.”. Refutando esta perspectiva, Engels parte – entre outras considerações – para uma série de exemplos onde demonstra a Dialéctica.

Na Matemática

…o cálculo diferencial (…) equipara, em certas circunstâncias, as rectas às curvas

E uma pequena frase bastou para refutar a tese de Dürhing. Que mal estariam os matemáticos se tivessem o bom senso de Dühring!

O Movimento

O próprio movimento, por si mesmo, é uma contradição; o deslocamento mecânico de um lugar para outro somente pode ser realizado por estar um corpo, ao mesmo tempo, no mesmo instante, num e noutro lugar; e também pelo fato de estar e não estar o corpo ao mesmo tempo no mesmo local. A sucessão continua de contradições desse género, ao mesmo tempo formadas e solucionadas, é precisamente o que constitui o movimento.

E, se o simples movimento mecânico, a simples mudança de um para outro lugar, contém uma contradição, suponha-se então a série de contradições que estarão contidas nas formas superiores de movimento da matéria:

Na Vida

…a vida consiste, precisamente, essencialmente, em que um ser é, no mesmo instante, ele mesmo e outro. A vida não é, pois, por si mesma, mais que uma contradição encerrada nas coisas e nos fenômenos, e que se está produzindo e resolvendo incessantemente: ao cessar a contradição, cessa a vida e sobrevem a morte.

No Pensamento

…no domínio do pensamento, não podemos escapar às contradições e que, por exemplo, a contradição entre a faculdade humana de conhecer, interiormente infinita, e a sua existência real nos homens que são exteriormente limitados e cujo conhecimento é limitado, resolve-se na série de gerações, serie que para nós, não tem praticamente fim – pelo menos num infinito progresso.

Na Matemática (mais uma vez)

Uma outra contradição das matemáticas superiores é a que se observa quando se cruzam duas linhas; estas, na distância de cinco ou seis centímetros do ponto de intersecção, se tornam linhas paralelas, que, por mais que se prolonguem, até o infinito, não se hão de encontrar.

Terminemos, por agora, com estas últimas considerações de Engels:

Não nos é necessário, todavia, sair dos quadros limitados destas matemáticas inferiores, para encontrar contradições em todos os terrenos. Não há uma contradição, por acaso, no fato de que uma raiz de A seja uma potência de A, e ainda que A½ = √A? Não há uma contradição no facto de que uma grandeza negativa não possa ser o quadrado de nenhuma outra, embora toda grandeza negativa multiplicada por si mesma dê um quadrado positivo? A raiz quadrada de menos um (-1) é, pois, não somente uma contradição, mas simplesmente uma contradição absurda, um verdadeiro contra-senso. Entretanto, é, em muitos casos, o resultado necessário de uma operação matemática exacta; e mesmo, onde estariam as matemáticas, tanto as elementares como as superiores, se lhes fosse proibido operar com a raiz quadrada de menos um?

As duas versões que possuo do livro são traduções que deixam muito a desejar, sendo por vezes quase impossível perceber o que deveriam ter escrito. Com a ajuda desta versão em inglês, e com os conhecimentos em matemática que tenho, julgo ter melhorado as traduções acima citadas. Não dominando os conceitos acima transcritos, agradeço a quem tenha correcções ou algo mais a acrescentar.