Categoria: O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista

“Os objectivos (…) não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os”

«No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.»

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.

Para ler mais sobre este livro no blog, aqui.

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Teoria e Prática – uma relação dialéctica

Não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária¹. A teoria esclarece e orienta a actividade prática. Mas a teoria enriquece-se com os ensinamentos da prática, afere-se na prática e, quando separada da prática, torna-se estéril, vazia e inútil. Por isso, ao discutirem-se concepções acerca da situação política, dos objectivos da luta, do processo revolucionário, tem-se em vista a definição correcta das tarefas que se colocam às forças revolucionárias e a sua realização. Conforme com uma indicação célebre², o problema que se coloca aos comunistas não é apenas o de explicar e interpretar o mundo, mas o de transformá-lo.

Álvaro Cunhal, in «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista»³, 1970.

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[1] Referência a frase de Lénine escrita, salvo erro, em «Que fazer?»;
[2] A indicação célebre é referência à última das Teses sobre Feuerbach (1845) de Karl Marx;
[3] Citação retirada da 4º edição, página 17.

Verbalismo Pequeno-Burguês e Acção Revolucionária

Todas as concepções dos radicais pequeno-burgueses de fachada socialista acusam o afastamento da luta popular, a descrença na acção das massas, a incapacidade para o complexo trabalho revolucionário nas condições do fascismo, a carência de organização, a impaciência e desespero resultantes da falta de perspectiva.

(…)

Não se pode excluir que, em Portugal, o radicalismo pequeno-burguês venha também a ter os seus heróis. Mas, mesmo nesse caso, estes não resolveriam, nem poderiam resolver, os complexos problemas de uma revolução, que só a organização, a acção política, as lutas de massas, podem resolver.

(…)

O radicalismo pequeno-burguês vive da frase revolucionaria e ilude atrás desta a sua real incapacidade de organização e de acção.

«A frase revolucionária (escreveu Lenine) é a repetição das palavras de ordem revolucionárias sem ter em conta condições objectivas, as mudanças provocadas pelos mais recentes acontecimentos, a situação do momento. Palavras de ordem excelentes, que estimulam e embriagam, mas desprovidas de base sólida, tal a essência da frase revolucionária»

(Lénine. Oeuvres, t. 27, p 11).

(…)

Perdidos uns em pequenas aventuras, incapazes outros mesmo de tentá-las, todos se voltaram para a «teorização». (…) Como escreveu Lenine:

«esta tendência para substituir a acção pela discussão e o trabalho pelo falatório, (…) para empreender tudo sem levar nada ao seu termo, é um dos traços próprios das pessoas «instruídas», que não resultam de forma alguma de uma má natureza, menos ainda de más intenções, mas de todos os seus hábitos de vida, das suas condições de trabalho, da sua fadiga intelectual, da separação anormal entre o trabalho intelectual e o trabalho manual e assim sucessivamente»

(Lenine, Oeuvres, t. 26, p. 341)

São citações retiradas do final do livro no capítulo «Acção Revolucionária e Verbalismo». Elas ganham outra dimensão quando enquadradas com os capítulos anteriores. Estes revelam a inconsequência de vários movimentos radicais pequeno-burgueses durante o fascismo, e que perante o insucesso ficam-se remetidos ao verbalismo. Pode ficar-se a imaginar que no livro apenas se fala do radicalismo pequeno-burguês de forma negativa para a luta revolucionária, mas não. No entanto, da introdução retiro esta passagem dizendo assim:

A radicalização da pequena burguesia é um fenómeno positivo. (…) Traz ao movimento operário numerosos quadros revolucionários que, esclarecidos pelo marxismo-leninismo, compreendem o papel da classe operária, se integram na sua vanguarda e dedicam a vida à causa dos trabalhadores.

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Transcrições do livro de Álvaro Cunhal «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», escrito em 1970 e publicado no ano seguinte.

A condição é que a classe operária tenha a hegemonia na revolução

Quanto à passagem da revolução democrática à revolução socialista, ou, por outras palavras, da passagem da etapa democrática à etapa socialista da revolução, já Marx e Engels no Manifesto Comunista admitia que a revolução burguesa na Alemanha, dado o desenvolvimento do proletariado nesse país, seria «o prelúdio imediato de uma revolução proletária».

Em Portugal, deduzo eu, esse prelúdio de uma revolução proletária, socialista, deu-se a 5 de Outubro de 1910 quando a revolução burguesa destituiu a Monarquia e implantou a Primeira República portuguesa. Esta comandada pela pequena e a média burguesia.

Antes do capitalismo monopolista, os movimentos democráticos dirigiam-se fundamentalmente contra o feudalismo, tinham um carácter democrático-burguês, inseriam-se no processo da revolução burguesa. Na actualidade salvo em países subdesenvolvidos, tem fundamentalmente um carácter antimonopolista.

(Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal, 1971)

Se antes a luta era contra o feudalismo e depois a luta tornar-se-ia contra os monopólios, então o que terá ocorrido entre 1910 e 1971? Remeto parte da resposta para as seguintes transcrições:

Quando, em 1926, os grandes capitalistas e os latifundiários correm com o governo da pequena e média burguesia e tomam conta do poder, não existiam ainda grandes grupos industriais e o capital financeiro (…) estava longe de ser preponderante na economia nacional.

(idem)

E,

A política do governo fascista (comandada pela grande burguesia) foi facilitar, pela imposição coercitiva e pelo auxílio directo do Estado, o processo de formação, acumulação, centralização e concentração de capitais, num ritmo mais apressado que aquele que seria ditado pelo simples curso das leis económicas num sistema de livre concorrência.

(idem)

Perante determinado grau de desenvolvimento do capitalismo e das suas relações interclassistas, que alianças de classe serão as adequadas? Sobre o «sistema de alianças» entre classes nas distintas revoluções, ou, por outras palavras, na distintas etapas da revolução, Álvaro Cunhal escreveu:

Os aliados do proletariado para a revolução socialista não são os mesmos que para a revolução democrática e nacional. Nesta, o proletário desfere o golpe fundamental contra os monopólios (associados ao imperialismo) e os latifundiários e alia-se a uma parte da burguesia (a pequena burguesia e sectores da média) interessada na luta antimonopolista. A revolução socialista dirige-se contra a burguesia no seu conjunto, e por isso alguns aliados do proletariado na primeira etapa (sectores da média burguesia urbana, camadas de camponeses médios, mesmo algumas camadas da pequena burguesia) deixam de o ser na revolução socialista.

(idem)

Todas estas citações são retiradas de um livro de 1971. E hoje, em 2011, perante uma das mais graves crises do capitalismo? Não me aventurei neste post a partir para qualquer análise do momento que vivemos, mas espero que esta viagem por citações do livro ajude.

Para as lutas de agora e do futuro, apenas deixo aqui a próxima citação onde o sublinhado é da minha autoria:

Lenine elaborou a teoria do desenvolvimento contínuo do processo revolucionário, da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista, sob condição de que a classe operária tivesse um papel hegemónico na própria revolução democrática-burguesa.

(idem)

A teoria está correcta? Sim, tal como a revolução russa provou na prática.

Agora, resta-nos criar as condições para que o próximo “5 de Outubro” tenha então o operariado como classe hegemónica na revolução.

São verdades elementares do marxismo-leninismo que…

É frequente assistir a diálogos onde surge argumentos (falaciosos) que só são usados contra os comunistas. Um desses exemplos é quando alguém diz algo como “Pois, mas em Cuba…”, como se a conversa não estivesse sendo sobre a realidade portuguesa, com um comunista português, ou implícito um partido que se chama, não por acaso, Partido Comunista Português.

Estas palavras foram escritas por Álvaro Cunhal:

São verdades elementares do marxismo-leninismo que as tarefas da classe operária e da sua vanguarda devem ser definidas, em cada país, na base da análise da situação específica existente nesse país, das condições sociais e políticas, do grau e características do desenvolvimento do capitalismo, das relações de produção, dos conflitos, da correlação e da arrumação de forças das classes sociais. A repetição de formulas e a cópia mecânica de experiências conduzem necessariamente a uma incorrecta definição das tarefas do proletariado.

Antes de mais, estas palavras evidenciam o carácter criativo do marxismo-leninismo e da luta da classe operária e da sua vanguarda. E concluindo: deixam também claro que o tipo de argumento “Pois, mas em Cuba…” não é de todo correcto.

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citação retirada do livro «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», publicado em 1971.