Cap. III – divisão. apriorismo

Nota prévia: Voltamos ao “Anti-Dühring”, naquilo que pretendemos que seja uma postagem mais frequente. Revisitaremos alguns capítulos sobre os quais já existem posts por pretendermos ganhar balanço e efectuar uma discussão mais colectiva.

O apriorismo de Dühring

É neste capítulo que Engels empreende a crítica às teses de Dühring, começando pela sua filosofia. Com base na profunda semelhança entre as ideias do influente filósofo alemão Hegel e as propostas por Dühring, Engels identifica este último como um pensador idealista, isto é, alguém que pretende “tirar da sua cabeça, sem utilizar a experiência que nos oferece o mundo exterior”, as formas desse mesmo “ser exterior”.

A abordagem de Dühring parte do estabelecimento de princípios “de todo o saber e todo o querer” através da filosofia. Este desenvolvimento da consciência permitiria depois aplicar um esquema de dedução lógica relativamente a todas as esferas particulares da vida: da organização do universo, aos fundamentos da natureza e, finalmente, aos da humanidade. Esta formulação pode ser denominada de apriorísitica pois estabelece princípios preexistentes ao mundo a partir dos quais  o mundo é concebido. Verifica-se que no limite, ao apresentar estes princípios, Dühring acaba por negar qualquer progresso para o conhecimento humano e para as suas ciências, adoptando uma postura omnisciente!

Bem, como a leitura das teses de Dühring é mediada por Engels, só o absurdo pode vir ao de cima. Interessa antes perceber como se constrói a crítica positiva de Engels, naquilo que é uma exploração dos fundamentos epistemológicos do marxismo.

As insuficiências do apriorismo

Como se forma, então, o conhecimento do mundo para o homem, ser pensante? Em contraponto com as posições idealistas, Engels traça uma perspectiva baseada e regida pela experiência humana:

Os princípios não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais; não se aplicam à natureza e à história humana, mas deles são extraídos; não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história.

Mas se isto parece tão simples, como explicar o caminho percorrido por Dühring, como compreender esta visão “de cabeça para baixo”? Engels aponta a concordância que os idealistas encontram entre a consciência e a natureza, levando-os a derivar esta da primeira. Mas este é um ponto fundamental: o que pensamos é produzido por um cérebro humano que por seu lado é produto da natureza e se desenvolve com no seu meio ambiente. Não devia, portanto, causar admiração a identificação entre o pensamento humano e a ordem da natureza.

Segundo Engels, a vanidade e a megalomania de Dühring justificam que este rejeite uma explicação tão simples e se atarefe a tornar o pensamento independente do homem e da base real que o sustenta.

Na fantasia de Dühring era possível a partir do mundo do pensamento determinar o sistema de funcionamento da Realidade. As tais preposições pré-existentes a partir dos quais  o mundo é concebido é quanto basta para deduzir o Todo.  Na presunção do Sr. Dühring seria então possível definir um sistema fechado e determinado das concatenações do universo, tanto físico, espiritual e histórico. Assim, teria chegado ao fim o ciclo – ou o processo – do conhecimento e da história. Tal não acontece, e Engels expõe-o nestas palavras:

Os homens vêm-se, pois, colocados ante esta contradição: de um lado, levados a investigar o sistema do mundo, englobando todas as suas condições e relações; de outro, por sua própria natureza e pela natureza mesma do sistema do mundo, não podem jamais resolver por completo esse problema.

2 pensamentos sobre “Cap. III – divisão. apriorismo

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