kick-off

Cabe-me a mim abrir, pelos vistos. Não pretendo definir os moldes da discussão nem descambar em propaganda. Talvez não me fique pelas certezas.

No seu prefácio de 1878, Engels justifica este livro com a disputa com Duhring, dada a crescente influência deste nas fileiras socialistas alemãs – contextualizando com a então recente unificação do Partido Social-Democrata (ver post posterior sobre o livro “Crítica do Programa de Gotha”?) e os perigos de dissenção interna. Contudo, no prefácio de 1894, altura em que o estrépito de “latão” de Duhring se abafara, reconhece-se que “a crítica negativa tornou-se positiva”, ou seja, ultrapassada a polémica, ficara a necessidade de divulgar as ideias do marxismo. Isto na sequência da publicação do “Capital” e das movimentações proletárias na Europa e mundo fora… (quantos futuros posts?)

Um aspecto interessante a considerar na crítica a Duhring: Engels reconhece ter seguido o seu adversário por áreas do conhecimento onde se considera um mero diletante. Atendendo 1) à profundidade da diletância de um homem que conheceu a vida revolucionária e o crivo da academia alemã, 2) efervescência científica no último quartel do séc. XIX, prenúncio de grandes mudanças, num cenário de ainda (?) fraca divisão dos saberes, que correcções poderemos nós (eu?) trazer? E serão essas correcções uma crítica efectiva ao marxismo? Na minha opinião, não – mas vamos percorrer o caminho.

Aliás, é Engels que reconhece a insuficiência científica da sua exposição quando refere no prefácio de 1894 novos dados e descobertas das ciências naturais (vide “A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada” e “Dialéctica da Natureza” para uma actualização científica?). Assim, quando clama que o método dialéctico, vertido de Hegel, preside ao “conjunto da natureza” de que não conhece o “pormenor”, estaremos na presença dum embuste?

Não bato de novo na tecla da divisão do saber (fica para outra), mas penso que é a vitória sobre o obscurantismo promovido pelo furioso progresso das ciências e da técnica que confirma a tese de Engels. A saber: o incessante acumular de conhecimento, pondo em causa as concepções anteriores, revolucionando-se, é uma expressão prática da dialéctica pelo questionar (empírico) das “oposições e delimitações” da ciência anterior. Engels aponta imediatamente como factos experimentais a mudança de estado das substâncias (que se passara a entender como um contínuo de fases); a teoria cinética dos gases (com a relação entre a energia do gás e o movimento das moléculas); o conceito de transformação da energia (como essencial na compreensão da lei da sua conservação); a teoria da evolução biológica (ultrapassando a anterior rigidez das classificações). Entender que a natureza é composta de contrários e diferenças em permanente mutação e que têm apenas um valor relativo, leva-nos a reconhecer que a abordagem correcta da realidade, a que traduz o seu carácter, é a concepção dialéctica – e consciente das leis pensamento dialéctico.

É daqui que parto. E o meu dia a dia até parece corroborar esta perspectiva.

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