Categoria: Jean Salem

A democracia, um engodo para os tolos? (Jean Salem)

Sexta passada acorri ao congresso Marx em Maio para assistir à intervenção do professor Jean Salem, cujo livro Lénine e a Revolução já abordámos por aqui anteriormente. Como não estivemos todos presentes, decidi colocar neste blog as notas que tirei dessa intervenção.

democracia em obras

Para além do livro já referido e de entrevistas ao autor que já havia lido, o título da sua comunicação destacava-se da maioria por convocar uma reflexão em termos correntes (“piège à cons” até remete para populismo, não?). E as minhas expetativas foram totalmente correspondidas: não só Jean Salem não se alongou em citações de outros autores, como o seu discurso era muito bem estruturado e ilustrado por diversos exemplos. O que poderia parecer um apanhado de curiosidades, sem nexo, era integrado numa análise do fenómeno eleitoral na sociedade burguesa visivelmente ancorado na perspetiva marxista – e isto sem recorrer a Marx a cada duas orações. (mais…)

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Agora toca a “Compreender a Economia”!

Tanto falamos aqui em devir e mudança e não é que tardava em mudar o nosso livro escolhido?!? Avançamos agora com o manual de economia marxista editado há cerca de um ano pelas edições Avante!: “Compreender a Economia” por Jacques Gouverneur.

O propósito é rever e alargar as minhas bases marxistas de economia, sem descurar o imprescindível ataque ao “capitalismo contemporâneo”. Hoje abordo o prefácio.

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“O que é a revolução do ponto de vista marxista?”

Ando a ler «Lenine e a Revolução» de Jean Salen e a determinado ponto do livro surge a questão “O que é a revolução do ponto de vista marxista?”. O autor começa por responder que a revolução é «a destruição violenta da superstrutura política antiquada» e em seguida remete-nos por um conhecido trecho de Karl Marx explicando a dinâmica que as provoca:

na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura… etc.

in Para a Crítica da Economia Política (1859)

Este post coincide com impressionantes e comoventes acontecimentos no Egipto. O meu conhecimento sobre esse país não me permite aventurar em grandes analogias a partir citação, mas não me parece que esteja a ocorrer uma mudança das relações de produção, isto é, desconheço que haja uma «deslocação» da possessão dos meios de produção de uma classe social para outra, contudo a «superstrutura jurídica e política» no país poderá ter caído e, esperemos, que surja uma superstrutura mais adequada à actual «consciência social» e desenvolvimento das forças produtivas.

A revolução no Egipto não surgiu de um momento para o outro certamente, este «turbilhão revolucionário» é o culminar de «antagonismos sociais amadurecidos» ao longo de muito tempo. Agora, as massas, que sempre permaneceram na sombra, intervêm activamente no palco e combatem, e terão de o fazer durante muitos mais dias, anos e décadas. É de realçar que, os factores subjectivos têm também um importante papel do desencadear das revoluções: é preciso «ter fé na revolução». Neste caso, esta fé terá sido induzida através da centelha tunisina. Que ela incendeie todo o Mundo.

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as palavras entre aspas são expressões de Lénine usadas por Jean Salen no livro