[I] evolução das ideias socialistas

I – Noções gerais

A pena larga de Engels pretende contextualizar o socialismo moderno (expressão que à altura tem um significado que quero retraçar neste blogue, mas que hoje é actual e necessária face aos socialismos que para aí vogam…), ressalvando sempre a relação entre a evolução das ideias e da história.

Assim, refere-se a ascensão da burguesia na revolução francesa de 1891, no plano político sob os auspícios da Razão e no económico – arrastando a sua antítese: o Trabalho. Os interesses das classes trabalhadoras exprimem-se em diferentes épocas e movimentos (Münzer, os Niveladores, Babeuf), progressivamente instituindo-se ideias que Engels apelida de comunistas, que pretendem o reconhecimento da igualdade social e não só a conquista de direitos políticos.

Para Engels, surgem, então, os utopistas (Saint-Simon, Fourier, Owen) que pretendem a emancipação do Homem e julgam representar todas a classes na defesa da justiça universal. A sua importância está no: reconhecimento e influência política que tiveram nas classes trabalhadoras dos século XIX; na similitude que se encontram noutros teóricos socialistas, afastados da realidade nas suas análises. Julgo que é importante reconhecer que a crítica de Engels aos socialistas antecedentes visa a sua superação positiva, isto é, aquelas ideias tiveram o seu papel histórico e devem ser combatidas num quadro social em que se haviam tornado reaccionárias, contudo o socialismo moderno vai buscar as suas diferenças não a um julgamento que se auto-define mais justo mas que se baseia na análise científica da realidade.

Como a verdade absoluta é independente do espaço, do tempo, do desenvolvimento do homem e da história, só o acaso pode decidir quando e onde se deve revelar o seu descobrimento. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça absolutas, variam conforme o fundador de cada escola.

Por trás desta evolução Engels chama a atenção para o desenvolvimento das ideias e das ciências. Neste sentido, traça a existência da concepção dialéctica dos Antigos a Descartes, Espinosa, Diderot, Rousseau. A ideia de que a relação e a transformação presidem ao universo: a nossa concepção é, pois, complexa e contraditória, transitória e incompleta. Na sequência, contrapõe a  concepção do mundo nos metafísicos ingleses, Bacon e Locke, ao contributo dos alemães, Kant e Hegel. Neste último, o idealismo sendo a premissa que o impedia de concretizar coerentemente a aplicação do método dialéctico – e a afirmação do materialismo como a concepção que permitia sintetizar os conhecimentos entretanto adquiridos.
A história avançava e Engels e a luta de classes ganhava outros contornos com o desenvolvimento da grande indústria e o (recente) domínio político da burguesia: em Lyon, em 1831, a 1ª sublevação operária, de 1838 a 1842, os Cartistas ingleses, as revoluções de 1848…

Os novos factos obrigaram a submeter a história inteira a novas análises, e então pôde ver-se que toda a história não é mais do que a história de luta de classes, e que essas classes que combatem entre si não são mais do que as condições de produção e de troca, numa palavra, das condições económicas da época e que em todas as ocasiões a estrutura económica da sociedade constitui a base real que permite, em última análise, explicar toda a superstrutura de instituições políticas e jurídicas, assim como a ideologia religiosa e filosófica de cada período histórico.

É aqui que Engels faz o seu ponto relativamente à evolução das ideias socialistas: na medida em que não se procuravam cientificamente as causas da miséria resultante do capitalismo, não se buscava determinar o seu carácter histórico, necessário e transitório, o socialismo via-se reduzido a lamentar e amaldiçoar as consequências da produção capitalista. É a concepção materialista da história, com Marx e a sua teoria da mais-valia que Engels defende ter sido atingida a maturidade na análise do capitalismo e estarem definidas as condições do seu derrube.

Julgo, assim, que tendo Engels necessidade de retraçar as ideias do socialismo – para melhor desmascarar Dühring –, fá-lo expondo a dialéctica das ideias e da história, contextualizando os homens e o seu pensamento nas suas épocas e não entronizando o marxismo. De resto, o livro procura demonstrar a base genuínamente científica do marxismo sem o reduzir à invenção de um ou dois homens geniais, mas antes como resultado da evolução histórica.

Procurarei em posts seguintes dar conta dalgumas das referências aqui feitas, pois, pelo que foi dito, creio que se tratam de factos importantes, cuja discussão fará todo o sentido aqui.

2 pensamentos sobre “[I] evolução das ideias socialistas

  1. Gostei muito deste post. Muito podia dizer acerca dos motivos que me agradou lê-lo, e me agradará relê-lo. Mas, saliento que algumas frases um tanto subtis, têm muito que se lhe diga. Por exemplo esta:

    o livro procura demonstrar a base genuinamente científica do marxismo sem o reduzir à invenção de um ou dois homens geniais, mas antes como resultado da evolução histórica.

    E agora, respondo quando um post sobre a “obamização” foi já publicado, e como é importante essa noção de que a história não se rege pela genialidade de alguns homens geniais…

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