Liberdade e Necessidade

Foi a curiosidade em saber sobre a relação entre a Liberdade e a Necessidade que me levou a querer ler o Anti-Dürhing. Porquê? O nono capítulo do livro tem como título exactamente «Moral e Direito: liberdade e necessidade»; nada mais apelativo para matar a curiosidade.

No entanto, finalmente chegado o momento de o ler, o capítulo em causa deixou-me um pouco desiludido. Não só ele foi quase completamente dedicado à exposição da filosofia de Dürhing, como a primeira metade debruçava-se sobre direito: um pincel!

Mas nem tudo foi aborrecido, pois Engels não poderia deixar de expôr a relação entre liberdade e a necessidade. O parágrafo em que ele o faz está transcrito abaixo. Dei-me à liberdade de subdividir o parágrafo para facilitar a leitura.

Liberdade é a intelecção da Necessidade

Foi Hegel o primeiro que soube expor de um modo exato as relações entre a liberdade e a necessidade. Para ele, a liberdade não é outra coisa senão a intelecção da necessidade.”A necessidade somente é cega enquanto não compreendida”. A liberdade não reside, pois, numa sonhada independência em relação às leis naturais, mas na consciência dessas leis e na correspondente possibilidade de projetá-las racionalmente para determinados fins.

Liberdade e a Necessidade são indissociáveis

Isto é verdade não somente para as leis da natureza exterior, mas também para as leis que presidem a existência corporal e espiritual do homem: duas espécies de leis que podemos distinguir, quando muito, em nosso pensamento, mas que na realidade, são absolutamente inseparáveis.

Mais liberdade ↔ Mais consciência da necessidade

O livre arbítrio não é, portanto, de acordo com o que acabamos de dizer, senão a capacidade de decisão com conhecimento de causa. Assim, pois, quanto mais livre, for o juízo de uma pessoa com relação a um determinado problema, tanto mais nítido será o caráter de necessidade determinado pelo conteúdo desse juízo; ao contrário, a falta de segurança que, baseada na ignorância, parece escolher, livremente, entre um mundo de possibilidades distintas e contraditórias, está demonstrando, desse modo, justamente a sua falta de liberdade, está assim demonstrando que se acha dominada pelo objeto que pretende dominar.

Liberdade: produto da evolução histórica

A liberdade, pois, é o domínio de nós próprios e da natureza exterior, baseado na consciência das necessidades naturais; como tal é, forçosamente, um produto da evolução histórica. Os primeiros homens que se levantaram do reino animal eram, em todos os pontos essenciais de suas vidas, tão pouco livres quanto os próprios animais; cada passo dado no caminho da cultura é um passo no caminho da liberdade. Nos primórdios da história da humanidade, realizou-se a descoberta que permitiu converter o movimento mecânico em calor: a produção do fogo pela fricção; o progresso tem, atualmente, como sua etapa terminal, a descoberta que transforma, inversamente, o calor em movimento mecânico: a máquina a vapor. E apesar do colossal abalo de libertação que a máquina a vapor trouxe ao mundo social – e que até hoje ainda não deu sequer a metade de seus frutos – é indubitável que a produção do fogo pela fricção, nos tempos primitivos, foi superior àquela descoberta como condição emancipadora. O fogo, obtido dessa forma, foi que permitiu ao homem o domínio sobre uma força da natureza, emancipando-o definitivamente das limitações do mundo animal. A máquina a vapor não poderá jamais representar um passo tão gigantesco na história do homem, por mais que apareça, ante nossos olhos, como a representação de todas essas gigantescas forças produtivas a ela incorporadas e sem as quais não seria possível instaurar um regime social livre de todas as diferenças de classe, mais preocupação os meios de existência individual, e pela primeira vez, uma liberdade verdadeiramente humana em harmonia com as leis naturais que conhecemos.

Situemo-nos no tempo…

O simples fato de toda a história anterior à nossa época poder ser designada como a história do período que começa com a descoberta prática, que converte o movimento mecânico em calor e culmina com a descoberta que transforma o calor em movimento mecânico, esse simples fato indica como é jovem ainda a história humana, e também como seria ridículo querer imprimir às nossas idéias atuais um caráter absoluto.

Friedrich Engels, Anti-Dürhing

… e por fim, valeu muito a pena lê-lo, mesmo que apenas pelo supratranscrito.

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