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O Poder das Eleições

O poder não é dado por umas eleições ou um referendo. O poder é uma relação social. Ele é equilibrado ou desequilibrado de acordo com a dinâmica das relações sociais entre classes, e a concretização de determinadas políticas são ou não possíveis resultado disso. As próprias eleições são uma conquista/concessão resultante dessa dinâmica. Sem dúvida que um processo eleitoral pode permitir a uma classe não dominante subir formalmente ao poder de um Estado ou qualquer outra organização, mas isso não significa necessariamente que detém o poder. Na Grécia, país da União Europeia, isso começa a ficar cada vez mais evidente. O povo elegeu um governo anti-austeridade, mas o real poder é “austero”.

Há tempos ouvia com atenção um homem de direita alegar que se o governo português foi eleito pela maioria dos portugueses, então deveria poder executar as suas políticas livremente. Isso para ele é que seria uma verdadeira democracia. E acrescentava que os sindicatos não se deviam meter, pois quem foi eleito democraticamente foi o governo, e não eles. Indirectamente, este senhor assumia que o poder dado por eleições não é absoluto mas resultado de uma dinâmica social.

À esquerda do espectro político não são poucos aqueles que estão profundamente iludidos pelos actos eleitorais. Admitem como natural que seus partidos sejam quase meramente eleitoralistas, abdicando quase por completo transformar a referida “dinâmica social”, fortalecendo o proletariado até se tornar poder dominante. Acreditam que tais partidos eleitoralistas são revolucionários! Assim, no fundo, pensam que nos palácios e gabinetes do poder formal está o poder concreto. Esta é uma das facetas do esquerdismo.

Há tempos atrás, numa manifestação organizada pela CGTP, um grupinho “radical” queria subir a escadaria e entrar à força no Palácio de São Bento, onde se reúne a Assembleia da República, para tomar o poder. Chegados lá dentro, fariam o quê? Achavam eles que todas as outras organizações do Estado submetidas à AR iriam acatar as suas leis e decretos?! O Palácio de Belém são apenas paredes e o poder não é dado por elas. Acreditam eles que são revolucionários!

O sufrágio universal é uma conquista importantíssima e uma oportunidade imperdível para a elevação da luta de massas, mas a sua importância e contexto tem de ser devidamente analisada, não podendo ser os actos eleitorais o alfa e ómega da militância política para quem compreende que a revolução é um objectivo necessário à transformação da sociedade.

A revolução não se faz, organiza-se! – para bom entendedor…

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um certo discurso sobre a mobilidade

No seguinte link poderão aceder ao nº 11 da revista MOV Lisboa, que é uma “newsletter” do pelouro de mobilidade da CML.

Tudo bem: é de louvar a proximidade dos eleitos (o vereador) com os eleitores. A comunicação e a interação são um aspeto fundamental da nossa sociedade, como prova este blog. E neste número 11 aborda-se o tema do planeamento urbano, um tema bem interessante.

Mas não são elogios que motivam este post. É antes o profundo aborrecimento com que leio os discursos pífios do vereador e algumas tiradas inanes dos catedráticos de serviço. (mais…)

Os Avanços Revolucionários na América Latina – Remy Herrera

O livro em causa, editado recentemente pelas edições Avante!, é da autoria de Remy Herrera, um professor universitário francês, bastante regular nas suas contribuições em sites de informação alternativa. Portanto, o que está aqui em causa é a perspectiva, de alguém informado e com um forte comprometimento de classe, sobre os acontecimentos políticos e sociais actualmente em curso na América Latina.

É evidente não é possível resumir e comentar em cerca de 140 páginas todo o movimento complexo referido. Afinal, trata-se de um território tão vasto, com tantos povos e histórias (por vezes que entre-cruzam fortemente), que merece uma análise bem cuidada e informada. E mesmo o autor não consegue restringir o seu texto à actualidade, uma vez que esta é devedora dos acontecimentos que a antecederam e, também, porque há lições importantes a retirar do passado destes povos.

Desta forma, não é objectivo deste post dar conta de todas as análises sustentadas no livro: vou apenas focar-me na perspectiva geral. Eventualmente, retornaremos a este livro como referência para comentar a situação ou a história de algum país latino-americano. (mais…)

“O Assassinato de Lumumba” – Ludo de Witte

Publicado em finais de 1990’s, este livro trata-se de um trabalho de investigação que põe a descoberto a responsabilidade da Bélgica, da ONU e da comunidade internacional no assassinato do político congolês Patrice Lumumba, em 1961. Contrariando, a versão da história acarinhada pela classe dirigente belga, Ludo de Witte apoia-se em documentos e registos de comunicações oficiais da época para mostrar as acções e os interesses por trás deste evento político de suma importância.

 

Em 1960, os belgas acederam tornar independente a sua colónia do Congo (Congo-Léopoldville), fruto do ascenso nacionalista. Redigiram uma Constituição para a nova república e permitiram eleições livres; cederam o controlo das forças de segurança e militares, muito embora mantendo a sua influência estratégica (os assessores) e funcional (o dinheiro); asseguraram que se mantinha a propriedade e a segurança das holdings presentes no país, nomeadamente as de exploração de cobre na região do Catanga, no sul do país. Portanto, tudo mudaram para que tudo permanecesse na mesma. (mais…)

Se me saísse a lotaria…

Foi durante um jantar. Alguém se pôs a sonhar alto com o que faria caso ganhasse a Lotaria ou o Euromilhões. Casa, carro, férias, trabalhar menos, oferecer uma dentadura à mãe… E quando chegou a vez de um comunista dizer o que faria a tanto dinheiro, alguém diz

Ahhh!, tu não podes [ser rico], és comunista.

É tão frequente, que tenho uma frase pronta para responder em situações semelhantes. Respondi algo como isto:

Nós, comunistas, nada temos contra o ser-se rico, mas antes, com a forma como se fica rico: se por via da exploração de outra pessoa, ou se por via do próprio trabalho.

E, para que fique claro e rasgue com o preconceito, declaro

Adoraria ser rico.

A surpresa levanta a curiosidade, e lá tento explicar-me, dizendo entre muitas outras coisas que a separação mais importante não é entre pobres e ricos, mas entre explorados e exploradores. Mas assim que se usa o termo exploração surge um novo desafio.  É comum pensar-se que a exploração é um conceito meramente subjectivo, isto é, que se é ou não explorado caso se ache bem ou mal remunerado (!). Tinha que me fazer compreender melhor…

Entretanto, a televisão falava da guerra – a desgraça continua – mas o que capta a atenção dos presentes é o jantar estar insonso. Tento explicar aos mais curiosos de onde provem então a exploração (e que afinal de contas a exploração é algo objectivo, isto é, que existe para além de nós).

Não deu para explicar. Afinal, o jantar estava insonso. Isso tornou-se o mais importante. Mas, mais tarde, quase todos os presentes revelaram sentir que não eram remunerados devidamente. Era isso que lhes tinha tentado dizer, mas por outras palavras. Ali, naquele jantar, todos pertencíamos aos explorados, quer soubéssemos ou não disso.

Neste mundo, a exploração está sempre ai, quer se tenha consciência ou não dela. Quer alguma vez se tenha ouvido falar em conceitos de economia como Mais-Valia, ou não. E era este o conceito que queria ter chegado a mostrar. Fica para uma próxima, quando estiverem mais interessados nisto:

Era só pôr sal.

(escrito para o blog Cheira-me a Revolução!)

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Isto anda tudo ligado

Tenho procurado organizar as ideias para escrever sobre a aprendizagem de acções de resistência dos indivíduos e dos povos, até para compreender melhor a importância das greves e manifestações. Não havendo por agora disponibilidade para escrever algo, colo abaixo dois excelentes textos que penso se complementarem de alguma forma.

O primeiro é sobre a origem da palavra Sabotagem… e da luta dos trabalhadores. E o segundo, sobre a relação entre as pequenas e grandes lutas.

A velha toupeira

A propósito do «pauzinho na engrenagem», de que falava o desenho de Manuel da Palma no nº 2 do Mudar de Vida, lembrei-me de que sabotagem provém de uma palavra francesa, sabot, que significa tamanco. Era o calçado dos operários no começo do capitalismo, isto se tinham alguma coisa para pôr no pé, e como os tamancos eram de madeira e as engrenagens daquela época não eram muito fortes, quando o tamanco caía, a máquina parava, e o trabalhador ganhava assim algum tempo, sobre o tempo de trabalho que tinha de vender ao patrão.

A história registou grandes datas, convulsões mundiais, bandeiras vermelhas desfraldadas ao vento. Mas estes episódios, que constituem o culminar da luta entre as classes, são a cúpula do edifício. Os alicerces são outros, e cavam-se com milhões e milhões de gestos quotidianos, anónimos, persistentes. Imaginam quantos biliões de dólares os patrões perdem por ano devido a materiais que os trabalhadores levaram para casa? Dir-se-á que são roubos, e a lei pune-os como tal, mas na realidade são uma tentativa de reduzir a exploração salarial. Ou dir-se-á que se trata de acções individuais, sem interesse para a luta colectiva. Mas quantos colegas olham para o lado quando outro mete alguma coisa na bolsa ou no bolso? As redes de solidariedade vão-se construindo assim, pouco a pouco, com estes actos elementares. As oposições de classe também, a clivagem entre nós e eles. Sem isto não existe unificação possível das lutas, nem debate de ideias, nem esclarecimento político, nem avanços estratégicos. E quando a hora soa, aqueles que sabem o que está por debaixo podem sorrir e dizer, com a frase de Marx, «bem cavado, velha toupeira!».

Por João Bernardo

“Pequenas” e “grandes” lutas e sua relação dialéctica

Existe uma relação dialéctica entre “pequenas” e “grandes” lutas. Grandes movimentações de massas só são possíveis por via do desenvolvimento molecular e quase subterrâneo da luta concreta no local de trabalho. As ”pequenas” lutas criam no trabalhador a consciência dos seus interesses económicos específicos e um sentido geral de pertença à sua classe. As “grandes” lutas elevam a consciência económica do trabalhador a níveis mais elaborados, permitindo ao trabalhador compreender a ligação entre o conjunto dos patrões e o espelhar dos interesses destes nos governos. Ambas as lutas, por seu turno, forjam uma aprendizagem social e política dos trabalhadores. São por isso elos insubstituíveis e complementares na movimentação dos trabalhadores pela defesa e aprofundamento dos seus direitos, pela construção de uma sociedade socialista, uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem.

Por João Valente Aguiar

Aprendendo…

Tal como num caso que assisti, a simples reivindicação pela manutenção de uma máquina de café levou a que, numa pequena empresa, todos os mais variados empregados, desde a empregada de limpeza aos técnicos, gestores e doutores, se unissem e tomassem a conclusão de que pertenciam um mesmo grupo – o dos trabalhadores (versus os seus dois bacocos patrões). É certo que esta consciencialização foi mais ou menos elaborada conforme as pessoas, mas foi o suficiente para muitos se despertarem para esta e outras lutas, as suas e as de outros, e aprendendo a localizarem-se melhor na sociedade em que vivem. Hoje, mesmo quando os seus dias sofrem os contratempos provocados pelas greves de outros, mantêm a solidariedade e o apoio a esses outros, pois sentem ou sabem estar de alguma forma ligados a eles. Apesar disso, desconheço se, entretanto, alguns deles se terão ligado a alguma organização de trabalhadores, tornando assim as suas acções individuais mais assertivas e elevando a luta a algo superior (e colectivo).

Algo aprendi:
Desde o tamanco ou da reivindicação da máquina de café, passando pelas grandes manifestações e greves, até à luta pelo poder de Estado e a construção de uma nova sociedade, isto anda tudo ligado.

Vai um cafezinho?

(também publicado no blog Cheira-me a Revolução!)
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