Etiqueta: Revolução

A condição é que a classe operária tenha a hegemonia na revolução

Quanto à passagem da revolução democrática à revolução socialista, ou, por outras palavras, da passagem da etapa democrática à etapa socialista da revolução, já Marx e Engels no Manifesto Comunista admitia que a revolução burguesa na Alemanha, dado o desenvolvimento do proletariado nesse país, seria «o prelúdio imediato de uma revolução proletária».

Em Portugal, deduzo eu, esse prelúdio de uma revolução proletária, socialista, deu-se a 5 de Outubro de 1910 quando a revolução burguesa destituiu a Monarquia e implantou a Primeira República portuguesa. Esta comandada pela pequena e a média burguesia.

Antes do capitalismo monopolista, os movimentos democráticos dirigiam-se fundamentalmente contra o feudalismo, tinham um carácter democrático-burguês, inseriam-se no processo da revolução burguesa. Na actualidade salvo em países subdesenvolvidos, tem fundamentalmente um carácter antimonopolista.

(Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal, 1971)

Se antes a luta era contra o feudalismo e depois a luta tornar-se-ia contra os monopólios, então o que terá ocorrido entre 1910 e 1971? Remeto parte da resposta para as seguintes transcrições:

Quando, em 1926, os grandes capitalistas e os latifundiários correm com o governo da pequena e média burguesia e tomam conta do poder, não existiam ainda grandes grupos industriais e o capital financeiro (…) estava longe de ser preponderante na economia nacional.

(idem)

E,

A política do governo fascista (comandada pela grande burguesia) foi facilitar, pela imposição coercitiva e pelo auxílio directo do Estado, o processo de formação, acumulação, centralização e concentração de capitais, num ritmo mais apressado que aquele que seria ditado pelo simples curso das leis económicas num sistema de livre concorrência.

(idem)

Perante determinado grau de desenvolvimento do capitalismo e das suas relações interclassistas, que alianças de classe serão as adequadas? Sobre o «sistema de alianças» entre classes nas distintas revoluções, ou, por outras palavras, na distintas etapas da revolução, Álvaro Cunhal escreveu:

Os aliados do proletariado para a revolução socialista não são os mesmos que para a revolução democrática e nacional. Nesta, o proletário desfere o golpe fundamental contra os monopólios (associados ao imperialismo) e os latifundiários e alia-se a uma parte da burguesia (a pequena burguesia e sectores da média) interessada na luta antimonopolista. A revolução socialista dirige-se contra a burguesia no seu conjunto, e por isso alguns aliados do proletariado na primeira etapa (sectores da média burguesia urbana, camadas de camponeses médios, mesmo algumas camadas da pequena burguesia) deixam de o ser na revolução socialista.

(idem)

Todas estas citações são retiradas de um livro de 1971. E hoje, em 2011, perante uma das mais graves crises do capitalismo? Não me aventurei neste post a partir para qualquer análise do momento que vivemos, mas espero que esta viagem por citações do livro ajude.

Para as lutas de agora e do futuro, apenas deixo aqui a próxima citação onde o sublinhado é da minha autoria:

Lenine elaborou a teoria do desenvolvimento contínuo do processo revolucionário, da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista, sob condição de que a classe operária tivesse um papel hegemónico na própria revolução democrática-burguesa.

(idem)

A teoria está correcta? Sim, tal como a revolução russa provou na prática.

Agora, resta-nos criar as condições para que o próximo “5 de Outubro” tenha então o operariado como classe hegemónica na revolução.

“O que é a revolução do ponto de vista marxista?”

Ando a ler «Lenine e a Revolução» de Jean Salen e a determinado ponto do livro surge a questão “O que é a revolução do ponto de vista marxista?”. O autor começa por responder que a revolução é «a destruição violenta da superstrutura política antiquada» e em seguida remete-nos por um conhecido trecho de Karl Marx explicando a dinâmica que as provoca:

na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura… etc.

in Para a Crítica da Economia Política (1859)

Este post coincide com impressionantes e comoventes acontecimentos no Egipto. O meu conhecimento sobre esse país não me permite aventurar em grandes analogias a partir citação, mas não me parece que esteja a ocorrer uma mudança das relações de produção, isto é, desconheço que haja uma «deslocação» da possessão dos meios de produção de uma classe social para outra, contudo a «superstrutura jurídica e política» no país poderá ter caído e, esperemos, que surja uma superstrutura mais adequada à actual «consciência social» e desenvolvimento das forças produtivas.

A revolução no Egipto não surgiu de um momento para o outro certamente, este «turbilhão revolucionário» é o culminar de «antagonismos sociais amadurecidos» ao longo de muito tempo. Agora, as massas, que sempre permaneceram na sombra, intervêm activamente no palco e combatem, e terão de o fazer durante muitos mais dias, anos e décadas. É de realçar que, os factores subjectivos têm também um importante papel do desencadear das revoluções: é preciso «ter fé na revolução». Neste caso, esta fé terá sido induzida através da centelha tunisina. Que ela incendeie todo o Mundo.

____________________________________________

as palavras entre aspas são expressões de Lénine usadas por Jean Salen no livro