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Portugal, hoje.

cliqueÁlvaro Cunhal faria hoje 98 anos. Sentimentos ambíguos tinha perante este homem. Lembro-me de não lhe ter grande afeição por aparentar ser frio e calculista, coerente com a imagem que tinha do que seria um soviético (!!), mas por outro lado, um homem corajoso, dedicado a uma causa nobre, herói antifascista que sempre lutara pela Liberdade e que me possibilitava estar então a estudar na escola o que foi o 25 de Abril – já agora, coerente com a imagem que tinha dum comunista. Hoje, a minha perspectiva de Álvaro Cunhal é diferente, a admiração é bem maior, porém confesso-me surpreendido por ele ser nesta fase do blog o autor mais referenciado, tal como se pode observar na barra lateral – o previsível era ser Marx ou Engels. É um sinal da sua importância no estudo do marxismo-leninismo, sobretudo para um português.

Em estilo de homenagem, transcrevo abaixo um excerto dum texto escrito por Álvaro Cunhal em 1994, publicado no blog Companheiro Vasco com as respectivas notas do Vasco. Faço-o pela pertinência que tem com a situação que vivemos no nosso país perante a U.E. (CEE à época).

Prefácio à 2ª edição (1994) de “A Revolução Portuguesa: o passado e o futuro”, de Álvaro Cunhal.

“(…)

Acompanhando as ofensivas antidemocráticas nestas quatro vertentes [económica, social, cultural e política], o governo de Cavaco Silva e do PSD sacrificam e submetem os interesses portugueses a interesses estrangeiros a troco de fundos da CEE que em grande parte são desviados dos seus declarados objectivos e metidos ao bolso de novos e velhos milionários, mas que apesar disso cobrem temporariamente carências graves e criam também temporariamente uma sensação de desafogo económico e financeiro.

Cavaco Silva, o governo, o PSD anunciaram que como resultado da acção do Governo, Portugal era o «oásis» da Europa, um país de «sucesso» em pleno desenvolvimento lançado como uma lebre no encalço da tartaruga da Europa.

A realidade é a progressiva destruição do aparelho produtivo (na agricultura, na indústria, nas pescas), a crise e a recessão económica geral. Sacrificam-se, comprometem-se e entregam-se ao capital estrangeiro empresas[1] e sectores básicos estratégicos e recursos e potencialidades materiais e humanas. Agrada-se a dívida do Estado. Agrava-se a balança comercial. Aumenta o distanciamento em relação aos países mais desenvolvidos em vez da «coesão económica» tantas vezes apresentada como objectivo em vias de ser atingido. São cada vez mais graves as limitações à independência e soberania nacionais pela aceitação servil, seguidista e capitulacionista do Tratado de Maastricht e da imposição a Portugal pelos países mais desenvolvidos de decisões supracionais contrárias a interesses vitais portugueses[2].

A continuar no poder Cavaco Silva e o governo de direita[3], Portugal corre o risco não só de ver substituída a democracia política por um regime autoritário de cariz ditatorial, mas também de um dia não muito distante, quando diminuir, como é inevitável e está previsto, o fluxo de fundos da CEE, ser mergulhado numa profunda crise de carências alimentares[4], energéticas[5], técnicas e tecnológicas para superar as quais uma solução será então extremamente difícil, na situação que está a ser criada.

A política do governo do PSD de destruição das conquistas e valores democráticos da Revolução de Abril é uma política que destrói recursos e potencialidades que vêm do passado, que provoca uma penosa crise no presente e que faz pesar sobre Portugal gravíssimas ameaças para o futuro.”

Notas minhas [do R.Vasco]:

[1] como por exemplo a Somincor, Sociedade Mineira de Neves Corvo, considerada durante os anos 90 uma das maiores e melhores empresas portuguesas, privatizada por valores ridículos, e hoje a render milhões a uma multinacional canadiana.
[2] o directório que Cavaco parece ter descoberto recentemente já vem de longa data…
[3] Cavaco foi derrotado um ano mais tarde, mas a continuação da política do seu governo foi assegurada por sucessivos governos PS,PS+CDS (entendimentos parlamentares), PSD+CDS e pelos acordos PS+PSD+CDS.
[4] supridas, no presente, por importações imensas, perante um cenário de incapacidade nacional de produzir o necessário para alimentar a população.
[5] a importação de energia é actualmente um dos elementos mais desequilibradores da balança comercial.

Não se pense que é futurologia, pois a justeza da análise e da previsão é fruto da riqueza que é o marxismo-leninismo e exemplo do extraordinário legado de Álvaro Cunhal.

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O Futebol

Portugal Vs Coreia do Norte (1966)

O futebol é um desporto fantástico. É espectacular assistir a uma partida quando bem jogado, e divertido de se jogar mesmo quando terrivelmente mal praticado. A benesse que tem para as pessoas a actividade deste desporto a nível físico, psíquico e social é tida pouco em conta, ele está absorto na predominância que o futebol profissional tem nas nossas sociedades.

Na rua, onde se improvisa campos de futebol e equipas de amigos e desconhecidos, no geral, sobressaem alguns dos mais levados comportamentos humanos, respeitam-se adversário, fazem-se amizades; o fair-play é impelido mesmo sem se tirar de vista o objectivo de vencer o jogo.

Podemos observar, assistindo ao Mundial, como corrompido está o espírito desportivo. Dentro do campo, o mais importante é não perder o jogo, por isso, é norma ver que após uma disputa de bola em que um jogador em falta magoa outro, ter apenas como prioridade retomar a sua posição em campo; ajudar o adversário a levantar-se é um acto cada vez mais raro de assistirmos. A nível físico, perde-se mais uma das benesses do desporto, são comuns os casos de jogadores que adiam o tratamento das suas lesões mantendo-se em competição.

É o trabalho e o negócio a ocupar o espaço do lazer e do desporto. Os jogadores de futebol estão como aquele fã de cinema que, passando a trabalhar como crítico, vê-se dentro duma sala, não pelo prazer de ver um filme, mas pela necessidade de escrever um artigo.

É talvez um pouco por tudo isto que tenho assistido com tédio a algumas partidas de muito mau futebol e, mais surpreendentemente, os próprios jogadores em campo parecem aborrecidos. Gosto de imaginar que seja por isso que, de inicio ao fim dos jogos, são apupados com o irritante som das vuvuzelas.

O Futebol é um jogo colectivo

Estátua de Cristiano Ronaldo

Com a ajuda dos média corrompe-se ainda mais o desporto. Um jogo colectivo como o futebol, cuja importância do jogo de equipa é enfatizado por todos os grandes treinadores, os média desenvolvem um patético culto a uns poucos de super-homens. Muitos destes, mesmo repetindo exaustivamente que o importante é a equipa, não deixam de transparecer que falam palavras vazias; e isso nota-se dentro e fora do campo.

Não ficaria surpreendido se os posters de alguns destes craques da bola em cuecas fossem mais vendidos que posters com os 23 jogadores da selecção campeã. Estes indivíduos que são endeusados pelos média e dados como referências de sucesso, são explorados por uns poucos “investidores” que ganham muitos milhões, e como prémio, estes bezerros de ouro ganham igualmente generosas quantias. O importante é que, tanto uns como outros, ganham estes muitos milhões às custas da exploração das necessidades de diversão e da alienação de muitos fãs de futebol. Poucos serão boas referências para uma sociedade mais justa.

O futebol é cheio de contradições

Sabemos que quem ganha é quem marca mais golos, mas no Mundial as equipas jogam normalmente a evitar sofrer golos, e não para marcá-los.

Outras contradições existem. O futebol abrange cada vez mais diferentes tipos de negócios e mais pessoas a participar na geração de riqueza, mas por outro, cada vez são menos aqueles que retêm o capital gerado.

O futebol negócio está de tal forma globalizado que se tornou comum os grandes clubes europeus contratarem crianças talentosas de África e da América-Latina para serem treinadas e mais tarde capitalizadas com a venda dos seus passes. Mas claro, é sempre bem melhor do que se lhes retirarem um rim – isto é já campeonato de outras máfias!

Coreia do Norte Vs Portugal

Confesso que só durante o jogo irei saber por qual destas selecções irei torcer.

De um lado temos uma selecção em que os chorudos prémios da FIFA vão sobretudo para o Estado. Do outro, esses prémios ficam para os jogadores, federação, e tenho receio em saber a que mais mãos irão parar. Em caso de vitória, os 30 milhões que a Federação ganharia, poderiam certamente a resolver a lista de espera na ala de ortopedia do Hospital São Francisco Xavier – é de 17 meses.

De um lado temos uma selecção que treinam em ginásios juntamente com o povo na África do Sul (Vídeo). Do outro, dispendiosos gastos em sessões de treino com os seus Navegantes de jacuzzi.

De um lado, temos uma selecção em que os jogadores demonstram um enorme fair-play, ajudam os adversários a levantarem-se nas quedas, sorriem com a sorte que têm de poder participar numa das maiores festas do planeta – um Mundial de Futebol. Do outro lado, poucos têm semelhante atitude; a maioria desfila os seus egos pelo relvado incapazes de reconhecer o que representam e o que poderiam representar.

Seja qual for o resultado da selecção portuguesa, isso não ajudará em nada a resolver as necessidades do nosso povo, ela não representa os portugueses mas antes os seus patrocinadores, pessoalmente, sinto-me mais próximo de uma equipa em que os jogadores jogam directamente em prol do seu pais, que treinam nas condições semelhantes aos comuns dos mortais, e a atitude em campo semelhante aos meus jogos de rua, do que a bezerros de ouro que durante todo o ano correm vestidos de placar publicitário enquanto chutam bolas ou vendem cuecas…

Jogadores da Coreia do Norte após o final do jogo com o Brasil...

Concluindo: durante o jogo, com gelo no menisco, os rins aconchegados no sofá, ficarei a saber se cedo a um acto de chauvinismo bacoco, ou à simpatia duma selecção que nada me dizia até há uma semana.

E que um dia o desporto se livre do jugo que o negócio lhe faz e corrompe.