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Teoria e Prática – uma relação dialéctica

Não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária¹. A teoria esclarece e orienta a actividade prática. Mas a teoria enriquece-se com os ensinamentos da prática, afere-se na prática e, quando separada da prática, torna-se estéril, vazia e inútil. Por isso, ao discutirem-se concepções acerca da situação política, dos objectivos da luta, do processo revolucionário, tem-se em vista a definição correcta das tarefas que se colocam às forças revolucionárias e a sua realização. Conforme com uma indicação célebre², o problema que se coloca aos comunistas não é apenas o de explicar e interpretar o mundo, mas o de transformá-lo.

Álvaro Cunhal, in «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista»³, 1970.

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[1] Referência a frase de Lénine escrita, salvo erro, em «Que fazer?»;
[2] A indicação célebre é referência à última das Teses sobre Feuerbach (1845) de Karl Marx;
[3] Citação retirada da 4º edição, página 17.

Marx e Moral – recensão de um texto II

Através de diversas citações, MDD toma posição quanto à avaliação moral que Marx faz da sociedade sua contemporânea (e tão próxima da nossa…): o sentido de justiça dominante emana das condições sociais de produção, como tal, as formas jurídicas que o suportam têm um conteúdo justo desde que corresponda ao modo de produção. É por isso que a escravatura e a contrafacção de mercadorias é injusta sob o capitalismo, mas não o é o roubo dos salários de um povo, através da especulação no mercado financeiro.

Na base do sistema de salários, o valor da força de trabalho é estabelecido como o de toda a outra mercadoria; e, como diferentes espécies de força de trabalho têm diferentes valores, ou requerem diferentes quantidades de trabalho para a sua produção, têm de alcançar diferentes preços no mercado de trabalho. Clamar por retribuição igual ou mesmo equitativa na base do sistema de salários é o mesmo do que clamar por liberdade na base do sistema de escravatura. O que pensais que é justo ou equitativo está fora de questão. A questão é: o que é que é necessário e inevitável com um dado sistema de produção? (Salário, preço e lucro)

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Marx e Moral – recensão de um texto I

Estive a ler esta comunicação de Manuel Dias Duarte (MDD) que se foca na (crítica da) Ética presente nos escritos de Karl Marx. Numa série de posts darei conta das questões levantadas e aproveitarei para meter a colherada num ou noutro ponto.

A tese de MDD é que Marx não trata de um projecto moralizante da sociedade e que, por isso, a sua abordagem é de crítica permanente da Ética e da Moral existente, em lugar de constituir uma ética marxista. Apoiando-se numa correcta distinção da Ética e da Moral na sociedade capitalista (a distância por vezes intransponível entre teoria e prática), MDD dá conta de como Marx questionava a perenidade atribuída aos princípios éticos e declarava a eticidade e a moralidade como formas ideológicas, isto é, ideias submetidas ao seu tempo e à acção humana.

Se construir o futuro e fazer planos definitivos para a eternidade não e o nosso ofício, o que pretendemos realizar no presente é evidente: pretendemos a crítica radical de toda a ordem existente, radical no sentido de que ela não tem medo dos seus próprios resultados, nem dos conflitos com as potências estabelecida. (Carta a Ruge, Setembro 1843) (mais…)

Uma Breve História das Ideias

Nos mais singelos actos do quotidiano estão escondidos muitos séculos de história da humanidade. Tente imaginar quantas pessoas estarão por detrás do simples acto de acender a luz. Serão dezenas, centenas, milhares? E para hoje termos oportunidade de usufruir de tal tecnologia, quantos não participaram, no passado, directa ou indirectamente no desenvolvimento tecnológico? O nosso meio ambiente, tal como as nossas ideias, são hoje resultado de uma enorme herança deixada pelos nossos antepassados.

Façamos agora uma breve caminhada pela Nossa longa história das ideias:

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Charles Darwin, o revolucionário relutante. – Comentário

O artigo «Charles Darwin, o revolucionário relutante» hoje publicado em Resistir.info foi há dias apresentado no blog «Cheira-me a Revolução!». No final do artigo traduzido deixamos um comentário que hoje nos parece pertinente aqui inserir, é o seguinte:

1 – O evolucionismo foi um marco na história da ciência que extravasou a pura discussão científica. A observação da Natureza e o espírito crítico e integrador de Darwin resultaram numa concepção dinâmica da vida, dos seres e da Terra; definiram-se novos vectores de investigação que, cheios de curiosidade e atentos à dialéctica da Natureza, procuraram colmatar os espaços em branco da história evolutiva. Muitas pegadas foram seguidas – e nem falámos ainda aqui da vertigem que foi a descoberta do DNA, verdadeira “prova do crime” da Evolução -, num processo de permanente desenvolvimento.

2 – Mas é emocionante testemunhar o paralelismo do pensamento marxista e deste salto revolucionário na ciência. Pelo seu conteúdo e pelas alterações que promoveu na luta ideológica: o confronto com as posições obscurantistas duma intervenção divina na criação. E este artigo ilustra bem a receptividade que Marx e Engels deram à obra de Darwin, sabendo despi-la do clima de dominação ideológica em que era exposta.

3 – Como este artigo procura demonstrar, o arrojo das ideias contidas na Origem levou Darwin a esconder as suas ideias e à contradição com a verdade científica. Talvez esperasse um tempo melhor para as expor em todo o seu alcance? Esta também poderá ser uma lição: as ideias que suscitem infidelidade à ideologia imposta poderão ser recalcadas pelo próprio indivíduo – a subjectividade agrilhoada.

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Existimos porque um grupo particular de peixes tinha uma anatomia de barbatanas peculiar, que se pôde transformar em pernas de seres terrestres; porque a terra nunca congelou completamente durante uma idade do gelo; porque uma espécie pequena e tenaz, vinda de Àfrica há cerca de um quarto de um milhão de anos, conseguiu, até hoje, sobreviver por todos os meios. Podemos desejar uma resposta mais “elevada” – mas nenhuma existe.

Stephen Jay Gould

Pois, mas a crença religiosa é obliquamente sorrateira. Durante séculos defendeu a geração divina, hoje apela a que se entenda a evolução, a hereditariedade genética como um desígnio de Deus. Que é desta que não é mentira, que a retirada da ignorância face ao avanço do conhecimento estancou; não deixa de haver nessas pessoas e instituições uma grande desfaçatez moral.

5 – Darwin foi o brilhante intérprete da ideia da Evolução, tomando de forma crítica os elementos que o seu tempo e ele, pessoalmente, haviam recolhido. Mas podia ter sido outra pessoa, como se relembra no artigo (Alfred Russel Wallace). A ideia estava madura para ser colhida. Ou por outra, a construção humana do saber é colectiva e múltipla.”

# Colectivo Leitura Capital

Capítulo: Dialéctica – em Anti-Dühring (2)

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2). As transcrições serão relativas à lei das mudanças quantitativas em qualitativas.

É preciso um determinado valor de troca para se converter em capital

Engels cita Marx:

“nem toda a soma de dinheiro ou de valor, qualquer que seja, pode ser convertida em capital, sem que esta transformação suponha antes, a existência de um determinado mínimo de dinheiro ou de valor de troca nas mãos do possuidor de dinheiro, ou de mercadorias.”

E de seguida explica o exemplo dado por este:

Num ramo qualquer de trabalho, o operário trabalha para si mesmo 8 horas diárias, ou seja, para criar o valor de seu salário, trabalhando outras 4 horas para o capitalista a fim de produzir a mais-valia que vai então para os seus bolsos. Para isso, deve, necessariamente, existir alguém que disponha de uma soma de valor que lhe permita fornecer aos operários matérias-primas, meios de trabalho e salários, do modo a poder embolsar, todos os dias, a mais-valia necessária para poder viver, pelo menos, tão bem como dois de seus operários.

Mas como a produção capitalista não tem como objectivo simplesmente o de viver e se sustentar, mas também, o de incrementar a riqueza, não será suficiente que o nosso empresário tenha esses elementos, para que, utilizando os seus dois operários, seja um verdadeiro capitalista. Para poder viver duas vezes melhor do que um operário comum e para voltar a transformar em capital, a metade da mais-valia produzida, deveria dar trabalho a oito operários, possuindo portanto, quatro vezes a soma de valor de que tiveram necessidade para sustentar dois trabalhadores.

Estado Sólido, Líquido e Gasoso

[A] transformação dos estados da agregação da água que, sob a pressão normal do ar, ao chegar a 0 ºC, se converte de um corpo líquido em corpo sólido e aos 100º, de líquido em gasoso, caso esse que demonstra como, ao alcançar esses dois pontos decisivos, uma simples mudança quantitativa de temperatura provoca uma transformação qualitativa do corpo.

Mais exemplos na Química

Das séries homólogas de combinações de carbono, muitas das quais já são conhecidas [1], cada uma delas tendo a sua própria forma algébrica sintética. Assim, pois, Se, do mesmo modo que os químicos, chamarmos um, átomo de carbono de C, um átomo de hidrogênio de H um átomo de oxigênio de O e por n o número dos átomos de carbono encerrados em cada combinação, podemos expor as fórmulas moleculares de algumas dessas séries, do seguinte modo:

Série da parafina normal: CnH2n+2
Série de alcooes primários: CnH2n+20
Série dos ácidos graxos monobásicos: CnH2n O2.

Se tomarmos como exemplo a última dessas séries e adotarmos, sucessivamente, n=1, n=2, n=3, etc., teremos os seguintes resultados (deixando de pôr os isómeros):

ácido fôrmico – CH2O2 – ponto de ebulição: 100 º – ponto de fusão: 1.º
ácido acético – C2H4O2 – ponto de ebulição: 118º – ponto de fusão: 17.º
ácido propriônico – C3H6O2 – ponto de ebulição: 140º – ponto de fusão: –
ácido butirico – C4H8O2 – ponto de ebulição: 162º – ponto de fusão: –
ácido valeriânico – C2H10O2 – ponto de ebulição: 175º – ponto de fusão: –

e assim sucessivamente, até chegar ao ácido melíssico (C30H60O2) que não se funde até os 80º e não tem ponto de ebulição pela simples razão de que esse ácido se decompõe ao se evaporar.

Temos, pois, aqui, toda uma série de corpos qualitativamente distintos, formados pela simples adição quantitativa de elementos que são, além do mais, agregados sempre na mesma proporção. Esse fenômeno ainda se torna mais claro quando todos os elementos, que entram na composição, variam na mesma proporção e na mesma quantidade, como acontece com a série das parafinas normais (CnH2n+2). A primeira fórmula é o metano (CH4) que é um gás; a fórmula mais elevada que se conhece é o hecdecano (C16H34), corpo sólido formado por cristais incolores, que se funde a 21º, e que só atinge o seu ponto de ebulição a 278º. Em ambas as séries basta acrescentar CH2 ou seja, um átomo de carbono e dois de hidrogênio, à fórmula molecular do membro anterior da série, para que se tenha um corpo novo; donde se conclui que uma mudança puramente quantitativa da fórmula molecular faz surgir um corpo qualitativamente diferente.

Testemunho de Napoleão

Este é um exemplo curioso! Diz Engels:

Para terminar este capítulo vamos dar um testemunho final a favor da mudança da quantidade em qualidade: o testemunho de Napoleão. Napoleão descreve o combate travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão:

“Dois mamelucos sobrepujavam, indiscutivelmente, a três franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100 franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1.000 franceses derrotavam, inevitavelmente, 1.500 mamelucos”.

Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a força da disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças, com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta de melhores montarias e de soldados tão bravos pelo menos quanto os outros.

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[1] Anti-Dühring é de 1877…

Materialismo Dialéctico: uma introdução (1)

Este é o primeiro de dois posts com o objectivo de ajudar à introdução sobre o Materialismo Dialéctico. Para isso traduzi e adaptei o artigo correspondeste do Wikipédia. Eles serão úteis para melhor compreensão das inserções futuras sobre os capítulos «Quantidade e Qualidade» e «Negação da Negação» de Anti-Düring.

A origem do termo

Materialismo dialéctico foi cunhado em 1887 por Joseph Dietzgen, um socialista curtidor que correspondeu com Marx durante e após o fracasso da Revolução Alemã de 1848. O termo é casualmente mencionado em Frederish Engels de Kautsky, escrito no mesmo ano. Marx falou da “concepção materialista da história”, na qual posteriormente foi referida por Engels como “materialismo histórico” – não “materialismo dialéctico” – em a Dialéctica da Natureza, em 1883. Georgi Plekhanov, o pai do marxismo russo, depois introduziu o termo materialismo dialéctico na literatura marxista. O termo não foi acoplado pelo próprio Marx, e refere-se à combinação dialéctica e materialismo.

Materialismo dialéctico é a filosofia de Karl Marx que formulou ao tomar a dialéctica de Hegel e interliga-lo com o Materialismo de Feuerback, extraindo dai o conceito de progresso a partir do contraditório, interagindo forças chamadas de tese e antítese, culminando a determinado ponto lugar à síntese. Aplicando-a à história do desenvolvimento social, dela emanam essencialmente um conceito revolucionário de mudança social.

Sobre o idealismo dialéctico de Hegel

Materialismo dialéctico é essencialmente caracterizado pela tese de que a história é produto da luta de classes e segue o princípio geral da filosofia da história de Hegel, que é o desenvolvimento da tese em sua antítese, que é negada pela “Aufhebung” – que conserva a tese e antítese o ao mesmo tempo que a abole. (Aufheben – esta contradição explica as dificuldades do pensamento de Hegel).  A dialética hegeliana tem como objectivo explicar o crescimento e o desenvolvimento da história humana. Ele considerou que a Verdade era produto da história e atravessava por vários momentos, incluindo o momento do erro, como erro ou também como negatividade, é parte do desenvolvimento da verdade. O materialismo dialéctico de Marx considera, ao contrário do idealismo de Hegel, que a história não é produto do Espírito (Geist ou também Zeitgeist – o “Espírito do Tempo”), mas efeito material da luta de classes na sociedade. Teoricamente, portanto, tem as suas raízes na materialidade da existência social.

Aspectos do materialismo dialéctico

Materialismo dialéctico provém de dois importantes aspectos da filosofia de Marx. Uma delas é a sua transformação da compreensão idealista da dialética de Hegel em uma materialista, geralmente designado por ele ele como “pondo a dialéctica hegeliana de volta ao bom caminho”. O outro é a ideia nuclear de que “a história de toda sociedade existente até agora é a história das lutas classe” como se afirma no Manifesto Comunista, em 1848.

Marxismo é baseado na convicção científica de que tudo pode ser explicado unicamente pela Matéria. Este qualifica o marxismo como uma filosofia fundamentalmente materialista. De acordo com o materialismo, a matéria é explicação para o espaço, natureza, o homem, consciência psíquica, inteligência humana, sociedade, história e todos os outros aspectos da existência. Marxismo atribui a tarefa de saber toda a verdade para a ciência. Se ciência pode ficar a conhecer tudo sobre a Matéria, então ele pode ficar a conhecer a respeito de tudo. Conclusiva, a matéria é aceite como princípio e fim de toda realidade. A soberania da Matéria em determinar o curso da natureza é uma parte vital do pensamento marxista, e separa materialismo dialéctico do método dialéctico idealista de Hegel.

O próximo post, que concluirá esta introdução, será sobre as Leis da Dialéctica.