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Uma Breve História das Ideias

Nos mais singelos actos do quotidiano estão escondidos muitos séculos de história da humanidade. Tente imaginar quantas pessoas estarão por detrás do simples acto de acender a luz. Serão dezenas, centenas, milhares? E para hoje termos oportunidade de usufruir de tal tecnologia, quantos não participaram, no passado, directa ou indirectamente no desenvolvimento tecnológico? O nosso meio ambiente, tal como as nossas ideias, são hoje resultado de uma enorme herança deixada pelos nossos antepassados.

Façamos agora uma breve caminhada pela Nossa longa história das ideias:

(mais…)

A Matemática, a Ciência… a crise… a Luta de Classes

Podaríamos ficar surpreendidos como encontramos a luta ideológica nos lugares mais singelos. Desta feita, a Matemática, através dum artigo de Jorge Buescu, professor na Faculdade de Ciências, reconhecido divulgador científico.

(Para poder ler o artigo clique em parte 1 e parte 2.)

“Crise: a culpa é da Matemática?”

O título do artigo não engana ao que vem (“Crise: a culpa é da Matemática?”), o autor rejeita neste artigo uma visão moralista do descalabro económico actual, segundo a qual uns malvados agentes financeiros terão ultrapassado os limites de operação segura do sistema apenas com o objectivo de extensão do lucro. De forma acertada, o prof. Buescu aponta tal explicação simplista como uma cortina de fumo de objectivos políticos e sugere em seguida que “a Matemática pode ter desempenhado um papel crucial” na origem da crise financeira e, subsequentemente, no bloqueio da actividade económica produtiva.

Sumariamente, este artigo dá conta de alguns princípios da modelização matemática do risco financeiro envolvido em qualquer operação de troca de dinheiro por… dinheiro. O risco é, assim, alvo de quantificação e toma uma forma bastante intuitiva: o risco de um fundo ou de uma outra instituição financeira mede-se, por exemplo, pela quantidade mínima de dinheiro que na semana seguinte poderá ser perdido com uma probabilidade de 1%. Somas superiores de dinheiro perdido têm, nesta simulação, menor probabilidade de serem perdidas. As medidas tomadas pelos agentes financeiros são, então, no sentido de reduzir o risco associado, por exemplo separando os créditos em produtos financeiros diferentes.

O autor aponta então erros de concepção destes modelos: em geral não é tida em conta a dependência probabilística de acontecimentos (por exemplo, incumprimento de pagamentos), como se o sistema voltasse ao estado inicial a cada avaliação; os modelos são construídos com base em assunções de “normalidade” dos mercados, não sendo capazes de reflectir adequadamente situações “perturbadas” de funcionamento do sistema (como a actual crise). A estas dificuldades ainda se juntaria uma errada aplicação de controlo de risco, uma vez que dados errados acerca do mercado de hipotecas estavam a viciar o modelo matemático.

Sejamos sinceros, este artigo enche-nos de esperança: ao serem tratadas estas incorrecções dos modelos e voltando o sistema financeiro ao que era, poderemos estar mais descansados quanto à estabilidade da nossa economia. E não é verdade que estes empréstimos arriscados eram a forma de proporcionar um maior consumo às famílias e com isso aumentar o seu nível de vida? É esta passividade “cientifizante” face ao fundo político da crise que prentendemos questionar, uma vez que este artigo toma (necessarimente) tanto partido quanto os moralistas que acusam os gananciosos banqueiros.

Reenquadremos isto (um pouco)

Estão a lembrar-se deste livro?

A ciência no seu caminho de criar concepções racionais de interpretação e previsão dos fenómenos naturais, encontra logo de inicio um problema: o Universo é uno, todos os fenómenos estão interconectados entre si. Por motivos práticos, é naturalmente necessário isolar um fenómeno para o poder estudar. É fundamental saber isolar o fenómeno em estudo sem lhe retirar interdependências dominantes. Fácil de compreender isto com um exemplo: para se prever a temperatura em Lisboa amanha, é completamente supérfluo o movimento das placas tectónicas, mas já não o é a humidade no ar.

Não ficamos admirados em notar que esses modelos matemáticos, usados para maximização do lucro por via financeira, cometem logo o erro de isolar os processos para o lucro sem ter em conta que o capital é uma relação social. É a ciência, dada muitas vezes como imparcial na luta de classes, a demonstrar como cega perante os interesses da classe dominante. Perdendo assim a sua função de interpretar e prever os fenómenos para melhorar as condições de vida ao conjunto da humanidade.

É importante relembrar que o avanço das forças produtivas devido às conquistas da ciencia e da técnica só poderão ser um progresso social efectivo, se houver condições políticas para tal, e para isso é necessário alterar o objectivo social dominante.

# Colectivo Leitura Capital

kick-off

Cabe-me a mim abrir, pelos vistos. Não pretendo definir os moldes da discussão nem descambar em propaganda. Talvez não me fique pelas certezas.

No seu prefácio de 1878, Engels justifica este livro com a disputa com Duhring, dada a crescente influência deste nas fileiras socialistas alemãs – contextualizando com a então recente unificação do Partido Social-Democrata (ver post posterior sobre o livro “Crítica do Programa de Gotha”?) e os perigos de dissenção interna. Contudo, no prefácio de 1894, altura em que o estrépito de “latão” de Duhring se abafara, reconhece-se que “a crítica negativa tornou-se positiva”, ou seja, ultrapassada a polémica, ficara a necessidade de divulgar as ideias do marxismo. Isto na sequência da publicação do “Capital” e das movimentações proletárias na Europa e mundo fora… (quantos futuros posts?)

Um aspecto interessante a considerar na crítica a Duhring: Engels reconhece ter seguido o seu adversário por áreas do conhecimento onde se considera um mero diletante. Atendendo 1) à profundidade da diletância de um homem que conheceu a vida revolucionária e o crivo da academia alemã, 2) efervescência científica no último quartel do séc. XIX, prenúncio de grandes mudanças, num cenário de ainda (?) fraca divisão dos saberes, que correcções poderemos nós (eu?) trazer? E serão essas correcções uma crítica efectiva ao marxismo? Na minha opinião, não – mas vamos percorrer o caminho.

Aliás, é Engels que reconhece a insuficiência científica da sua exposição quando refere no prefácio de 1894 novos dados e descobertas das ciências naturais (vide “A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada” e “Dialéctica da Natureza” para uma actualização científica?). Assim, quando clama que o método dialéctico, vertido de Hegel, preside ao “conjunto da natureza” de que não conhece o “pormenor”, estaremos na presença dum embuste?

Não bato de novo na tecla da divisão do saber (fica para outra), mas penso que é a vitória sobre o obscurantismo promovido pelo furioso progresso das ciências e da técnica que confirma a tese de Engels. A saber: o incessante acumular de conhecimento, pondo em causa as concepções anteriores, revolucionando-se, é uma expressão prática da dialéctica pelo questionar (empírico) das “oposições e delimitações” da ciência anterior. Engels aponta imediatamente como factos experimentais a mudança de estado das substâncias (que se passara a entender como um contínuo de fases); a teoria cinética dos gases (com a relação entre a energia do gás e o movimento das moléculas); o conceito de transformação da energia (como essencial na compreensão da lei da sua conservação); a teoria da evolução biológica (ultrapassando a anterior rigidez das classificações). Entender que a natureza é composta de contrários e diferenças em permanente mutação e que têm apenas um valor relativo, leva-nos a reconhecer que a abordagem correcta da realidade, a que traduz o seu carácter, é a concepção dialéctica – e consciente das leis pensamento dialéctico.

É daqui que parto. E o meu dia a dia até parece corroborar esta perspectiva.