O Gordo (2/2) – A Natureza de Classe

No post anterior referiu-se a enorme tragédia provocada pelas inundações em Esteiros. Vamos prosseguir onde deixamos a transcrição, aquando a desvalorização da tragédia por parte do Gordo:

– Ora, meu amigo. Isto é um lago, comparado com as inundações que eu já vi na América. Ai, sim. Povoações arrasadas, campos totalmente devastados, centenas de mortos…
O amigo interrompeu a digressão. – Em todo o caso há prejuízos de milhares de contos…
– Sim, convenho que é um rombo, em lavoura pobre como a nossa.
– O Meneses de Sá, coitado, perde mais de setecentos contos. Diz-se até que vai perder o palacete no Estoril.
O sujeito gordo calou-se por instantes. (…) Pensava salvar o seu amigo proprietário, comprando-lhe o palacete.

Diz-se que na tragédia há um conjunto de oportunidades para aproveitar. Tal como se ouve frequentemente falar nas oportunidades que a crise proporciona. O Gordo, à semelhança dos especuladores financeiros, ronda atento a tragédia procurando uma presa que ao detectar fixa como um abutre. Ele preparava-se para fazer uma espécie de «ajuda externa» ao “tio” Meneses de Sá.

Mas,

– Coitado do Meneses! Seiscentos contos…
– O Estado deve ajuda-lo – explicou outro. – Fala-se de numa grande reunião de lavradores.

E por fim, talvez não seja precisa a «ajuda» do Gordo, e fica esclarecido a natureza de classe do Estado, pois este será instrumentalizado para ajudar os lavradores, latifundiários, enquanto o resto da população perderá tudo do pouco que tinha nas inundações. É semelhante ao que se faz hoje com os bancos, imagino que os latifúndios eram demasiado grandes para cair, e era preciso acalmar os latifundiários.

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O Gordo (1/2) – Erro de Paralaxe.

Em Esteiros (1941) de Soeiro Pereira Gomes:

O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via que luto à sua frente. (…)
Agora era um senhor gordo, com máquina fotográfica a tiracolo, quem apreciava o panorama.
– Afinal, onde está a maravilha?
– É grandioso, há-de concordar.
– Ora, meu amigo. Isto é um lago, comparado com as inundações que eu já vi na América. Ai, sim. Povoações arrasadas, campos totalmente devastados, centenas de mortos…

Em Esteiros, onde os personagens vivem mal remediados e subnutridos, o surgimento de um personagem gordo é sinal de que se tratará dum burguês. Se no post anterior fez-se referência a uma nota que alguém fizera dizendo que «ser menino era um “luxo” de classe», neste caso, acrescentar-se-á que ser-se gordo era um “luxo” de classe.

Faz pensar no contra-senso que existe hoje quanto à nossa alimentação e a moda dos ginásios. Muitos se alimentam de maneira a ter excesso de peso, enquanto contrariam isso por via de exercício extra auto-infligido. É uma grande quantidade de recursos alimentares (e não só) gastos, queimados em ginásios; para além muitas outras considerações que se poderia acrescentar, mas ficam aqui por referir.

Outro pormenor, em relação ao transcrito, é a diferença de perspectiva entre o “homem do sítio” e o Gordo perante as inundações. Enquanto o primeiro via uma tragédia, o segundo via algo maravilhoso – mas não tanto como noutras cheias lá na sua América. Portanto, mesmo quando a tragédia era na sua terra, no seu sítio, o Gordo achava-a maravilhosa. Logo, a diferença de perspectivas entre o “homem do sítio” e o Gordo não está apenas na distância da origem destes em relação à tragédia, mas é sobretudo uma perspectiva de classe.

Ora, um dos extremos da tragédia é a guerra. Recordo-me de ver há vários anos na RTP, sobre uma das guerras contra o Iraque, um programa em que Nuno Rogeiro levou brinquedos de plástico para elucidar o telespectador como era a guerra. Ele tinha réplicas em miniatura de aviões, misseis e outras coisas mais em cima da mesa e ia municiando de saber o telespectador sobre as maravilhas tecnológicas naquela guerra. Mais do que fazer o culto à tecnologia, naquele programa pretendia-se convencer a quem o via de que a guerra seria “limpa”, sem sangue civil. A guerra pela TV era espectacular e todos se lembram dos directos com câmaras de visão nocturna a captarem… não a tragédia, mas as luzes! Pelo menos, é aquilo de que melhor me recordo. Na época, era ainda menino, usufruía do facto de isso ter deixado de ser um “luxo” e passado a ser um direito humano satisfeito, e como menino que era, facilmente me deixei manipular pelos média em prol daquela guerra (de sonho).

Observando a guerra de longe escapa-nos a dura realidade das suas vítimas, tal como ao Gordo feito turista perante as inundações nos Esteiros. A tragédia é diminuída a meras luzes ou a um mero lago, isto é, ela fica reduzida à sua aparência, a estética. Mas há aqui diferenças nesta (falsa) analogia, pois enquanto o telespectador da RTP é iludido quanto à realidade, o Gordo ilude-se ele próprio por falta de sensibilidade e inteligência, ou então é o que é, e é mesmo um filho da puta.

Esta visão da tragédia reduzida à aparência, a estética, foi-me de certa forma introduzida por uma obra de Walter Benjamin. Li-a naquela altura sem as capacidades para absorver o seu conteúdo, mas uma passagem me ficou. Ele citou um excerto dum manifesto que dizia:

(…) nos manifestamos contra o facto de se designar a guerra como anti-estética, (…) por conseguinte declaramos: (…) a guerra é bela porque fundamenta o domínio homem sobre a maquinaria subjugada, graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e tanques. A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, dos cessar-fogos, os perfumes e os odores de putrefacção. A guerra é bela porque cria novas arquitecturas, como a dos grandes tanques, a da geometria de aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder e muitas outras… poetas e artistas do futurismo… lembrai-vos destes fundamentos de uma estética da guerra, para que a vossa luta possa iluminar uma nova poesia e uma nova escultura!”

A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin (1955).

O excerto é do Manifesto Futurista, escrito por Marinetti, e o conteúdo de ideologia fascista. Quando li isto lembrei imediatamente da Guerra do Golfo e da cena surrealista de Nuno Rogeiro a brincar em directo na TV, maravilhado pela tecnologia de ponta em parelha com a guerra. E agora, lendo Esteiros, ligo tudo isto também ao Gordo que fotografa a beleza das inundações sôfrego por não serem maiores e mais bonitas.

Walter Benjamin após citar o Manifesto Futurista conclui:

“Fiat ars – pereat mundus”, diz o fascismo (…). Isto é, evidentemente, a consumação da “l’art pour l’art”. A humanidade que, outrora, com Homero, era um objecto de contemplação para os deuses no Olimpo, é agora objecto de autocontemplação. A sua auto-alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como a um prazer estético de primeiro plano. É isto o que se passa com a estética da política, praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com a politização da arte.

A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin (1955).

Penso poder acrescentar que o comunismo responde-lhe com a politização da arte e não só, mas de tudo, inclusivamente da tragédia. Por exemplo, no sismo no Haiti onde milhares morreram, os comunistas (e não só) lembraram imediatamente que o sismo teve as consequências que teve por causa da imensa pobreza naquele país. Não era uma consequência do azar ou dum sismo excepcionalmente intenso, mas (também) de causas sociais, logo políticas.

Cabe a nós procurar observar os acontecimentos cada vez mais a fundo e não nos ficarmos pela aparência, e para isso é necessário deixar de ver apenas com olhos de “gordos” (de burgueses). Assim libertarmo-nos da nossa mentalidade submissa.

«Ser menino é um “luxo” de classe»

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu em 1909 na aldeia de Gestaçô, concelho de Baião, no seio de uma família de pequenos agricultores do Douro. Em Novembro de 1941 publicou «Esteiros» pela editora Sírius com ilustrações de Álvaro Cunhal. Autor ligado ao neo-realismo português e militante do Partido Comunista Português. Morreu em 1949. [1]

A Dedicatória

O livro por onde leio foi comprado num alfarrabista. Um anterior dono sublinhou e escreveu no livro alguns apontamentos que me fazem imaginar de que se tratava duma professora que teve como tarefa leccionar esta obra. Ela assinou o livro e colocou a data de 1976… [2]

A causa deste post é precisamente um desses sublinhados com uma nota ao lado logo no início do livro. Soeiro Pereira Gomes escreveu:

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro.

Além de sublinhar, escreveu a leitora a seguinte nota:

Dedicatória.
Dedicatório colectivo.
Ser menino é um “luxo” de classe.

[3]

E assim era, ser menino era um “luxo” de classe. Voltará a sê-lo neste país?

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[1] Fonte: «Avante!» Nº 1359 – 16.Dezembro.1999.
[2] Anita, Maio de 1976.
[3] Jerónimo de Sousa, no Alta Definição da SIC (emitido em 20-11-2011).

Portugal, hoje.

cliqueÁlvaro Cunhal faria hoje 98 anos. Sentimentos ambíguos tinha perante este homem. Lembro-me de não lhe ter grande afeição por aparentar ser frio e calculista, coerente com a imagem que tinha do que seria um soviético (!!), mas por outro lado, um homem corajoso, dedicado a uma causa nobre, herói antifascista que sempre lutara pela Liberdade e que me possibilitava estar então a estudar na escola o que foi o 25 de Abril – já agora, coerente com a imagem que tinha dum comunista. Hoje, a minha perspectiva de Álvaro Cunhal é diferente, a admiração é bem maior, porém confesso-me surpreendido por ele ser nesta fase do blog o autor mais referenciado, tal como se pode observar na barra lateral – o previsível era ser Marx ou Engels. É um sinal da sua importância no estudo do marxismo-leninismo, sobretudo para um português.

Em estilo de homenagem, transcrevo abaixo um excerto dum texto escrito por Álvaro Cunhal em 1994, publicado no blog Companheiro Vasco com as respectivas notas do Vasco. Faço-o pela pertinência que tem com a situação que vivemos no nosso país perante a U.E. (CEE à época).

Prefácio à 2ª edição (1994) de “A Revolução Portuguesa: o passado e o futuro”, de Álvaro Cunhal.

“(…)

Acompanhando as ofensivas antidemocráticas nestas quatro vertentes [económica, social, cultural e política], o governo de Cavaco Silva e do PSD sacrificam e submetem os interesses portugueses a interesses estrangeiros a troco de fundos da CEE que em grande parte são desviados dos seus declarados objectivos e metidos ao bolso de novos e velhos milionários, mas que apesar disso cobrem temporariamente carências graves e criam também temporariamente uma sensação de desafogo económico e financeiro.

Cavaco Silva, o governo, o PSD anunciaram que como resultado da acção do Governo, Portugal era o «oásis» da Europa, um país de «sucesso» em pleno desenvolvimento lançado como uma lebre no encalço da tartaruga da Europa.

A realidade é a progressiva destruição do aparelho produtivo (na agricultura, na indústria, nas pescas), a crise e a recessão económica geral. Sacrificam-se, comprometem-se e entregam-se ao capital estrangeiro empresas[1] e sectores básicos estratégicos e recursos e potencialidades materiais e humanas. Agrada-se a dívida do Estado. Agrava-se a balança comercial. Aumenta o distanciamento em relação aos países mais desenvolvidos em vez da «coesão económica» tantas vezes apresentada como objectivo em vias de ser atingido. São cada vez mais graves as limitações à independência e soberania nacionais pela aceitação servil, seguidista e capitulacionista do Tratado de Maastricht e da imposição a Portugal pelos países mais desenvolvidos de decisões supracionais contrárias a interesses vitais portugueses[2].

A continuar no poder Cavaco Silva e o governo de direita[3], Portugal corre o risco não só de ver substituída a democracia política por um regime autoritário de cariz ditatorial, mas também de um dia não muito distante, quando diminuir, como é inevitável e está previsto, o fluxo de fundos da CEE, ser mergulhado numa profunda crise de carências alimentares[4], energéticas[5], técnicas e tecnológicas para superar as quais uma solução será então extremamente difícil, na situação que está a ser criada.

A política do governo do PSD de destruição das conquistas e valores democráticos da Revolução de Abril é uma política que destrói recursos e potencialidades que vêm do passado, que provoca uma penosa crise no presente e que faz pesar sobre Portugal gravíssimas ameaças para o futuro.”

Notas minhas [do R.Vasco]:

[1] como por exemplo a Somincor, Sociedade Mineira de Neves Corvo, considerada durante os anos 90 uma das maiores e melhores empresas portuguesas, privatizada por valores ridículos, e hoje a render milhões a uma multinacional canadiana.
[2] o directório que Cavaco parece ter descoberto recentemente já vem de longa data…
[3] Cavaco foi derrotado um ano mais tarde, mas a continuação da política do seu governo foi assegurada por sucessivos governos PS,PS+CDS (entendimentos parlamentares), PSD+CDS e pelos acordos PS+PSD+CDS.
[4] supridas, no presente, por importações imensas, perante um cenário de incapacidade nacional de produzir o necessário para alimentar a população.
[5] a importação de energia é actualmente um dos elementos mais desequilibradores da balança comercial.

Não se pense que é futurologia, pois a justeza da análise e da previsão é fruto da riqueza que é o marxismo-leninismo e exemplo do extraordinário legado de Álvaro Cunhal.

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Para ler os posts sobre Álvaro Cunhal no blog, clique aqui.

Teoria e Prática – uma relação dialéctica

Não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária¹. A teoria esclarece e orienta a actividade prática. Mas a teoria enriquece-se com os ensinamentos da prática, afere-se na prática e, quando separada da prática, torna-se estéril, vazia e inútil. Por isso, ao discutirem-se concepções acerca da situação política, dos objectivos da luta, do processo revolucionário, tem-se em vista a definição correcta das tarefas que se colocam às forças revolucionárias e a sua realização. Conforme com uma indicação célebre², o problema que se coloca aos comunistas não é apenas o de explicar e interpretar o mundo, mas o de transformá-lo.

Álvaro Cunhal, in «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista»³, 1970.

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[1] Referência a frase de Lénine escrita, salvo erro, em «Que fazer?»;
[2] A indicação célebre é referência à última das Teses sobre Feuerbach (1845) de Karl Marx;
[3] Citação retirada da 4º edição, página 17.

Verbalismo Pequeno-Burguês e Acção Revolucionária

Todas as concepções dos radicais pequeno-burgueses de fachada socialista acusam o afastamento da luta popular, a descrença na acção das massas, a incapacidade para o complexo trabalho revolucionário nas condições do fascismo, a carência de organização, a impaciência e desespero resultantes da falta de perspectiva.

(…)

Não se pode excluir que, em Portugal, o radicalismo pequeno-burguês venha também a ter os seus heróis. Mas, mesmo nesse caso, estes não resolveriam, nem poderiam resolver, os complexos problemas de uma revolução, que só a organização, a acção política, as lutas de massas, podem resolver.

(…)

O radicalismo pequeno-burguês vive da frase revolucionaria e ilude atrás desta a sua real incapacidade de organização e de acção.

«A frase revolucionária (escreveu Lenine) é a repetição das palavras de ordem revolucionárias sem ter em conta condições objectivas, as mudanças provocadas pelos mais recentes acontecimentos, a situação do momento. Palavras de ordem excelentes, que estimulam e embriagam, mas desprovidas de base sólida, tal a essência da frase revolucionária»

(Lénine. Oeuvres, t. 27, p 11).

(…)

Perdidos uns em pequenas aventuras, incapazes outros mesmo de tentá-las, todos se voltaram para a «teorização». (…) Como escreveu Lenine:

«esta tendência para substituir a acção pela discussão e o trabalho pelo falatório, (…) para empreender tudo sem levar nada ao seu termo, é um dos traços próprios das pessoas «instruídas», que não resultam de forma alguma de uma má natureza, menos ainda de más intenções, mas de todos os seus hábitos de vida, das suas condições de trabalho, da sua fadiga intelectual, da separação anormal entre o trabalho intelectual e o trabalho manual e assim sucessivamente»

(Lenine, Oeuvres, t. 26, p. 341)

São citações retiradas do final do livro no capítulo «Acção Revolucionária e Verbalismo». Elas ganham outra dimensão quando enquadradas com os capítulos anteriores. Estes revelam a inconsequência de vários movimentos radicais pequeno-burgueses durante o fascismo, e que perante o insucesso ficam-se remetidos ao verbalismo. Pode ficar-se a imaginar que no livro apenas se fala do radicalismo pequeno-burguês de forma negativa para a luta revolucionária, mas não. No entanto, da introdução retiro esta passagem dizendo assim:

A radicalização da pequena burguesia é um fenómeno positivo. (…) Traz ao movimento operário numerosos quadros revolucionários que, esclarecidos pelo marxismo-leninismo, compreendem o papel da classe operária, se integram na sua vanguarda e dedicam a vida à causa dos trabalhadores.

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Transcrições do livro de Álvaro Cunhal «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», escrito em 1970 e publicado no ano seguinte.

“a um passos do precipício”

“A eleição e a confirmação dos governantes ou dos que possam vir a governar são, em geral, atos plebiscitários; e porque unicamente se pode votar a propósito da ocupação de posições com poder decisório e não acerca das diretrizes para a decisão futura, a eleição democrática realiza-se aqui mais em forma de aclamação do que de discussões públicas. Perante a opinião pública política legitimam-se, quando muito, as pessoas que devem decidir; as decisões em si mesmas devem, em princípio, (…) permanecer subtraídas à discussão pública. Por conseguinte, [isto] reduz em última instância o processo de formação de vontade democrática a um procedimento regulado por aclamação das elites chamadas alternadamente à governação. Intacta na sua substância irracional, a dominação pode assim legitimar-se, mas não racionalizar-se como tal.”

Jürgen Habermas, 1987 (1968), Técnica e Ciência como “Ideologia”, Lisboa, Edições 70, pp. 113-4

A condição é que a classe operária tenha a hegemonia na revolução

Quanto à passagem da revolução democrática à revolução socialista, ou, por outras palavras, da passagem da etapa democrática à etapa socialista da revolução, já Marx e Engels no Manifesto Comunista admitia que a revolução burguesa na Alemanha, dado o desenvolvimento do proletariado nesse país, seria «o prelúdio imediato de uma revolução proletária».

Em Portugal, deduzo eu, esse prelúdio de uma revolução proletária, socialista, deu-se a 5 de Outubro de 1910 quando a revolução burguesa destituiu a Monarquia e implantou a Primeira República portuguesa. Esta comandada pela pequena e a média burguesia.

Antes do capitalismo monopolista, os movimentos democráticos dirigiam-se fundamentalmente contra o feudalismo, tinham um carácter democrático-burguês, inseriam-se no processo da revolução burguesa. Na actualidade salvo em países subdesenvolvidos, tem fundamentalmente um carácter antimonopolista.

(Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal, 1971)

Se antes a luta era contra o feudalismo e depois a luta tornar-se-ia contra os monopólios, então o que terá ocorrido entre 1910 e 1971? Remeto parte da resposta para as seguintes transcrições:

Quando, em 1926, os grandes capitalistas e os latifundiários correm com o governo da pequena e média burguesia e tomam conta do poder, não existiam ainda grandes grupos industriais e o capital financeiro (…) estava longe de ser preponderante na economia nacional.

(idem)

E,

A política do governo fascista (comandada pela grande burguesia) foi facilitar, pela imposição coercitiva e pelo auxílio directo do Estado, o processo de formação, acumulação, centralização e concentração de capitais, num ritmo mais apressado que aquele que seria ditado pelo simples curso das leis económicas num sistema de livre concorrência.

(idem)

Perante determinado grau de desenvolvimento do capitalismo e das suas relações interclassistas, que alianças de classe serão as adequadas? Sobre o «sistema de alianças» entre classes nas distintas revoluções, ou, por outras palavras, na distintas etapas da revolução, Álvaro Cunhal escreveu:

Os aliados do proletariado para a revolução socialista não são os mesmos que para a revolução democrática e nacional. Nesta, o proletário desfere o golpe fundamental contra os monopólios (associados ao imperialismo) e os latifundiários e alia-se a uma parte da burguesia (a pequena burguesia e sectores da média) interessada na luta antimonopolista. A revolução socialista dirige-se contra a burguesia no seu conjunto, e por isso alguns aliados do proletariado na primeira etapa (sectores da média burguesia urbana, camadas de camponeses médios, mesmo algumas camadas da pequena burguesia) deixam de o ser na revolução socialista.

(idem)

Todas estas citações são retiradas de um livro de 1971. E hoje, em 2011, perante uma das mais graves crises do capitalismo? Não me aventurei neste post a partir para qualquer análise do momento que vivemos, mas espero que esta viagem por citações do livro ajude.

Para as lutas de agora e do futuro, apenas deixo aqui a próxima citação onde o sublinhado é da minha autoria:

Lenine elaborou a teoria do desenvolvimento contínuo do processo revolucionário, da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista, sob condição de que a classe operária tivesse um papel hegemónico na própria revolução democrática-burguesa.

(idem)

A teoria está correcta? Sim, tal como a revolução russa provou na prática.

Agora, resta-nos criar as condições para que o próximo “5 de Outubro” tenha então o operariado como classe hegemónica na revolução.

São verdades elementares do marxismo-leninismo que…

É frequente assistir a diálogos onde surge argumentos (falaciosos) que só são usados contra os comunistas. Um desses exemplos é quando alguém diz algo como “Pois, mas em Cuba…”, como se a conversa não estivesse sendo sobre a realidade portuguesa, com um comunista português, ou implícito um partido que se chama, não por acaso, Partido Comunista Português.

Estas palavras foram escritas por Álvaro Cunhal:

São verdades elementares do marxismo-leninismo que as tarefas da classe operária e da sua vanguarda devem ser definidas, em cada país, na base da análise da situação específica existente nesse país, das condições sociais e políticas, do grau e características do desenvolvimento do capitalismo, das relações de produção, dos conflitos, da correlação e da arrumação de forças das classes sociais. A repetição de formulas e a cópia mecânica de experiências conduzem necessariamente a uma incorrecta definição das tarefas do proletariado.

Antes de mais, estas palavras evidenciam o carácter criativo do marxismo-leninismo e da luta da classe operária e da sua vanguarda. E concluindo: deixam também claro que o tipo de argumento “Pois, mas em Cuba…” não é de todo correcto.

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citação retirada do livro «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», publicado em 1971.

Fenómenos visíveis e realidades escondidas

Na Introdução de “Compreender a Economia” pretende-se chamar a atenção do leitor para mistificações correntes da economia dominante ou do saber não científico. Em jeito de aperitivo para as matérias do livro. São 3 as questões lançadas por Jacques Gouverneur, que poderão não ser evidentes para o leitor:

  • A fonte de toda a riqueza está no trabalho – “todas as produções repousam em definitivo só no trabalho humano” [Gouverneur, 2010, p. 14]
  • Os preços das mercadorias devem-se essencialmente à quantidade de trabalho nelas incorporado.
  • O rendimento global é unicamente criado pelo trabalho de quem integra a produção de mercadorias.

Na aparência, o preço, a riqueza e os rendimentos parecem estar desligados da produção material – do trabalho -, mas uma visão mais atenta da realidade demonstra o contrário. Esta oposição entre aparência e realidade, fenómeno e essência, ilusão e verdade é fundamental no processo de construção do conhecimento.

(mais…)

Agora toca a “Compreender a Economia”!

Tanto falamos aqui em devir e mudança e não é que tardava em mudar o nosso livro escolhido?!? Avançamos agora com o manual de economia marxista editado há cerca de um ano pelas edições Avante!: “Compreender a Economia” por Jacques Gouverneur.

O propósito é rever e alargar as minhas bases marxistas de economia, sem descurar o imprescindível ataque ao “capitalismo contemporâneo”. Hoje abordo o prefácio.

(mais…)

um certo discurso sobre a mobilidade

No seguinte link poderão aceder ao nº 11 da revista MOV Lisboa, que é uma “newsletter” do pelouro de mobilidade da CML.

Tudo bem: é de louvar a proximidade dos eleitos (o vereador) com os eleitores. A comunicação e a interação são um aspeto fundamental da nossa sociedade, como prova este blog. E neste número 11 aborda-se o tema do planeamento urbano, um tema bem interessante.

Mas não são elogios que motivam este post. É antes o profundo aborrecimento com que leio os discursos pífios do vereador e algumas tiradas inanes dos catedráticos de serviço. (mais…)

“O que é a revolução do ponto de vista marxista?”

Ando a ler «Lenine e a Revolução» de Jean Salen e a determinado ponto do livro surge a questão “O que é a revolução do ponto de vista marxista?”. O autor começa por responder que a revolução é «a destruição violenta da superstrutura política antiquada» e em seguida remete-nos por um conhecido trecho de Karl Marx explicando a dinâmica que as provoca:

na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura… etc.

in Para a Crítica da Economia Política (1859)

Este post coincide com impressionantes e comoventes acontecimentos no Egipto. O meu conhecimento sobre esse país não me permite aventurar em grandes analogias a partir citação, mas não me parece que esteja a ocorrer uma mudança das relações de produção, isto é, desconheço que haja uma «deslocação» da possessão dos meios de produção de uma classe social para outra, contudo a «superstrutura jurídica e política» no país poderá ter caído e, esperemos, que surja uma superstrutura mais adequada à actual «consciência social» e desenvolvimento das forças produtivas.

A revolução no Egipto não surgiu de um momento para o outro certamente, este «turbilhão revolucionário» é o culminar de «antagonismos sociais amadurecidos» ao longo de muito tempo. Agora, as massas, que sempre permaneceram na sombra, intervêm activamente no palco e combatem, e terão de o fazer durante muitos mais dias, anos e décadas. É de realçar que, os factores subjectivos têm também um importante papel do desencadear das revoluções: é preciso «ter fé na revolução». Neste caso, esta fé terá sido induzida através da centelha tunisina. Que ela incendeie todo o Mundo.

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as palavras entre aspas são expressões de Lénine usadas por Jean Salen no livro

Os Avanços Revolucionários na América Latina – Remy Herrera

O livro em causa, editado recentemente pelas edições Avante!, é da autoria de Remy Herrera, um professor universitário francês, bastante regular nas suas contribuições em sites de informação alternativa. Portanto, o que está aqui em causa é a perspectiva, de alguém informado e com um forte comprometimento de classe, sobre os acontecimentos políticos e sociais actualmente em curso na América Latina.

É evidente não é possível resumir e comentar em cerca de 140 páginas todo o movimento complexo referido. Afinal, trata-se de um território tão vasto, com tantos povos e histórias (por vezes que entre-cruzam fortemente), que merece uma análise bem cuidada e informada. E mesmo o autor não consegue restringir o seu texto à actualidade, uma vez que esta é devedora dos acontecimentos que a antecederam e, também, porque há lições importantes a retirar do passado destes povos.

Desta forma, não é objectivo deste post dar conta de todas as análises sustentadas no livro: vou apenas focar-me na perspectiva geral. Eventualmente, retornaremos a este livro como referência para comentar a situação ou a história de algum país latino-americano. (mais…)

“O Assassinato de Lumumba” – Ludo de Witte

Publicado em finais de 1990’s, este livro trata-se de um trabalho de investigação que põe a descoberto a responsabilidade da Bélgica, da ONU e da comunidade internacional no assassinato do político congolês Patrice Lumumba, em 1961. Contrariando, a versão da história acarinhada pela classe dirigente belga, Ludo de Witte apoia-se em documentos e registos de comunicações oficiais da época para mostrar as acções e os interesses por trás deste evento político de suma importância.

 

Em 1960, os belgas acederam tornar independente a sua colónia do Congo (Congo-Léopoldville), fruto do ascenso nacionalista. Redigiram uma Constituição para a nova república e permitiram eleições livres; cederam o controlo das forças de segurança e militares, muito embora mantendo a sua influência estratégica (os assessores) e funcional (o dinheiro); asseguraram que se mantinha a propriedade e a segurança das holdings presentes no país, nomeadamente as de exploração de cobre na região do Catanga, no sul do país. Portanto, tudo mudaram para que tudo permanecesse na mesma. (mais…)