Categoria: A Situação

Museus Nacionais

Não será talvez dos assuntos que mais relevo teve nos últimos tempos, dada a grave situação económica que vivemos e o circo mediático que nos oprime, mas hoje damos aqui nota da estratégia para os museus que o actual governo pretende incutir.

Este tema foi desenvolvido numa edição do Jornal de Letras do mês passado, podendo ser consultada aqui. O Jornal de Letras é detido pela Impresa da família Balsemão e dirigido por José Carlos Vasconcelos, numa linha editorial que me atrevo a resumir como de esquerda ma non troppo. A modos que me lembro do antigo presidente da minha freguesia, que procurava relativizar as insuficiências em equipamentos e serviços sociais sentidas pela população (a câmara era da sua cor amarela – o PS) e que se despediu parafraseando uns versos do Joaquim Pessoa!

Os artigos digitalizados são na minha opinião muito interessantes e aconselho a sua leitura. Numa primeira parte parece propaganda governamental em vez de informação; o contraditório é realizado pelos especialista e estudiosos logo a seguir, ajudando a compreender as mudanças que o governo prepara para o sector e o seu contexto.

A coisa propriamente dita

Resumidamente, com o objectivo de estimular o “desenvolvimento cultural” do nosso povo e a “atractividade turística do país”, o governo preconiza a reorganização da rede de museus e a definição de novos modelos de gestão e financiamento. Consequências práticas deste (pomposo) paradigma de “Museus para o séc. XXI”: alienação para as autarquias todos aqueles que estejam “geograficamente longe do poder central”, imposição de gestores como directores de museus, diversas acções de marketing para captar mais públicos, investimento nos museus da área de Belém.

Ora, este programa é questionado pelas intervenções dos especialistas entrevistados, em particular pela desadequação dos recursos financeiros e humanos que os museus sentem há muito e que as novas orientações não pretendem redimir. A estratégia é também colocada em causa por privilegiar o balanço financeiro dos museus, isto é, tem um carácter circunstancial e não uma visão política para o sector.

Um toque pessoal

Não pretendo arvorar os conhecimentos dos especialistas, nem afirmar que todas as intenções emanadas daquela nova estratégia são prejudiciais para o país (intenções, porque acções o mais que houve foram umas mudanças de cadeiras). Mas atrevo a emitir a opinião que das boas intenções da tutela decorrem objectivos economicistas: “adaptar os museus ao seu contexto” não pode deixar de passar, presentemente, por mercantilizar mais uma área da vida social. Definitivamente, está em causa a natureza dos museus, enquanto pólos de dinamização cultural, consciencialização popular e fruição estética.

É mais o que fica por dizer: a museologia e a governação republicana; o Estado Novo como período de obscuratismo, deturpação e espectáculo; as parcerias com privados (como Serralves ou o Berardo), de que se tecem loas mas é o Estado que paga a valer… Convirá estarmos atentos às movimentações futuras, para continuarmos a exercer a nossa crítica e, também aqui, a nossa acção.

Este post foi originalmente publicado no Cheira-me a Revolução.

Uma adenda: entretanto saíu a nova tabela de ingressos nos museus e palácios do IMC, indiciando um aumento generalizado dos preços.

O Cornudo e a Liberdade de Expressão

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O Encornado

José Eduardo Moniz, vice-presidente da Ongoing Media, esteve na Comissão de Ética. Não vou dizer nada mais sobre o assunto. Henrique Granadeiro, presidente do conselho de administração da Portugal Telecom, fala na Comissão de Ética semanas depois de dizer que foi encornado. Não acrescentarei nada mais sobre o assunto, pois Friedrich Engels debruçou-se já sobre o constrangido há mais de uma centena de anos e,  evito assim, meter-me em problemas de família. Disse:

Com o casamento singular surgem duas permanentes figuras sociais características, que anteriormente eram desconhecidas: o amante permanente da mulher e o cornudo.

Friedrich Engels¹

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A Liberdade de Expressão

É verdade, eu deveria falar sobre o assunto e escrever, talvez, como nesta petição aqui, que “a «liberdade de expressão» (…) não está nem nunca esteve em causa”, e ainda que “os meios de comunicação social são livres e independentes”, mas discordo e surpreende-me que alguns assinem seus nomes por baixo dessas afirmações. Esses meios de comunicação social livres e independentes, pouco mais longe vão além das discussões se o polvo rosa é maior ou menor que o polvo laranja, e não lembro de os assistir, verdadeiramente, a debruçarem-se sobre a liberdade de expressão e denunciem casos como este:

Clique na imagem

A liberdade de expressão está sempre em perigo e estão a encorna-la. Clique na imagem.

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[1] – em «A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado», Edições Avante!, pág 85-86.
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Devemos deixar os Nossos assuntos apenas para os especialistas?

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No blogue Anónimo Séc XXI, após um texto sobre deficits orçamentais e Orçamento de Estado, Sérgio Ribeiro fez a seguinte pergunta:

Há matérias “chatas”, repulsivas, ou será só alguma inibição em comentar assuntos e temas que se encaram como “reserva de caça” de uns senhores e profissionais ou especialistas? (aqui)

A questão é semelhante a uma outra feita e respondida por Albert Einstein. Foi a questão com que ele iniciou o seu famoso artigo «Porquê o Socialismo?» para a Monthly Review em 1949:

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo?

Lendo e reflectindo sobre o assunto, levantemos alguns pontos.

Não sobrestimar a Ciência

A ciência no seu caminho de criar concepções racionais de interpretação e previsão dos fenómenos naturais, encontra logo de inicio um problema: o Universo é uno e todos os fenómenos estão interconectados entre si. Por motivos práticos é, naturalmente, necessário isolar um fenómeno para o poder estudar. É fundamental saber isolar o fenómeno em estudo sem lhe retirar interdependências dominantes.

Por exemplo, na Dinâmica é frequente no estudo da trajectória dum projéctil ignorar o atrito do ar. É um caso em que conseguimos isolar um fenómeno sem que a deformação dos resultados invalide os objectivos do estudo. Mas nas Ciências Sociais, como a Economia, a quantidade de interconexões é de tal ordem que se torna muito difícil estudar determinado fenómeno sem se ter em conta muitos outros. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza.¹

Relação entre os especialistas e os não especialistas

Os avanços científicos são realizados por pequenos grupos de indivíduos especializados, mas é quando esse saber se dissemina numa vasta quantidade de pessoas que podem resultar em avanços civilizacionais, sejam eles através da produção de algo ou na forma como algo se organiza, por exemplo: na construção dum comboio, ponte…, ou então, na estrutura orgânica duma empresa, partido, cidade ou Estado.

A Humanidade assiste, a par do seu longo progresso científico, à ousadia das massas aprenderem as conquistas realizadas pela audácia de indivíduos especializados. A ligação entre as minorias especializadas e as massas não especializadas é feita por instituições como as escolas, as bibliotecas, os média, as Igrejasinternet. Algumas, quase apenas se dedicam a proliferar conteúdos obscurantistas e reaccionários que pouco ou nada têm a ver com Ciência e potenciação de melhores condições de vida às populações. São organizações sociais e, como tal, subordinam-se à luta de classes.

Em jeito de conclusão…

Agora, levantados alguns pontos sobre as questões do inicio do post, terminamos com as seguintes palavras dos seus autores:

Devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade. – Albert Einstein

Olhem que não são, olhem que não podem ser [temas que se encaram  como “reserva de caça” de uns senhores e profissionais ou especialistas]!Sérgio Ribeiro

Pois A única forma de sermos livres, é sermos cultos.”²

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[1] – Albert Einstein em «Porquê o Socialismo?»
[2] – citação de José Martí
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(publicado em Cheira-me a Revolução!)
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Mercedes Sosa (1935-2009)

Todo Cambia

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia…

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia…

Pero no cambia mi amor…

Outras ligações:

Artigo da Wikipedia
Lista de Vídeos no Youtube

w=480&h=360

À Atalaia

a festa é sempre muito mais do que um momento de diversão – aliás, sinto que esta é bem maior durante a sua construção!

a festa é o local de encontro com os camaradas, aqueles com quem podemos contar e que podem contar connosco. mas é também o sítio onde podemos trazer os nossos amigos e mostrar-lhes um pouco mais do Partido do que o que é ventilado nos media.

À Atalaia

este ano, é claro, as conversas virão sempre ter à campanha que todos nós levamos a cabo, no dia-a-dia, nos nossos trabalhos e nas nossos locais de residência. partilharemos as dificuldades que sentimos e as experiências que resultaram; fortaleceremos a confiança e a consciência na mudança, na necessidade da ruptura.

estaremos, de atalaia!

Pedimos a todos os blogues que se unam à solidariedade com o povo hondurenho e que ajudem a romper o bloqueio informativo sobre o que se passa naquele país. Publiquemos este comunicado e divulguemo-lo entre os blogues amigos. Alerta que caminha a espada de Bolívar pela América Latina!

Este blogue condena o golpe de Estado nas Honduras e solidariza-se com o povo hondurenho e com o legitimo presidente Manuel Zelaya. Nesta madrugada, um grupo de militares golpistas invadiu a Casa Presidencial e sequestraram o presidente daquele país. A ministra hondurenha dos Negócios Estrangeiros e os embaixadores de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua foram sequestrados à margem da convenção internacional que protege e dá imunidade aos diplomatas. Os militares ocuparam as ruas e avenidas das Honduras. Ocuparam os meios de comunicação social e cortaram a distribuição de electricidade.

Esta foi a resposta da oligarquia à vontade do governo de convocar uma consulta popular para abrir uma Assembleia Constituinte que tomasse o povo hondurenho como protagonista da sua própria história. Manuel Zelaya pagou o preço de ter decidido seguir o caminho de uma verdadeira democracia. O golpe de Estado é tão ilegítimo que a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia já condenaram aquela acção. Manuel Zelaya foi eleito pelo povo hondurenho em 2005 e o seu mandato termina no próximo ano.

Todos recordamos o golpe de Estado contra Salvador Allende e o povo chileno. Os militares liderados por Pinochet e pela CIA afogaram o Chile em sangue. Todos recordamos o golpe de Estado executado pela oligarquia venezuelana com o apoio do imperialismo contra Hugo Chávez e o processo bolivariano. Foi derrotado pela acção do povo venezuelano. E esse exemplo ecoou por todos os países da América Latina que nestes últimos dez anos decidiram segui-lo.

Portanto:

1. Exigimos o respeito pelo mandato do presidente Manuel Zelaya
2. Respeito pela vida e liberdade do governo, de todos os seus apoiantes e dos diplomatas
3. Respeito pela decisão de abrir um processo de consulta popular para constituir um referendo para constituir uma Assembleia Constituinte
4. Um apelo a que os militares estejam do lado do povo, do governo por ele eleito e não do lado da oligarquia e do imperialismo
5. Um apelo à unidade latino-americana em torno de processos democráticas que tenham os povos no centro do poder
6. Que o governo português condene de forma clara o golpe de Estado
7. Que a comunicação social portuguesa apresente as informações sobre os acontecimentos nas Honduras de uma forma objectiva

Via Rádio Moscovo

Salários vs Lucros: vira o disco…

Foi – e é – por necessidades sociais que os humanos começaram a trocar mercadorias (M). Outrora trocando-as directamente, surgiu a determinado momento histórico o dinheiro (D) como meio para facilitar a troca entre mercadorias. Surge também a possibilidade de sobressaltos na circulação, que ocorrem quando por algum motivo as pessoas deixam de colocar dinheiro em circulação, são as ditas crises. Entretanto, no capitalismo, o dinheiro deixou de ser um meio para trocas entre mercadorias de valor equivalente, passando elas a ser o meio para a obtenção de mais-dinheiro (D’), sendo agora este a ser o fim. Porque a partir de uma quantidade de dinheiro busca-se obter mais dinheiro – D’ –, tornaram-se as crises inerentes ao capitalismo. De que forma?

Mais-Valia, Taxa de Exploração; Taxa de Lucro; Composição Orgânica do Capital

O Lucro decorre da Mais-Valia (m). Sendo que esta provém da diferença entre o valor produzido por um trabalhador e o salário que lhe é pago. Por outras palavras, é o tempo de trabalho não remunerado. Logo, o lucro vem directamente ou indirectamente do trabalho humano, do trabalhador. Daí, ainda podemos calcular a taxa de exploração (m’), por exemplo, se o valor produzido por um trabalhador durante um ano é de 40000$ e a mais-valia de 20000$, então: [1]Taxa de Exploração

O que interessa ao capitalista é o lucro e a busca por maiores taxas de lucro. Ele precisa de saber se o valor que legalmente rouba aos seus trabalhadores – a mais-valia (m) – é superior ao capital que investe em capital constante (k) e capital variável (v). Sendo o capital constante a maquinaria, matérias-primas… e o capital variável a compra de força de trabalho aos trabalhadores. Logo, matematicamente a taxa de lucro representa-se assim: Taxa de Lucro

Juntando as duas equações, em que m=m’v, obtemos:Taxa de Lucro (incluindo a taxa de exploração)

Ficando claro que a taxa de lucro (l’) é proporcional à taxa de exploração (m’). E além desse pormenor completamente insignificante², vê-se a interdependência entre a taxa de lucro e a composição orgânica do capital, que é a relação entre capital constante (k) e capital variável (v).Composição Organica do Capital

O incessante e impetuoso desenvolvimento técnico, impulsionado pela concorrência entre capitalistas, obriga-os a investirem em maquinaria (capital constante) que lhes permite produzir o mesmo com menos tempo de “trabalho vivo” (capital variável). Portanto, na sua busca pela reprodução de capital, tendem a investir mais em capital constante (k) e menos em capital variável (v), aumentando tendencialmente a composição orgânica do capital (coc) e a taxa de lucro tende a diminuir. O desemprego resulta deste maior investimento em capital constante em prejuízo do capital variável, tornando-se assim também mais difícil aos capitalistas obter a mais-valia.

Os capitalistas para contrariar a tendência para a baixa taxa de lucro tendem a aumentar a taxa de exploração. Simultaneamente, incentivam ao consumo enquanto o poder de compra dos trabalhadores tende a baixar. Esta diminuição poder de compra – que em Portugal conhecemos bem – é um dos motivos para se comprar menos mercadorias. Assim, a tal circulação D-M-D’ abranda e… dão-se as crises.

O capitalismo para “sobreviver” às suas próprias contradições desenvolveu uma enorme financeirização da economia, trocando-se o dinheiro directamente por mais dinheiro e sem passar directamente pela produção. Tal não tem utilidade social e funciona meramente por considerações especulativas. O D-D’ é a espera de que as mercadorias, onde os “pacotes de investimento” se levantam, subam de valor. Mas a valorização dessas mercadorias estão limitadas pela dita economia real – como explicado acima – e o sistema financeiro tem sempre o momento em que cai na realidade…

É certo que o funcionamento da economia não tem esta simplicidade, mas limitamo-nos a referir a base onde toda a dinâmica capitalista – cada vez mais complexa – assenta.

O lado A e B dos singles da música dominante

Esta rápida excursão pela teoria económica marxista não pretende ser um mero exercício de doutrina. Estamos conscientes dos perigos da cristalização dos conceitos e princípios. E antecipamos o juízo taxativo, ou preconceituoso, nos termos do nosso post anterior: “lá estão eles com a k7”. Sendo assim, gostaríamos de passar em revista algumas tendências do discurso dominante, uma vez que reconhecemos nele algumas das características do… vinil.

LADO A

Em primeiro lugar, o defeito do disco riscado. Há que aumentar a competitividade da nossa economia para responder às exigências crescentes da economia num contexto globalizado, repetem-nos exaustivamente. E, lá pelo meio, dizem (e fazem!) o que verdadeiramente lhes interessa: há que aliviar a pressão do Trabalho na actividade económica. E para isto pode contribuir a subtracção do poder de negociação e reivindicação da classe trabalhadora – como foi o caso do Código Laboral do PS – ou, de forma mais palpável, a diminuição dos salários. Em ambas as formas revemos a luta empreendida pela classe dirigente para o aumento da taxa de exploração, como explicitada acima.

E contudo, a coberto da crise, vemos surgir apelos claros para que esta tendência objectiva do Capital seja interiorizada pelos trabalhadores, criando bases subjectivas para que os salários não subam, justificando-se com a defesa do emprego. Apelos que para o a classe assalariada subscreva – uma vez mais: lá está o disco riscado! – os ditames da ordem capitalista.

LADO B

Uma outra característica dos discos de vinil, e em particular dos singles (amontoam-se as analogias políticas sofríveis), é a do lado B dos discos, que correspondia às versões alternativas das músicas do lado A. E muitas vezes apenas para ocupar o espaço de gravação que restava…

Para ir direito ao assunto, nas suas expressões actuais, o lado B defende essencialmente um relifting do neo-liberalismo para um “capitalismo regulado e ético“, como consequência da profunda “crise de valores” a que o “anterior” modelo nos conduziu. Segundo esta versão alternativa da realidade houve uns quantos tipos imorais que ora montavam elaboradas fraudes financeiras, ora executavam empréstimos que deixaram uma série de desgraçados endividados; quando não dispersavam os seus capitais por investimentos que prometiam altos lucros, tantas vezes aproveitando-se excessivamente de offshores que visavam tão só incrementar o desenvolvimento de regiões empobrecidas.²

Nós cá não gostamos de singles

Acontece que a crise não é resultado da falta de ética dos seus intervenientes, mas ocorreu pela confrontação destes intervenientes com os limites de estabilidade do sistema em que actuam. Sistema este da troca D-D’ que, como explicitado acima, tem os seus limites (também) na produção económica.

Contudo, as respostas que os “lados B” encontram para superar as contradições em que a sociedade se encontra passam por defender a continuidade do sistema, puxando o lustro à ética dos especuladores e dos governantes que com eles sempre pactuaram. Como se a moral dominante não fosse um reflexo das condições materiais da sua época…

O discurso destes vinis é que já se encontra gasto! É necessário que as massas trabalhadoras e não monopolistas ganhem consciência dos limites do nosso sistema económico actual, para a tendência real de diminuição das suas condições de vida e de incremento das desigualdades – em particular na presente altura de crise. E é urgente que esta tomada de consciência se efective em acção social e política! Quer nas negociações dos salários e na defesa do emprego com direitos, quer em iniciativas de contestação ao aumento da taxa de exploração. E é isso que nós andamos a fazer.

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Escrito para o Cheira-me a Revolução!
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[1] não se trata do escudo. É uma mera representação para o exemplo.
[2] uso fantástico, por parte dos autores, de um recurso estilístico! ironia/sarcasmo.
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Algumas imagens – e consulta – são mais-valia retirada do blog anonimo sec xxi
consultado ainda Conceitos Fundamentais de O Capital, de Lapidus e Ostrovitiano, Reading Marx’s Capital with David Harvey e Capitalism Hits the Fan: A Marxian View
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# Colectivo Leitura Capital

Charles Darwin, o revolucionário relutante. – Comentário

O artigo «Charles Darwin, o revolucionário relutante» hoje publicado em Resistir.info foi há dias apresentado no blog «Cheira-me a Revolução!». No final do artigo traduzido deixamos um comentário que hoje nos parece pertinente aqui inserir, é o seguinte:

1 – O evolucionismo foi um marco na história da ciência que extravasou a pura discussão científica. A observação da Natureza e o espírito crítico e integrador de Darwin resultaram numa concepção dinâmica da vida, dos seres e da Terra; definiram-se novos vectores de investigação que, cheios de curiosidade e atentos à dialéctica da Natureza, procuraram colmatar os espaços em branco da história evolutiva. Muitas pegadas foram seguidas – e nem falámos ainda aqui da vertigem que foi a descoberta do DNA, verdadeira “prova do crime” da Evolução -, num processo de permanente desenvolvimento.

2 – Mas é emocionante testemunhar o paralelismo do pensamento marxista e deste salto revolucionário na ciência. Pelo seu conteúdo e pelas alterações que promoveu na luta ideológica: o confronto com as posições obscurantistas duma intervenção divina na criação. E este artigo ilustra bem a receptividade que Marx e Engels deram à obra de Darwin, sabendo despi-la do clima de dominação ideológica em que era exposta.

3 – Como este artigo procura demonstrar, o arrojo das ideias contidas na Origem levou Darwin a esconder as suas ideias e à contradição com a verdade científica. Talvez esperasse um tempo melhor para as expor em todo o seu alcance? Esta também poderá ser uma lição: as ideias que suscitem infidelidade à ideologia imposta poderão ser recalcadas pelo próprio indivíduo – a subjectividade agrilhoada.

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Existimos porque um grupo particular de peixes tinha uma anatomia de barbatanas peculiar, que se pôde transformar em pernas de seres terrestres; porque a terra nunca congelou completamente durante uma idade do gelo; porque uma espécie pequena e tenaz, vinda de Àfrica há cerca de um quarto de um milhão de anos, conseguiu, até hoje, sobreviver por todos os meios. Podemos desejar uma resposta mais “elevada” – mas nenhuma existe.

Stephen Jay Gould

Pois, mas a crença religiosa é obliquamente sorrateira. Durante séculos defendeu a geração divina, hoje apela a que se entenda a evolução, a hereditariedade genética como um desígnio de Deus. Que é desta que não é mentira, que a retirada da ignorância face ao avanço do conhecimento estancou; não deixa de haver nessas pessoas e instituições uma grande desfaçatez moral.

5 – Darwin foi o brilhante intérprete da ideia da Evolução, tomando de forma crítica os elementos que o seu tempo e ele, pessoalmente, haviam recolhido. Mas podia ter sido outra pessoa, como se relembra no artigo (Alfred Russel Wallace). A ideia estava madura para ser colhida. Ou por outra, a construção humana do saber é colectiva e múltipla.”

# Colectivo Leitura Capital

Solidariedade para com o povo palestiniano!

Entretanto já vai sendo hora de romper o silêncio. (Quais estudos, férias ou trabalhos?)

Neste blog estamos solidários com Gaza, repudiamos o genocídio que tem vindo a ser cometido pelo Estado israelita e condenamos a passividade da comunidade internacional. O cessar-fogo nunca foi cumprido por Israel, que não levantou o bloqueio imposto e se preocupou em estabelecer um plano de invasão.

Esta não é uma guerra de defesa ou de prevenção, é uma matança indiscriminada, desmascarando a hipocrisia do direito internacional. Tempos graves, revoltantes.

Harold Pinter (1930-2008)

“Em 1985 escrevi:
‘Não existe uma verdadeira distinção entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo’.

Creio que estas afirmações continuam válidas e se aplicam à exploração da realidade através da arte. Portanto, enquanto escritor defendo-as mas enquanto cidadão não posso fazê-lo. Enquanto cidadão tenho que perguntar: O que é que é verdadeiro? O que é que é falso?…”

Harold Pinter, «Arte, Verdade e Política», em 2005

Seu discurso «Arte, Verdade e Política» aquando a entrega do Nobel:

Ver o vídeo, aqui.

Transcrição do discurso em inglês e em português.

Anotações pessoais sobre a Crise Sistémica Global

Era ainda inícios de 2007 quando fui prevenindo as pessoas que me são próximas da aproximação de uma provável grande depressão económica.

Não sendo economista, sendo péssimas as notícias que transmitia, e sendo elas contrárias ao que os média e políticos do sistema diziam, poucos me deram a atenção devida. Para essas pessoas a que preveni de tal situação, não havia evidências de que eu pudesse ter razão, e a vida parecia-lhes correr como de costume.

Injecções de capital pelo BCE de 2000 até Março de 2008

A desinformação em que as pessoas no geral estão foi notória quando desde Fevereiro  fazia referencia à nacionalização no Reino Unido de um grande banco como sinal da crise, quando fazia referencia a enormes injecções de capital no sistema financeiro, e elas nada sabiam. Essa desinformação continua, permanecendo a ocultação das futuras consequências da crise. E a procissão ainda vai no adro.

Agora, que já não dava para ocultar o que “já” é público, e não há dia na media em que não se referencie acontecimentos relacionados com a crise, as nacionalizações (dos prejuízos) e as enormes injecções de capital já não são novidade. As mesmas pessoas que preveni, tomaram consciência que tinha razão, e agora frequentemente perguntam a minha opinião!

Não sou economista. Então como fui capaz de prevenir, os meus próximos, com dados tão certeiros das consequências e timings desta crise? Apenas me informei através de media alternativa, e sobre esta matéria foi de elevado interesse e importância os relatórios publicados em Resistir.info do GEAB.

Sei que a maioria passará à frente dos links acima colocados, mas recomendo que leiam sem falta o mais recente relatório público do GEAB, que transcrevo o início:

O LEAP/E2020 prevê que em Março de 2009 a crise sistémica global venha a experimentar um novo ponto de inflexão de uma importância análoga ao de Setembro de 2008. Nossa equipe considera com efeito que este período do ano de 2009 será caracterizado por uma tomada de consciência geral da existência de três importantes processos desestabilizadores da economia mundial, a saber:

1. A tomada de consciência da longa duração da crise
2. A explosão do desemprego no mundo inteiro
3. O risco do colapso brutal do conjunto dos sistema de pensão por capitalização.

inicio do relatório público do GEAB

Esta crise foi prevista e prevenida, por muito que na media corporativa insistam no contrário!

Para finalizar, caso queiram ter uma visão mais abrangente sobre o assunto, não posso deixar de aconselhar esta excelente reflexão sobre Portugal e a crise, feita por Miguel Urbano Rodrigues: AQUI.

Cuba e o bloqueio no contexto da obamização

É possível obter aqui um resumo das posições e referências a Cuba pelo candidato Obama, entretanto eleito para a presidência dos EUA. Algumas escolhas:

I will maintain the embargo. It provides us with the leverage to present the regime with a clear choice: if you take significant steps toward democracy, beginning with the freeing of all political prisoners, we will take steps to begin normalizing relations. [Bem, o bloqueio é responsabilidade dos EUA. Porque não dão o 1º passo?]

My policy toward Cuba will be guided by one word: Libertad. And the road to freedom for all Cubans must begin with justice for Cuba´s political prisoners, the rights of free speech, a free press and freedom of assembly; and it must lead to elections that are free and fair. [Hum, a ingerência é para continuar…]

The United States has a critical interest in seeing Cuba join the roster of stable and economically vibrant democracies in the Western Hemisphere. Such a development would bring us important security and economic benefits, and it would allow for new cooperation on migration, counter-narcotics and other issues. [Esta de Agosto do ano passado, só podia.]

Portanto, quanto à pergunta que por aí se faz

Dili, Nov 7 (Prensa Latina) In a message addressed to US President Elect Barack Obama Timor Leste President Jose Ramos Horta asked him to lift the blockade of Cuba.

HAVANA, Cuba, Nov 1 (acn) The President of the UN General Assembly Miguel D’Escoto, said the US economic, financial and commercial blockade against Cuba must be ended “once and for all,” after a Cuban resolution on the issue was overwhelmingly approved by the assembly for the seventeenth consecutive year. In his concluding remarks after the vote on the resolution, which drew 185 in favor, D’Escoto pointed out that once again the international community had rejected the “illegal and criminal” blockade imposed on Cuba, calling the island nation a “heroic country of unfailing solidarity.”

estamos respondidos.

Entendamo-nos: muito se diz que se ultrapassaram certas barreiras e que há esperança na efectivação duma mudança. Mas neste caso, apesar da nova administração se vir a comprometer com algumas reivindicações justas,

I will grant Cuban Americans unrestricted rights to visit family and send remittances to the island.

ainda não se sabe em que condições é que elas, eventualmente, serão atendidas.

Muito fica por dizer no que diz respeito à vontade de normalizar as relações entre os países, em pé de igualdade, sem abdicar da sua soberania, é o que concluo.

handbook

Manual da Banca – “Tudo o que precisa de saber para se sentir tranquilo”

Trata-se dum manual da Caixa Geral de Depósitos dirigido aos finalistas ou recém-licenciados num curso superior. Indíviduos que, em geral, em breve terão maior interesse para o mercado de dinheiro – daí a estratégia de vendas que é montada pelos bancos, seja no patrocínio das instituições universitárias, dos estudantes que as frequentam e das suas associações.

Neste manual procura-se dar uma ideia dos produtos disponíveis, num estilo de esclarecimento respeituoso, de acordo com o nível do público. Incentivando à aquisição dos produtos mas com responsabilidade e discernimento. Mas num mundo em crise económica, qual a moral que as entidades bancárias podem ter perante um estudante recém-licenciado?

“E agora?” que mercado de trabalho? Um curso superior abre portas (de caixas fortes)? Aprecio a forma equilibrada como os diferentes produtos são apresentados e as questões com que são introduzidas, mesmo que pareça para clientes diferentes: um licenciado em ciências da comunicação poderá considerar seriamente o investimento em fundos? Oh, e um de ciências, mesmo ciências?

A linguagem organizada de acordo com a ideologia: consultem-se as definições de “salário”, “lucro”, “mais-valia”, “preço” no glossário.

Reparo também que não existe nenhum produto de assistência (incentivo?) a criação de empresas. É uma questão de estratégia de vendas? Ou um sintoma da financeirização da economia, na medida em que aquele banco privilegia o investimento em mercados financeiros? E isso funciona?