Autor: Luiz Esteves

Viver é a coisa menos frequente do mundo A maior parte das pessoas existe e isso é tudo - Joaquim Pessoa

do desigual acesso das classes à liberdade

Especula-se abertamente o nome da figura que executará a salvação nacional. Júdice volta aos seus tempos de antigamente e diz o que todo o bom burguês almeja. Na rua apoiam-se soluções de força, ignorando em falsa consciência que esta se exercerá sobre os reclamantes. O PS mantém as suas abstenções violentas, com o presidente a desmentir as suas posições.

A última greve geral teve momentos caricatos: à porta da Vimeca, em Queluz de Baixo, a polícia atuou sob as ordens dos capatazes, confrontando fisicamente o piquete por cada autocarro que saía. Ao longo da estrada principal montara barreiras para impedir a circulação de pessoas por outro local que não os passeios, impedindo assim cortes de estrada. Os mais jovens do piquete, afoitos, eram arrastados do chão pela força de segurança pública, cujo número não parava de aumentar e cujos desígnios eram sobejamente privados. Os poucos funcionários da empresa e os delegados sindicais que integravam aquele piquete popular queixavam-se das pressões enormes sobre os trabalhadores todos os dias e contavam o seguinte: a empresa empenhava-se naquela madrugada em colocar os autocarros na rua, mas a meio da manhã era expetável que em boa parte os mandasse recolher, pois arrastar-se-iam vazios por filas de automóveis.

Talvez a liberdade nas instituições de domínio de classe esteja a ser agora posta em causa. Mas dada a repressão que se abate sobre os trabalhadores, há muito que estes sentem que, no regime atual, ela não passa de uma ilusão. Com as consequências que daqui possam advir.

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A salvação do capital e a suspensão da democracia burguesa

A crise política é uma narrativa muito apropriada para a consecução do programa neoliberal, ao ritmo atual, nem que seja por mais alguns meses. Talvez até ao fim do atual resgate financeiro.

Entenda-se que não partilho das ideias de conspiração ao mais alto nível do poder, com o objetivo de manter a austeridade. Penso antes que existe um alinhamento estratégico entre os partidos do memorando, como a votação das propostas do BE acerca da dívida anteontem demonstrou. Um alinhamento que também é simbólico no respeita à inepta condução dos papéis das figuras do Estado: antes Coelho e Portas, depois Cavaco, agora Esteves. Os seus atos descredibilizam as instituições eleitas, num clima de fin de régime mal decalcado da 1ª república.

Acontece que, presentemente, todo o tempo de destruição do Estado Providência é mais eficiente, em relação aos seus objetivos, do que a atitude de resistência que tivemos e teremos de adotar. Assim, há que perceber que a manutenção desta política, seja sob que forma for ou com que credibilidade governativa houver, tem implicações concretas no futuro do país. Ainda hoje saiu em Diário da República mais umas contribuições regulatórias tendo em vista a privatização do tratamento de resíduos. Esta política não está moribunda e não há, portanto, razões para comemorar o espetáculo de apodrecimento do governo.

Por fim, a “salvação nacional” não serviria para clarificar as posições dos partidos – de resto, a própria convocatória de Cavaco é dirigida só à troika interna, o arco de governação. O que se verifica é que o problema passou do Cavaco para o PS: este pretende continuar a jogar à alternância governativa quando o avanço do programa neoliberal exige a unidade dos dirigentes face ao descontentamento que grassa na população austerizada. Neste sentido, o PS não pode continuar à espera que o pote lhe caia no colo e a democracia liberal tem, assim, que ser “suspensa”. A bem da nação.

Cavaco – que, mais uma vez, se exime das suas responsabilidades – expôs a verdadeira face do regime-ilusão democrática.

A democracia, um engodo para os tolos? (Jean Salem)

Sexta passada acorri ao congresso Marx em Maio para assistir à intervenção do professor Jean Salem, cujo livro Lénine e a Revolução já abordámos por aqui anteriormente. Como não estivemos todos presentes, decidi colocar neste blog as notas que tirei dessa intervenção.

democracia em obras

Para além do livro já referido e de entrevistas ao autor que já havia lido, o título da sua comunicação destacava-se da maioria por convocar uma reflexão em termos correntes (“piège à cons” até remete para populismo, não?). E as minhas expetativas foram totalmente correspondidas: não só Jean Salem não se alongou em citações de outros autores, como o seu discurso era muito bem estruturado e ilustrado por diversos exemplos. O que poderia parecer um apanhado de curiosidades, sem nexo, era integrado numa análise do fenómeno eleitoral na sociedade burguesa visivelmente ancorado na perspetiva marxista – e isto sem recorrer a Marx a cada duas orações. (mais…)

“a um passos do precipício”

“A eleição e a confirmação dos governantes ou dos que possam vir a governar são, em geral, atos plebiscitários; e porque unicamente se pode votar a propósito da ocupação de posições com poder decisório e não acerca das diretrizes para a decisão futura, a eleição democrática realiza-se aqui mais em forma de aclamação do que de discussões públicas. Perante a opinião pública política legitimam-se, quando muito, as pessoas que devem decidir; as decisões em si mesmas devem, em princípio, (…) permanecer subtraídas à discussão pública. Por conseguinte, [isto] reduz em última instância o processo de formação de vontade democrática a um procedimento regulado por aclamação das elites chamadas alternadamente à governação. Intacta na sua substância irracional, a dominação pode assim legitimar-se, mas não racionalizar-se como tal.”

Jürgen Habermas, 1987 (1968), Técnica e Ciência como “Ideologia”, Lisboa, Edições 70, pp. 113-4

Fenómenos visíveis e realidades escondidas

Na Introdução de “Compreender a Economia” pretende-se chamar a atenção do leitor para mistificações correntes da economia dominante ou do saber não científico. Em jeito de aperitivo para as matérias do livro. São 3 as questões lançadas por Jacques Gouverneur, que poderão não ser evidentes para o leitor:

  • A fonte de toda a riqueza está no trabalho – “todas as produções repousam em definitivo só no trabalho humano” [Gouverneur, 2010, p. 14]
  • Os preços das mercadorias devem-se essencialmente à quantidade de trabalho nelas incorporado.
  • O rendimento global é unicamente criado pelo trabalho de quem integra a produção de mercadorias.

Na aparência, o preço, a riqueza e os rendimentos parecem estar desligados da produção material – do trabalho -, mas uma visão mais atenta da realidade demonstra o contrário. Esta oposição entre aparência e realidade, fenómeno e essência, ilusão e verdade é fundamental no processo de construção do conhecimento.

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Agora toca a “Compreender a Economia”!

Tanto falamos aqui em devir e mudança e não é que tardava em mudar o nosso livro escolhido?!? Avançamos agora com o manual de economia marxista editado há cerca de um ano pelas edições Avante!: “Compreender a Economia” por Jacques Gouverneur.

O propósito é rever e alargar as minhas bases marxistas de economia, sem descurar o imprescindível ataque ao “capitalismo contemporâneo”. Hoje abordo o prefácio.

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um certo discurso sobre a mobilidade

No seguinte link poderão aceder ao nº 11 da revista MOV Lisboa, que é uma “newsletter” do pelouro de mobilidade da CML.

Tudo bem: é de louvar a proximidade dos eleitos (o vereador) com os eleitores. A comunicação e a interação são um aspeto fundamental da nossa sociedade, como prova este blog. E neste número 11 aborda-se o tema do planeamento urbano, um tema bem interessante.

Mas não são elogios que motivam este post. É antes o profundo aborrecimento com que leio os discursos pífios do vereador e algumas tiradas inanes dos catedráticos de serviço. (mais…)