A democracia, um engodo para os tolos? (Jean Salem)

Sexta passada acorri ao congresso Marx em Maio para assistir à intervenção do professor Jean Salem, cujo livro Lénine e a Revolução já abordámos por aqui anteriormente. Como não estivemos todos presentes, decidi colocar neste blog as notas que tirei dessa intervenção.

democracia em obras

Para além do livro já referido e de entrevistas ao autor que já havia lido, o título da sua comunicação destacava-se da maioria por convocar uma reflexão em termos correntes (“piège à cons” até remete para populismo, não?). E as minhas expetativas foram totalmente correspondidas: não só Jean Salem não se alongou em citações de outros autores, como o seu discurso era muito bem estruturado e ilustrado por diversos exemplos. O que poderia parecer um apanhado de curiosidades, sem nexo, era integrado numa análise do fenómeno eleitoral na sociedade burguesa visivelmente ancorado na perspetiva marxista – e isto sem recorrer a Marx a cada duas orações.

A liberdade a passar alhures…

A intervenção dividia-se em 3 partes, sendo a primeira dedicada a descascar a legitimidade da representação saída de eleições e o resultado deste poder. Relembrando a viragem neoliberal pós-eleitoral no Sri Lanka, a falta de alternativas na atual eleição presidencial em França ou a hereditariedade eleitoral em diversos países (EUA, Índia, Paquistão, Grécia…), Salem mostrou como há uma clara diferença entre a fraseologia dos candidatos e as práticas dos eleitos. Embora assumindo que a votação em eleições em certas ocasiões – em que não existe uma alternativa de contra-poder popular – seja apenas subscrever o sistema, a abstenção não foi defendida, assumindo o autor que iria votar neste domingo, mesmo que tal implicasse escolher entre dois candidatos que apoiaram a guerra recentemente.

Na 2ª parte estava em causa o poder confiscado às massas. Embora exista uma “regra da maioria” no sufrágio universal, “os povos podem enganar-se” e as suas decisões serem desconsideradas na luta política. Foi esse o caso das anulações dos votos contra o processo europeu (na Grécia, na França), em que as eleições foram repetidas, ou a vitória do Hamas na Autoridade Palestina, com a consequente sanção do seu povo. Também os poderes não eleitos como o FMI ou o BCE são uma forma de retirar o poder das mãos do povo, que afinal não o detém por via das eleições, mas que apenas o pode conquistar a cada momento da luta política.

A ilusão da posse de poder exacerba-se na 3ª nota da intervenção, intitulada a “eleição sem fim” e que se referia à ilusória centralidade do poder eleito, enquanto foco de atenção dos média e de distração em relação aos restantes pólos do poder. É neste sentido que Jean Salem se refere à despolitização dos média, que não aludem ao facto de a França se encontrar atualmente envolvida em guerra (o conceito de guerra permanente ao terror vingou por aí, digo eu) ou à análise das sondagens, que numa “tirania” dos números, não refletem as aspirações e a capacidade transformadora dos diferentes atores sociais. Também a forma como se justifica o apoio (ou instigação?) à rebelião democrática no Irão pelos EUA, enquanto o presidente Obama apoia as eleições sujas em países como Afeganistão, remete para a mobilização da opinião pública em torno da defesa do sistema eleitoral burguês enquanto suposto centro de decisão.

Num cenário de ilusão, de roubo e de falsa alternativa, Salem, sem falsas mobilizações de final de discurso, relembrou a emergência da social-democracia em tempos passados, julgo que com a mensagem de que cabe aos marxistas defender e criar formas de participação democrática. Se é certo que, citando Engels no seu discurso, as eleições servem para medir o nível de consciência da classe operária, as ações que possam produzir a sua consciência de classe não são meramente enquadráveis no sistema eleitoral burguês.

Sobre o Congresso Marx em Maio

Decidira iniciar este post de forma diferente. A intervenção Jean Salem tinha características diferentes das que presenciara até aí: criava espaço, analisava a realidade de uma perspetiva marxista com imaginação e sem se apegar à cartilha. A diferença face aos seus colegas de mesa!  Enquanto eles se entregavam a um exercício de textualismo académico de Badiou e Rancière, o professor Salem virava-se para a audiência e convidava-nos a pensar consigo o mundo concreto em que vivemos. Note-se que se o trabalho dos outros oradores é meritório – porra, são autores pós-marxistas que urge entender –, o que é facto é que estavam presos a um inteletualismo penoso para os ouvintes.

Esta minha crítica ao inteletualismo também se estende à linha dura do congresso. Assisti a parte da intervenção de Hernâni Resende sobre a polémica do Vitorino Magalhães-Godinho com o António Sérgio e à do António Borges Coelho sem que pudesse deixar de sentir o que o João Valente Aguiar exprimiu nesta posta. Não me recordo de achar que Marx pudesse ser apropriado de forma tão aborrecida e desfiguradora a não ser quando assisti a apresentações escolares (curiosamente também lidas de papéis) profundamente ignorantes do que leram e da realidade em que vivemos. Como se bastasse compor algumas frases do jargão marxista para por a perspetiva a mexer.

Não creio que tenha também sido esse o caso da comunicação do Barata-Moura. Se é certo que a sua abordagem é mais “ontológica” (e antológica, pois aquela pilha de papéis já eu tinha visto serem virados freneticamente numa Festa do Avante!), a verdade é que a pergunta de partida era simples (“Há filosofia no Capital?”) e a resposta (“Há mas a obra não é sobre filosofia!”) era construída de forma rigorosa e interessante.

Penso que são justas as críticas do João Valente Aguiar à forma como as comunicações se fechavam à atualidade e reduziam o marxismo a um exercício inteletual muito mediado em relação ao real. Fugi quando achei que o painel de gregos do final de sexta-feira apenas diriam lugares comuns da vulgata marxista (e não seria tanto pelas dificuldades de tradução do russo); senti uma boa dose de razão na caricatura que uns fulanos na livraria/alfarrabista no subterrâneo de Letras traçaram: “Vou lá acima ver um pouco dos marxistas. – Oh, esses já devem estar a marxizar nas alturas!”

Portanto, nesta posta interessa mesmo é a comunicação do Jean Salem e é por isso que vem em primeiro lugar; o resto é um desabafo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s