um certo discurso sobre a mobilidade

No seguinte link poderão aceder ao nº 11 da revista MOV Lisboa, que é uma “newsletter” do pelouro de mobilidade da CML.

Tudo bem: é de louvar a proximidade dos eleitos (o vereador) com os eleitores. A comunicação e a interação são um aspeto fundamental da nossa sociedade, como prova este blog. E neste número 11 aborda-se o tema do planeamento urbano, um tema bem interessante.

Mas não são elogios que motivam este post. É antes o profundo aborrecimento com que leio os discursos pífios do vereador e algumas tiradas inanes dos catedráticos de serviço.

Antes de mais, confunde-me que os eixos de desenvolvimento futuro da mobilidade não se assumam politicamente, isto é, que pretendam ocultar a sua ideologia própria sob uma capa pseudo-científica. (Voltarei noutro dia a este ponto, tanto mais que o marxismo, pelo contrário, afirma sonoramente a sua validade científica.)

Bem, silêncio que também está relacionado com as responsabilidades dos partidos que governam este país há muito. – Afinal, o senhor vereador não se pode permitir, como outros, a faltar à voz do dono. Por exemplo: fala o senhor vereador que as empresas públicas de transporte coletivo entraram numa espiral de crédito para colmatar a falta de transferências1, mas esquece-se de apontar o dedo a responsáveis que o permitiram (já agora, um link para nos lembrar do socratismo). Fala o senhor vereador em ineficiências, acabando por gastar metade do seu espaço com questões de bilhética e tarifários: e eu fico à espera de saber porque não implementaram as empresas privadas os bilhetes únicos, os familiares e tudo o mais; porque são apenas as públicas as más da fita.

Acontece que a doxa tem aqui perna curta: as ineficiências que o senhor vereador não mais quer financiar são os direitos dos trabalhadores, “os acordos de empresa que não reflectem os princípios que devem reger actualmente as relações laborais”. Que princípios? Que linguagem é esta que estabele um juízo tão categórico acerca de uma realidade social? Desculpem dizê-lo mas isto é genuínamente fascista. Mas ainda há pouco vimos a discussão duma reforma laboral ocorrer de forma inconstitucional, por isso este senhor parece estar bem integrado.

Vem depois um artigo inerte acerca do futuro dos transportes, um outro em que se questiona os instrumentos de planeamento em tempos de retraimento do Estado enquanto almofada à depradação social da lógica capitalista. A finalizar, o prof. Paulo Pinho mete o dedo na ferida, quando indica que mais do que transportes e espaços urbanos, “o fim, mesmo, são as pessoas, passe o lugar comum”. E passa, passa muito bem: o paralelo é quando dizemos que a economia deve servir para suprir as necessidades das pessoas – e vemos o mundo do avesso, com as pessoas e os povos a alimentar a voragem do capital.

O que já não passa tão bem é a referência a uma “mão invísivel do planeamento” (quando as intervenções são pouco vistosas) assim, à la Adam Smith. Não sei se é ingenuidade do autor ou vontade de surpreender o leitor, mas misturar liberalismo e planeamento tem muito que se lhe diga. Faça(m) o favor de reescutar o último episódio das Questões de Moral acerca da ideologia liberal…

1 – Recordo-me do diretor financeiro da Carris, em 2007, exprimir com o seu sorriso cínico algum contentamento por nos anos anteriores terem diminuído o ritmo de crescimento do endividamento da empresa. O crescimento – não o endividamento. Houve melhor forma do que esta de reduzir o défice público?

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