Agora toca a “Compreender a Economia”!

Tanto falamos aqui em devir e mudança e não é que tardava em mudar o nosso livro escolhido?!? Avançamos agora com o manual de economia marxista editado há cerca de um ano pelas edições Avante!: “Compreender a Economia” por Jacques Gouverneur.

O propósito é rever e alargar as minhas bases marxistas de economia, sem descurar o imprescindível ataque ao “capitalismo contemporâneo”. Hoje abordo o prefácio.

Em defesa do marxismo

Como no livro de Jean Salem, “Lénine e a Revolução”, também aqui Jacques Gouverneur (JG) principia por desmontar a tese de “falência do marxismo”. É a necessidade de credibilizar a teoria e a ação marxistas face à derrota do socialismo no Leste Europeu, uma pedra no sapato de todo o crítico marxista. Numa época em que o capitalismo monopolista parece um barril de pólvora para os próprios povos do centro do sistema, haveria como a esperança que a tarefa estivesse facilitada, mas a verdade é que o preconceito anticomunista se encontra ainda firme.

Os argumentos de JG são os seguintes:

  • A construção do socialismo na URSS e satélites foi uma “revolução social abortada”, que cedeu lugar, a partir dos anos 60, a um modelo centrado no desenvolvimento económico visando alcançar os países capitalistas desenvolvidos e alheio aos princípios ideológicos cujos dirigentes proclamavam. Foi também um fracasso económico:

Certos grupos sociais, apoiados pela burguesia mundial, aperceberam-se de que um regresso ao mercado e às práticas capitalistas (em todos os níveis) era em definitivo a melhor via – ou mesmo a única possível – para continuar o processo de modernização promovendo ao mesmo tempo os seus próprios interesses de classe.
[Gouverneur, 2010, sublinhado meu]

Não me revejo por completo na tese desenvolvimentista de JG, daí ter sublinhado os conflitos de classe na exposição do autor. A ideia que um desígnio superior tomara conta da URSS só é correta se apontarmos quem de facto sustentava essa ideia e pudermos descortinar os seus interesses e implicações na estrutura social; quando não, caímos na crítica que a escola de Francoforte movia aos países socialistas, equiparando-os ao ocidente capitalista no industrialismo e na subsunção da luta de classes ao desenvolvimento das forças produtivas (leituras recentes, sim…).

E também tenho dúvidas quando falamos em “regresso do capitalismo”: dadas as forças imperialistas, que estiveram envolvidas em todo o processo, é antes a integração dos países ex-“a caminho do socialismo” na dominação global.

  • O segundo aspeto critica a visão  mecanicista da história e das sociedades afeta a uma conceção marxista monolítica, precisamente centrada nas forças produtivas. “Mecânica e linear”, diz JG ao relembrar as transições clássicas e inexoráveis: “esclavagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo, comunismo”.
    A esta opõe-se uma visão dialética da história, assente na luta de classes como forma de caracterizar a evolução das sociedades (e das forças produtivas, claro). E, precisamente, o regresso do capitalismo ao Leste é uma prova dessa dinâmica histórica que se encontra no pensamento de Karl Marx.
    Trata-se aqui de uma crítica ao economicismo por parte de um economista marxista: o que é bom.
  • Bem mais interessante, é a delimitação que JG estabelece para a “teoria económica marxista”, como parte integrante da “teoria marxista da história” já referida na alínea anterior. Supostamente o âmbito da teoria económica marxista cinge-se ao sistema económico capitalista, analisado por Marx e seus sucessores; a teoria económica do socialismo ou das economias planificadas seria portanto uma “ciência” à parte. JG refere inclusivamente que o regresso do capitalismo ao Leste resulta num “alargamento geográfico” do objeto científico da teoria económica marxista.
    Parece evidente a vantagem em cortar assim os laços entre uma e outra: assim, não seria Marx o responsável pelo desaparecimento dos países ditos socialistas. Verdade seja dita, “O Capital” tem como subtítulo “Crítica da Economia Política”, o que por si deveria demonstrar uma preocupação com as ideias do seu tempo presente maior do que com a organização da sociedade socialista. Julgo que a distinção de JG é justa, tanto mais que Marx e Engels se distinguiam dos socialistas anteriores também pela relutância em conceber utopias de fácil e imediata implementação.

10 minutos

A Jean Salem (JS), no seu já referido “Lénine e Revolução”, são impostos apenas 10 minutos para versar acerca da atualidade do marxismo. Mais preocupado em denunciar a dominação ideológica – o “pensamento único” – que ilude as massas quanto às vias de libertação, JS apenas refere a economia uma vez. Trata-se de sublinhar que o factor económico é determinante na vida social, mesmo quando o religioso “parece constituir o factor dominante”. JS pensa no papel da religião em consolar as massas exploradas, nomeadamente nos países islâmicos (e isto antes das revoluções do último ano).

Creio que JS está longe de cair no economicismo (ainda para mais dado o fraco desenvolvimento deste ponto relativamente aos outros), porque finaliza os seus 10 minutos a sublinhar que será a ação consciente das massas a impôr a superação da sociedade presente. E, como escreve,

A atualidade do marxismo reside, portanto, em primeiro lugar, em que denuncia o capitalismo como sistema (…).
[Salem, 2007]

Encontro, assim, uma semelhança de perspetiva entre Salem e Gouverneur no que diz respeito à conceção da crítica económica como parte da teoria histórica, da visão do mundo marxista. Mas não deixa de ser supreendente ou discutível a separação nítida que Gouverneur pretende: um ponto a rever futuramente.

Bibliografia

Gouverneur, Jacques, “Compreender a Economia, or. 2005, edições Avante! 2010.

Salem, Jean, “Lénine e a Revolução”, or. 2006, edições Avante! 2007.

Pessoalmente, começarei por saltar para o capítulo VII do “Compreender a Economia”, que expõe as contradições fundamentais do capitalismo, mas amanhã – espicaçado pelo Bruno – gostaria de dar uma nota sobre a introdução.

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