“O Assassinato de Lumumba” – Ludo de Witte

Publicado em finais de 1990’s, este livro trata-se de um trabalho de investigação que põe a descoberto a responsabilidade da Bélgica, da ONU e da comunidade internacional no assassinato do político congolês Patrice Lumumba, em 1961. Contrariando, a versão da história acarinhada pela classe dirigente belga, Ludo de Witte apoia-se em documentos e registos de comunicações oficiais da época para mostrar as acções e os interesses por trás deste evento político de suma importância.

 

Em 1960, os belgas acederam tornar independente a sua colónia do Congo (Congo-Léopoldville), fruto do ascenso nacionalista. Redigiram uma Constituição para a nova república e permitiram eleições livres; cederam o controlo das forças de segurança e militares, muito embora mantendo a sua influência estratégica (os assessores) e funcional (o dinheiro); asseguraram que se mantinha a propriedade e a segurança das holdings presentes no país, nomeadamente as de exploração de cobre na região do Catanga, no sul do país. Portanto, tudo mudaram para que tudo permanecesse na mesma.

Acontece que o movimento nacionalista congolês tinha um partido com forte capacidade de mobilização popular – o Movimento Nacional Congolês (MNC) – e o seu líder, Patrice Lumumba, tratava-se dum orador inexcedível e que pretendia libertar o Congo do jugo colonialista (belga e não só…) para que o desenvolvimento do país e do seu povo fosse possível. O seu discurso não alinhado, aquando da cerimónia da independência, é de uma coragem e firmeza de princípios admiráveis. Pois bem, o MNC venceu as eleições e Lumumba tornou-se o 1º ministro do governo legalmente eleito do país.

Muito esquematicamente, estão apresentadas as forças em confronto; o desfecho, já o conhecemos, também: o governo do MNC cairá devido a sucessivas sublevações e golpes de Estado supervisionados pelo colonialismo belga (Kasa Vubu, Tchombé, Mobutu); o Congo será palco de diversas intervenções militares; Lumumba será preso e, mais tarde, barbaramente assassinado. Segundo a historiografia belga, tal deveu-se apenas aos conflitos políticos internos – que Lumumba terá agravado com a sua postura intransigente – e às concepções tribais de justiça. Portanto, os pretos são atrasados e Lumumba estava a pedi-las.

O que Witte nos revela é a ligação do governo e do Rei belgas com os movimentos opositores de Lumumba e com governos fantoches (por exemplo, em Catanga), que advogaram a secessão da recém-criada república congolesa. Mais, face à gravidade da situação política, com o desmembramento da unidade nacional, Lumumba pediu a presença de tropas sob a égide da ONU que ajudassem a manter a segurança e o regime democrático: estas tropas acabaram por agir conforme os interesses da oposição golpista. Cereja no topo do bolo: os americanos olhavam para Lumumba como o possível Fidel Castro em África – era imperativo abatê-lo.

Fica claro das comunicações entre os altos dirigentes belgas e os seus subordinados no Congo (que nele exerciam funções militares e de “aconselhamento” aos opositores golpistas) que a supressão do 1º ministro Lumumba se encontrava decidida há muito tempo. Lumumba foi preso em Novembro de 1960, numa tentativa de fuga para o bastião nacionalista a norte do país, bordejado pelo Lago Tanganica. Nessa altura já o presidente Kasa Vubu o havia destituído, as tropas da ONU já se encontravam no território e Mobutu tornara-se a aposta forte dos belgas para a reconstrução nacional congolesa. Manter Patrice Lumumba numa prisão militar, sem direito a julgamento e sujeito a maus tratos, tornou-se perigoso a curto prazo para os interesses em jogo, visto que a contra-ofensiva nacionalista ganhava ânimo e os próprios militares que guardavam Lumumba ameaçavam sublevar-se. De forma a ilibar os futuros dirigentes congoleses, a solução foi enviar Lumumba para uma das províncias secessionistas, onde o assassinaram cruelmente, após inúmeras sevícias.

As tentativas de encobrimento do crime e das responsabilidades dos diferentes interesses envolvidos caem por terra com as declarações coligidas neste livro. Há todo o interesse vislumbrar os jogos de bastidores e as ligações de interesses no seio das classes dirigentes, que são cruciais para perceber o rumo que o Congo tomou após o governo de Lumumba.

Interessantemente, Ludo de Witte aponta o dedo à restante comunidade internacional e, em particular, à União Soviética, pelo fraco papel que desempenhou: tanto por acompanhar as resoluções tomadas na ONU, como pelo insuficiente apoio ao exército nacionalista congolês, numa altura em que era patente o emprego de armamento e mercenários a soldo dos belgas. E também a classe operária belga não sai incólume, sendo criticada – em conjunto com os seus dirigentes – por não ter conseguido juntar à luta que então travava contra o governo belga, a solidariedade com a independência congolesa. Anoto estas duas críticas aqui por as achar desafiantes; não tenho, contudo, dados para as ajuizar.

Este é um livro investigação histórica: expõe uma tese e procura a sua fundamentação. Obviamente que tem um ponto de vista político, que é crítico em relação aos altos responsáveis congoleses, belgas e da ONU, denunciando as formas de dominação imperialista como a razão por trás do subdesenvolvimento crónico de algumas nações. Sem dúvida que tal ajuda a colocar em causa uma visão da “civilização” que se pode considerar etno-centrista, assim como ajuda a fabricar anti-corpos contra a legitimidade e os propósitos de intervenções com base no “direito internacional”. Para além disso, dá conta do desenvolvimento do pensamento político africano e das forças que o coarctam.

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