Uma Breve História das Ideias

Nos mais singelos actos do quotidiano estão escondidos muitos séculos de história da humanidade. Tente imaginar quantas pessoas estarão por detrás do simples acto de acender a luz. Serão dezenas, centenas, milhares? E para hoje termos oportunidade de usufruir de tal tecnologia, quantos não participaram, no passado, directa ou indirectamente no desenvolvimento tecnológico? O nosso meio ambiente, tal como as nossas ideias, são hoje resultado de uma enorme herança deixada pelos nossos antepassados.

Façamos agora uma breve caminhada pela Nossa longa história das ideias:

Xenofanes (entre 570 a.C. – 460 a.C.);

Já muito depois de o homem criar enumeras entidades sobrenaturais para explicar a causa e as razões dos fenómenos naturais, surgiu Xenófanes dizendo que “Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos, ou pudessem desenhar com as mãos e fazer obras como as dos homens, representariam os deuses, o cavalo semelhante aos cavalos, o boi aos bois, e fariam corpos como os seus próprios”. A sua obra foi destruída – a classe dominante não poderia tolerar ser ridicularizada e que se duvidasse da existência dos deuses.

Com o decorrer do tempo as classes dominantes aperfeiçoaram a religião aos seus fins: criaram deuses, mitos, rituais e cerimonias. Neste processo, criou-se uma “casta divina” ligada a reis e faraós de impérios onde a escravatura era abençoada pelos deuses: no Egipto, por exemplo, os homens deveriam obediência a Osíris, e suportar resignados a escravidão, na esperança de ressuscitar um dia para uma vida feliz, sem escravidão. O “Estado” decretava que deuses se deviam adorar.

Haveria de chegar o momento de dar explicações racionais aos fenómenos naturais dando origem à filosofia e às ciências.

Tales (século VI ac);

Pai da geometria, dedicou-se à astronomia e à explicação dos fenómenos sem recorrer à intervenção dos deuses.

Pitágoras (cerca de 570 a.C. e 571 a.C);

Pai das matemáticas. Achava que o princípio de todas as coisas eras os números! Com os seus discípulos – os pitagóricos – foram os primeiros a defender que a Terra não era o centro do Universo. Portanto, uns hereges. E claro, foram perseguidos por fanáticos religiosos.

Heráclito (aproximadamente 540 a.C. – 470 a.C.);

O filosofo do devir, da mudança, da dialéctica. Ateu. (!)

“Ninguém banha duas vezes no mesmo rio, porque este nunca é o mesmo em dois instantes sucessivos”

“Nada é permanente, excepto a mudança.”

“Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissonante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.”

Notar que nesta fase a ciência estava ainda um bebé, frágil, talvez mesmo numa incubadora para sobreviver, mas já era maltratada por aqueles que a deveriam acarinhar. É difícil para quem está na incubadora, ver passar a família e, em vez de acarinhar, haver membros da família que dão uns estalos no bebé. Foi o que fizeram. As classes dominantes usavam os deuses para manterem o poder.

Empédocles (séc VI aC);

Filosofo que defendeu que os homens eram deuses pecadores condenados à vida terrena! Além disso, tudo era feito de água, fogo, ar e terra. Isso foi defendido até à idade média.

Anaxágoras (séc V aC)

Morreu por ter dito a insolência de que “o Sol é uma simples massa de fogo e de pedra” maçando os atenienses crédulos de que o astro seria um deus.

Sócrates

(o verdadeiro, porque o outro chama-se José)

Este filosofo negava que a moral fosse sinónimo da religião. Pela assembleia popular foi acusado de não acreditar nos deuses da cidade e corromper a juventude. Foi condenado à morte.

Platão

Exprimiu as três questões fundamentais da filosofia:

– Onde pode o homem encontrar a Verdade?

– Qual é a origem do Universo?

– Qual é a finalidade do homem na vida?

Achava que o verdadeiro conhecimento das coisas não é dado pelos sentidos, mas pela razão. O homem não pode conhecer a verdade através da ciência, mas pela “reminiscência”, uma espécie de inspiração do além.

Não foi perseguido nem condenado à morte. As suas ideias não iam contra os interesses das autoridades, e a existência de servos e senhores. Todos eram iguais na possibilidade de após a morte encontrarem a felicidade, que para nada servia neste mundo produto da imaginação.

Demócrito (cerca de 460 a.C. – 370 a.C.)

Dizia que “a substância cósmica é composta por um número infinito de elementos ou partículas, fisicamente indivisíveis, indestrutíveis e infinitas, variáveis no tamanho e forma e em eterno movimento”. Portanto, tinha “ideias materialistas”. E claro, foi perseguido.

Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.)

Escreveu sobre Lógica, Física, Metafísica, Ética, Política, Biologia, Zoologia,… Recusou as ideias de Platão ao considerar que apenas os sentidos são fonte da verdade. Uma das descobertas mais interessantes foi de que a origem das lutas sociais está relacionada com as desigualdades das condições de fortuna. Para ele, o poder na mão dos ricos era oligarquia, na mão do povo (apenas os cidadãos) era democracia. Considerava a escravatura necessária. Sua influência manteve-se até ao surgimento do materialismo do século XVIII.

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Idade Média

Saltamos agora para a Época que ficou conhecida como a Idade da Fé. O Cristianismo tornara-se a religião oficial do Império Romano e intensificaram-se as perseguições aos hereges – os que não aceitavam a doutrina oficial – que teve o seu momento mais encantador nas fogueiras da Santa Inquisição. A partir desse momento, na Europa, pouco há a contar sobre os desenvolvimentos da ciência e da filosofia, ficando as ambas escravas da teologia, não fosse a fé a negação do método científico. Tomás de Aquino escreveu 21 volumes para justificar os dogmas da Igreja, e ainda hoje muitos os estudam nos seminários! Estamos na Idade Média, normalmente atribuída à fase entre o século V e o XV.

Maquiavel (1469-1527)

Um dos primeiros a lançar-se contra a igreja e a pregar a rebelião contra a ditadura clerical. Achava que a Igreja se tinha apropriado de Deus para conseguir os seus fins particulares. Mostrou, por exemplo no seu livro O Príncipe, como os Papas eram nomeados por conveniência política. O livro listava no Index Librorum Prohibitorum.

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Renascimento

Começava o contra-ataque da ciência, da razão e da inteligência contra o dogma e a ditadura da fé, permitindo à humanidade lançar os fundamentos dum dos seus valores mais preciosos: a liberdade de pensamento.

Surgem nomes como Dante, Boccaccio, Petrarca, Maquiavel, Leonardo Da Vinci, Erasmo, Lutero, Copérnico, Galileu, Giordano Bruno, Francis Bacon, Vico, Kepler, Newton

Vico

Errou ao achar que o regime burguês não seria substituído por nenhuma forma superior de sociedade e que o ciclo se repetiria infinitamente.

Descartes e Espinoza

Descartes procurou explicar o mundo sob um ponto de vista materialista, racionalizando a existência das coisas, mas achava que o homem tinha uma alma; e fez o prodígio de localiza-la no cérebro, na glândula pineal. Tinha uma visão mecanicista das coisas.

Espinoza era judeu. Depois, passou a ser ateu e dizia que “tudo é deus”. Bom, talvez não fosse propriamente ateu, era panteísta.

Estes dois semi-ateus acreditavam que a natureza não muda, não evoluciona, e que obedecia a leis imutáveis. Estavam errados, mas ninguém os lançou para a fogueira.

Diderot

A astronomia prova que os planetas giram numa órbita fechada: acabam de girar onde começaram”. Diderot, tal como outros, achavam portanto que o Mundo e a Humanidade repetiam-se por ciclos.

Locke, Berkeley e Hume – Empirismo

Locke era materialista e ateu. Argumentava contra o “direito divino” dos reis e os dogmas da Igreja. O homem deveria entender deus à sua maneira e não como prescrito por uma religião.

Berkeley, bispo anglicano, maçado pela impertinência de Locke tentou refuta-lo, mas sem êxito, muito por culpa do aparecimento de Hume.

Hume, agnóstico e céptico, defensor da ideia que não podemos saber nada com certeza. Por causa das suas ideias contra todas as religiões, refugiou-se em França.

França

Deu-se a Revolução francesa. O triunfo da Razão sobre a , onde mais que ideias filosóficas, divulgou ideias “políticas”, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Seguindo o exemplo a América tornou-se independente da Europa, e a Europa independente da autoridade papal.

Este sub-capítulo merecia bem mais apreciações!

Kant

Em oposição ao materialismo do séc XVII, surgiu o brilhante Kant e a sua obra “Critica da razão Pura”:

“Qualquer tentativa tanto cientifica como religiosa para definir a realidade é apenas mera hipótese…”

“Qualquer tentativa de alcançar o conhecimento transcendental é infrutífero, pois cada tese a razão pode contrapor uma antítese, igualmente validade…”

“É impossível provar a existência de Deus por qualquer dos métodos conhecidos…”

No entanto deduziu que a moralidade não era possível sem acreditar em deus ou na imortalidade.

Ficamo-nos por aqui. Muito ficou por dizer, mas está visto que já está lançada a confusão…

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Politzer: Os Princípios Elementares da Filosofia

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Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels, 1848

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ABC Marxismo-Leninismo

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Conceitos Fundamentais de O Capital, de Lapidus e Ostrovitianov

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Compilação de Textos de Sérgio Ribeiro sobre o “Materialismo Histórico”

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E ficam aqui seis sugestões para quem pretende iniciar-se… na compreensão e transformação do Mundo. Sim, seis, porque uma delas está subentendida pelo próprio post.

# por Bruno e Luiz (Colectivo Leitura Capital)

(publicado anteriormente no Cheira-me a Revolução!)

2 pensamentos sobre “Uma Breve História das Ideias

  1. ” Até que grau pode chegar a malícia dos filósofos? Repassando a história do pensamento filosófico, talvez não se encontre nada mais venenoso que a glosa que Epicuro se permitiu contra Platão e seus seguidores: chamava-os dionysiokolakes. Esta palavra significa etimologicamente, e à primeira vista “aduladores de Dionísio” isto é, literalmente expressando: “esbirros do tirano”, vis cortesãos, porém significa ainda, que não eram mais que simples comediantes, sem a menor sombra de seriedade (uma vez que Dionysokolox era uma designação popular do comediante). Nesta última interpretação, se fazia patente o veneno que Epicuro lançava contra Platão. Sentia-se humilhado pelo porte majestoso, pelas hábeis entradas que tão bem faziam Platão e seus discípulos e que ele não: sabia executar, apesar de ter sido autor de 300 volumes de grande valor encerrado no jardim de sua escola de Samos. Por que esta manifestação de maldade? Por despeito e inveja a Platão? O que se pode afirmar, sem dar lugar a dúvidas, é que foram necessários cem anos para que a Grécia descobrisse quem era, na verdade, Epicuro, aquele Deus dos jardins. Supondo-se que tenha chegado a se dar conta.” – Nietzsche

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