Leitura Capital

Aqui a Mais-Valia é a leitura

Arquivo de Outubro, 2008

Liberdade e Necessidade

Publicado por Bruno em 16 Outubro, 2008

Foi a curiosidade em saber sobre a relação entre a Liberdade e a Necessidade que me levou a querer ler o Anti-Dürhing. Porquê? O nono capítulo do livro tem como título exactamente «Moral e Direito: liberdade e necessidade»; nada mais chamativo para matar a curiosidade.

No entanto, finalmente chegado o momento de o ler, o capítulo em causa deixou-me um pouco desiludido. Não só ele foi quase completamente dedicado à exposição da filosofia de Dürhing, como a primeira metade debruçava-se sobre direito: um pincel!

Mas nem tudo foi aborrecido, pois Engels não podia deixar de expôr a relação entre liberdade e a necessidade. O parágrafo em que ele o faz, está transcrito abaixo. Dei-me à liberdade de subdividir o parágrafo para facilitar a sua leitura.

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handbook

Publicado por Luiz Esteves em 13 Outubro, 2008

Manual da Banca – “Tudo o que precisa de saber para se sentir tranquilo”

Trata-se dum manual da Caixa Geral de Depósitos dirigido aos finalistas ou recém-licenciados num curso superior. Indíviduos que, em geral, em breve terão maior interesse para o mercado de dinheiro – daí a estratégia de vendas que é montada pelos bancos, seja no patrocínio das instituições universitárias, dos estudantes que as frequentam e das suas associações.

Neste manual procura-se dar uma ideia dos produtos disponíveis, num estilo de esclarecimento respeituoso, de acordo com o nível do público. Incentivando à aquisição dos produtos mas com responsabilidade e discernimento. Mas num mundo em crise económica, qual a moral que as entidades bancárias podem ter perante um estudante recém-licenciado?

“E agora?” que mercado de trabalho? Um curso superior abre portas (de caixas fortes)? Aprecio a forma equilibrada como os diferentes produtos são apresentados e as questões com que são introduzidas, mesmo que pareça para clientes diferentes: um licenciado em ciências da comunicação poderá considerar seriamente o investimento em fundos? Oh, e um de ciências, mesmo ciências?

A linguagem organizada de acordo com a ideologia: consultem-se as definições de “salário”, “lucro”, “mais-valia”, “preço” no glossário.

Reparo também que não existe nenhum produto de assistência (incentivo?) a criação de empresas. É uma questão de estratégia de vendas? Ou um sintoma da financeirização da economia, na medida em que aquele banco privilegia o investimento em mercados financeiros? E isso funciona?

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“Agudizar conflitos: tal e qual” – Joaquim Pessoa

Publicado por Luiz Esteves em 10 Outubro, 2008

Agudizar conflitos: tal e qual.
Deste modo julgar contradições
fazendo-o de maneira não formal
e sempre tendo em conta as rejeições

do texto que se opõe ao próprio texto
naquilo em que se mostra mais preciso
e assim mais vulnerável. O pretexto
é o sujeito estar tão indeciso

que todas as palavras se revelem
um mapa de água tão polarizada
que até sinais contrários se repelem.

Em física do texto enviesada
um sábio vale o que as palavras valem
e sabe que as palavras valem nada.

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A Igualdade

Publicado por Bruno em 8 Outubro, 2008

Há muito que iniciei a leitura do livro escolhido, mas fui-me desleixando em relação a publicar aqui minhas ruminações acerca do lido. Deixei a responsabilidade do pontapé de saída para o Luiz que iniciou a leitura agora, coincidindo com surgimento da minha vontade em partilhar algumas das palavras de Engels.

Após ter lido já nove dos capítulos dedicados à Filosofia – e aproveito para os indicar:
I – Subdivisão, Apriorismo
II – Esquematização do Universo
III – Filosofia da natureza: O Tempo e o Espaço
IV – Filosofia da natureza: Cosmologia , Física, Química
V – Filosofia da natureza: O Mundo Orgânico
VI – Filosofia da natureza: O Mundo Orgânico (Conclusão)
VII – Moral e Direito: Verdades Eternas
VIII – Moral e Direito: A Igualdade
IX – Moral e Direito: Liberdade e Necessidade -,

confesso que nesta fase já não dedico muito do meu esforço a tentar compreender a profundidade radical da filosofia do Sr. Dürhing (é como ele próprio a intitulou!). Deixo tal esforço para a exposição de Engels sobre a sua doutrina e a respectiva refutação das ideias de Dürhing.

Alguma palavras sobre Dürhing…

No inicio deste capitulo Engels resume o método de Dühring desta forma:

Consiste ele em analisar um determinado grupo de objectos do conhecimento, em seus pretendidos elementos simples, aplicando a estes elementos uns tantos axiomas não menos simples, considerados evidentes pelo autor, para, em seguida, operar com os resultados assim obtidos. Do mesmo modo, os problemas encontrados no campo da vida social, “devem ser resolvidos, axiomaticamente, pela comparação com os diversos esquemas simples e fundamentais, exactamente como se se tratasse de simples… esquemas fundamentais das matemáticas”.

Mais sobre o seu método possuidor de uma profundidade radical, será provavelmente exposto em posts dedicados ao capitulo I. Onde Engels explica porque a matemática não é só por si, um método infalível na compreensão do Universo.

Engels ainda desenvolve escrevendo:

Na realidade, não é mais do que um novo rodeio do velho e favorito método ideológico, também chamado apriorístico, que consiste em estabelecer e provar as propriedades de um objecto, não partindo do próprio objecto, mas derivando-as do conceito que dele formamos. A primeira coisa a fazer, é converter o objecto num conceito desse objecto; em segundo lugar, não é preciso mais que inverter a ordem das coisas e medir o objecto pela sua imagem, o conceito.

E este método de tomar Conhecimento com a ajuda de axiomas matemáticos, que para o Sr. é um meio infalível de achar a verdade sobre a realidade que nos rodeia, ele obteria as verdades imutáveis e absolutas também relativamente à história, moral e ao direito.

E é assim que Dürhing, pretende concluir acerca da história, moral e o direito, partindo do conceito de sociedade, e não da realidade em que os homens vivem. Então, usa o seu método para tirar suas conclusões, decompondo a sociedade aos seus dois elementos mais simples: dois homens iguais. Assim, não só condenou a espécie humana à extinção ao se esquecer o género feminino, como ainda fez o primor de encontrar dois homens iguais para a sua análise axiomática!

Agora com Engels, e indo ao que realmente interessa

Agora, paro com o sarcasmo e a exposição dos inconsequentes métodos Dührinianos. Pois o que me impulsionou a escrever foi a brilhante exposição, que Engels fez sobre o desenvolvimento da Igualdade e da Liberdade ao longo de todo o processo histórico. É também uma exposição que apresenta aquilo que comummente chamamos de Materialismo Histórico, com todo o seu raciocínio dinâmico da sociedade.

Não resisto em fazer a citação integral de tal exposição realizada no capitulo oitavo:

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kick-off

Publicado por Luiz Esteves em 4 Outubro, 2008

Cabe-me a mim abrir, pelos vistos. Não pretendo definir os moldes da discussão nem descambar em propaganda. Talvez não me fique pelas certezas.

No seu prefácio de 1878, Engels justifica este livro com a disputa com Duhring, dada a crescente influência deste nas fileiras socialistas alemãs – contextualizando com a então recente unificação do Partido Social-Democrata (ver post posterior sobre o livro “Crítica do Programa de Gotha”?) e os perigos de dissenção interna. Contudo, no prefácio de 1894, altura em que o estrépito de “latão” de Duhring se abafara, reconhece-se que “a crítica negativa tornou-se positiva”, ou seja, ultrapassada a polémica, ficara a necessidade de divulgar as ideias do marxismo. Isto na sequência da publicação do “Capital” e das movimentações proletárias na Europa e mundo fora… (quantos futuros posts?)

Um aspecto interessante a considerar na crítica a Duhring: Engels reconhece ter seguido o seu adversário por áreas do conhecimento onde se considera um mero diletante. Atendendo 1) à profundidade da diletância de um homem que conheceu a vida revolucionária e o crivo da academia alemã, 2) efervescência científica no último quartel do séc. XIX, prenúncio de grandes mudanças, num cenário de ainda (?) fraca divisão dos saberes, que correcções poderemos nós (eu?) trazer? E serão essas correcções uma crítica efectiva ao marxismo? Na minha opinião, não – mas vamos percorrer o caminho.

Aliás, é Engels que reconhece a insuficiência científica da sua exposição quando refere no prefácio de 1894 novos dados e descobertas das ciências naturais (vide “A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada” e “Dialéctica da Natureza” para uma actualização científica?). Assim, quando clama que o método dialéctico, vertido de Hegel, preside ao “conjunto da natureza” de que não conhece o “pormenor”, estaremos na presença dum embuste?

Não bato de novo na tecla da divisão do saber (fica para outra), mas penso que é a vitória sobre o obscurantismo promovido pelo furioso progresso das ciências e da técnica que confirma a tese de Engels. A saber: o incessante acumular de conhecimento, pondo em causa as concepções anteriores, revolucionando-se, é uma expressão prática da dialéctica pelo questionar (empírico) das “oposições e delimitações” da ciência anterior. Engels aponta imediatamente como factos experimentais a mudança de estado das substâncias (que se passara a entender como um contínuo de fases); a teoria cinética dos gases (com a relação entre a energia do gás e o movimento das moléculas); o conceito de transformação da energia (como essencial na compreensão da lei da sua conservação); a teoria da evolução biológica (ultrapassando a anterior rigidez das classificações). Entender que a natureza é composta de contrários e diferenças em permanente mutação e que têm apenas um valor relativo, leva-nos a reconhecer que a abordagem correcta da realidade, a que traduz o seu carácter, é a concepção dialéctica – e consciente das leis pensamento dialéctico.

É daqui que parto. E o meu dia a dia até parece corroborar esta perspectiva.

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