Centenário de Álvaro Cunhal

Pela segunda vez neste blog o dia em que nasceu Álvaro Cunhal serve como desculpa para publicar um post. Há dois anos atrás este texto revela um bocado do que penso sobre ele. A citação é interessantíssima, na minha opinião. Hoje, a propósito dos festejos do centenário, trago aqui um vídeo que há tempos editei. Álvaro Cunhal fala do sonho humano sobre a humanidade, e como se desenvolveu ao longo da História.

do desigual acesso das classes à liberdade

Especula-se abertamente o nome da figura que executará a salvação nacional. Júdice volta aos seus tempos de antigamente e diz o que todo o bom burguês almeja. Na rua apoiam-se soluções de força, ignorando em falsa consciência que esta se exercerá sobre os reclamantes. O PS mantém as suas abstenções violentas, com o presidente a desmentir as suas posições.

A última greve geral teve momentos caricatos: à porta da Vimeca, em Queluz de Baixo, a polícia atuou sob as ordens dos capatazes, confrontando fisicamente o piquete por cada autocarro que saía. Ao longo da estrada principal montara barreiras para impedir a circulação de pessoas por outro local que não os passeios, impedindo assim cortes de estrada. Os mais jovens do piquete, afoitos, eram arrastados do chão pela força de segurança pública, cujo número não parava de aumentar e cujos desígnios eram sobejamente privados. Os poucos funcionários da empresa e os delegados sindicais que integravam aquele piquete popular queixavam-se das pressões enormes sobre os trabalhadores todos os dias e contavam o seguinte: a empresa empenhava-se naquela madrugada em colocar os autocarros na rua, mas a meio da manhã era expetável que em boa parte os mandasse recolher, pois arrastar-se-iam vazios por filas de automóveis.

Talvez a liberdade nas instituições de domínio de classe esteja a ser agora posta em causa. Mas dada a repressão que se abate sobre os trabalhadores, há muito que estes sentem que, no regime atual, ela não passa de uma ilusão. Com as consequências que daqui possam advir.

A salvação do capital e a suspensão da democracia burguesa

A crise política é uma narrativa muito apropriada para a consecução do programa neoliberal, ao ritmo atual, nem que seja por mais alguns meses. Talvez até ao fim do atual resgate financeiro.

Entenda-se que não partilho das ideias de conspiração ao mais alto nível do poder, com o objetivo de manter a austeridade. Penso antes que existe um alinhamento estratégico entre os partidos do memorando, como a votação das propostas do BE acerca da dívida anteontem demonstrou. Um alinhamento que também é simbólico no respeita à inepta condução dos papéis das figuras do Estado: antes Coelho e Portas, depois Cavaco, agora Esteves. Os seus atos descredibilizam as instituições eleitas, num clima de fin de régime mal decalcado da 1ª república.

Acontece que, presentemente, todo o tempo de destruição do Estado Providência é mais eficiente, em relação aos seus objetivos, do que a atitude de resistência que tivemos e teremos de adotar. Assim, há que perceber que a manutenção desta política, seja sob que forma for ou com que credibilidade governativa houver, tem implicações concretas no futuro do país. Ainda hoje saiu em Diário da República mais umas contribuições regulatórias tendo em vista a privatização do tratamento de resíduos. Esta política não está moribunda e não há, portanto, razões para comemorar o espetáculo de apodrecimento do governo.

Por fim, a “salvação nacional” não serviria para clarificar as posições dos partidos – de resto, a própria convocatória de Cavaco é dirigida só à troika interna, o arco de governação. O que se verifica é que o problema passou do Cavaco para o PS: este pretende continuar a jogar à alternância governativa quando o avanço do programa neoliberal exige a unidade dos dirigentes face ao descontentamento que grassa na população austerizada. Neste sentido, o PS não pode continuar à espera que o pote lhe caia no colo e a democracia liberal tem, assim, que ser “suspensa”. A bem da nação.

Cavaco – que, mais uma vez, se exime das suas responsabilidades – expôs a verdadeira face do regime-ilusão democrática.

O absurdo de haver mais casas vazias do que sem-abrigo

Nos Estados Unidos da América proliferam desde o início da chamada crise imobiliária as cidades tenda. Cálculos conservadores estimam que cerca de 2,2 milhões de devedores perderam suas casas por causa da crise hipotecária iniciada em 2007 [ver: 1 e 2]. Neste país ocorre uma situação absurda, em que há casas desocupadas suficientes para acomodar todos os sem-abrigos mais os que perderam as casas.

Agora, em Portugal, tem surgido notícias sobre os resultados definitivos dos últimos Censos e tivemos, este fim-de-semana, a oportunidade de ver uma reportagem sobre os dados estatísticos relativos à habitação [1].

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Em 2011 – segundo os Censos [link] -, os alojamentos clássicos distribuíam-se do seguinte modo: 3 991 112 residências habituais, 1 133 300 residências secundárias ou de uso sazonal e 735 128 vagos, representando respetivamente 68,2%, 19,3% e 12,5% do parque habitacional.

Como se vê nas imagens da reportagem, existem considerados como barracas e improvisados 16.460 alojamentos. Não consegui achar informação que me esclarecesse o que seria exactamente alojamentos improvisados, mas recordo-me perfeitamente que no preenchimento dos papeis do Censos de 2011, alguém que vivesse numa gruta não era considerado como sem-abrigo. Talvez essa estrita definição de sem-abrigo esteja relacionado com o conceito de alojamento improvisado.

Em 2011 a dimensão média das famílias era de 2,6 pessoas, pelo que não estará muito errado concluir que cerca de 42.796 pessoas vivam em condições de habitação definidas como barracas ou alojamentos improvisados, além dos restantes 696 que ainda vivem acima das suas possibilidades.

Note-se novamente o absurdo:
Em Portugal existem 735.128 casas vazias ao mesmo tempo que cerca de 16.460 pessoas vivem em alojamentos precários e 696 são reconhecidos sem-abrigo.

Este absurdo leva-nos a questionar sobre os nossos valores. E surpreende-me que haja tanta gente que perante ocupações de prédios devolutos, defenda e sobreponha o direito à propriedade privada acima do direito humano e constitucional à habitação digna.

A esta situação absurda de haver sem-abrigos em simultâneo com milhares de casas vazias, Engels, em Para a Questão da Habitação, não faz qualquer referência explícita, nem faria sentido fazê-lo naquela época em que o problema fundamental era a falta de casas em relação à população das cidades. No entanto, ele como marxista vai à raiz do problema, tal como se pode ler nas citações transcritas no primeiro post, onde diz ele que “não pode existir sem falta de habitação uma sociedade em que a grande massa trabalhadora depende exclusivamente de um salário”, pois o salário tem a natureza que tem – que não cabe neste post referir – e portanto a «solução [para a questão da habitação, como de qualquer outro problema dos operários] reside, sim, na abolição do modo de produção capitalista, na apropriação pela classe operária de todos os meios de vida e de trabalho».

Podem alguns afirmar que isto não é um problema de classe, mas a esses então pergunto se já viram algum burguês sem-abrigo? Por acaso, agora, lembrei que já vi um, tinha acabado de encornar a mulher, mas voltou a ter tecto no dia seguinte; nisto, e somente nisto, foi tal e qual como o próprio repetia: “foi coisa de uma só noite”.

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[1] Jornal da Noite, TVI, entre os 7 e os 9 minutos, aqui.

Condições de Habitação, Artigo do Manchester Weekly Times, de 1872

Há dias passou na sic notícias um documentário acerca das condições de vida em vários países do “terceiro mundo”. Uma imagem impressionou-me particularmente. Uma família, vizinha de várias dezenas de outras na mesma situação, viviam em barracas por debaixo de uma ponte; imediatamente abaixo delas passava o rio. Frequentemente doentes por causa da humidade e frio filmaram-nos atravessando caminhos labirínticos naquele mini-bairro por debaixo da rodovia. Salvo erro, isto passa-se algures na Tailândia. Escuso de tentar descrever melhor o indescritível, mas um dos motivos da localização deste peculiar complexo habitacional é que imediatamente ao lado encontrava-se a lixeira, pelo qual, aquela família e maioria dos vizinhos obtinha parte do seu rendimento mensal diário.

Ora, isso não é um exclusivo de países do chamado terceiro mundo. Em Lisboa não é preciso muita atenção para encontrar sem-abrigos e habitações condições insalubres. Nos Estados Unidos proliferam as cidades tenda.

Isto não acontece por acaso,  consequência do que já foi referido neste blog há dois posts atrás, aqui.

Ora, esta introdução serve-me para partilhar descrição mais detalhada e impressionante sobre as condições de habitação em Para a Questão da Habitação, no século XIX, em Manchester. Ele encontra-se aqui no ponto III do capítulo Como Resolve a Burguesia a Questão da Habitação. Nada como ler esse sub-capítulo III na integra, mas a descrição que assina-lo neste post é o artigo do o Manchester Weekly Times, órgão da burguesia radical de Manchester, de 20 de Julho de 1872, que está em itálico.

Boa leitura.

Para a Questão da Habitação – Transcrição de um fantástico trecho

Há em todos os livros alguns trechos que merecem especial destaque, e sem mais justificações editoriais, aqui vos deixo este fantástico parágrafo em Para a Questão da Habitação de Engels:

Para Proudhon, em contrapartida, toda a revolução industrial dos últimos cem anos, o vapor, a grande produção fabril, que substitui o trabalho manual pelas máquinas e multiplica por mil a força de produção do trabalho, representam um acontecimento extremamente contrariador, algo que, propriamente, não deveria ter acontecido. O pequeno burguês Proudhon exige um mundo em que cada um fabrique um produto à parte, autónomo, imediatamente consumível ou trocável no mercado; se então cada um recuperar em outro produto o valor completo do seu trabalho, isso será suficiente para satisfazer a «justiça eterna» e fabricar o melhor dos mundos. Mas este melhor dos mundos de Proudhon foi logo calcado no embrião pelo pé do desenvolvimento progressivo da indústria, que há muito destruiu o trabalho individual em todos os grandes ramos da indústria e o destrói cada vez mais nos ramos menores, mesmo reduzidos, substituindo-o pelo trabalho social, apoiado em máquinas e nas forças dominadas da natureza e cujo produto acabado, imediatamente trocável ou consumível, é a obra comum de muitos indivíduos por cujas mãos ele teve de passar. E foi precisamente por meio desta revolução industrial que a força de produção do trabalho humano atingiu um nível tal que, com uma divisão racional do trabalho entre todos, existe a possibilidade — pela primeira vez desde que existem homens — não só de produzir o suficiente para um consumo bastante por todos os membros da sociedade e para um fundo de reserva abundante mas também para permitir a cada indivíduo ócios suficientes para que aquilo que, na cultura transmitida historicamente — ciência, arte, formas de convivência social, etc. —, merece verdadeiramente ser mantido, não só seja mantido mas também transformado e aperfeiçoado, deixando de ser monopólio da classe dominante e passando a ser bem comum de toda a sociedade. E aqui reside o ponto decisivo. Logo após a força de produção do trabalho humano se ter desenvolvido a este nível, desaparece todo o pretexto para a existência de uma classe dominante. É que a razão última com que se defendeu a diferença de classes foi sempre a de que tem de haver uma classe que não precise de cansar-se com a produção da sua subsistência diária, a fim de ter tempo de se ocupar do trabalho espiritual da sociedade. A raiz destes disparates, que tiveram até agora a sua grande justificação histórica, foi cortada de uma vez por todas pela revolução industrial dos últimos cem anos. A existência de uma classe dominante torna-se diariamente um obstáculo maior para o desenvolvimento da força produtiva industrial, bem como para o da ciência, da arte e, nomeadamente, das formas cultas de convivência! Nunca houve maiores labregos do que os nossos burgueses modernos.

A obra encontra-se em PDF e na integra, aqui.

Mas Proudhon era reaccionário?!

No artigo anterior chamei de reaccionário a Proudhon. Talvez por isso o meu vizinho de cima caiu da cama. Devido à queda do dorminhoco vejo-me na necessidade de esclarecer porque Proudhon foi reaccionário. Para o fazer, procurei saber mais, e fui ver o que dizia o Dicionário Político do MIA sobre o personagem histórico:

Ao criticar a grande propriedade capitalista de acordo com sua posição pequeno-burguesa, Proudhon aspira perpetuar a pequena propriedade privada, propunha organizar o Banco do Povo e o Banco do Câmbio, com ajuda dos quais obteriam os operários – segundo ele – seus próprios meios de produção, se converteriam em artesãos e assegurariam a venda “eqüitativa” de seus produtos. (MIA)

Sublinho: «se converteriam em artesãos».

O textos de Engels em Para a Questão da Habitação debruçam-se sobre todos os pontos acima transcritos, mas quero realçar o seguinte parágrafo:

Toda a concepção de que o operário deve comprar a sua habitação assenta por sua vez na reaccionária visão fundamental de Proudhon já assinalada de que as situações criadas pela grande indústria moderna são excrescências doentias e que a sociedade tem de ser levada pela força — isto é, contra a corrente que segue há cem anos — a uma situação em que o antigo e estável trabalho manual do produtor individual seja a regra, e que não é, em geral, mais do que uma reprodução idealizada da pequena empresa, já arruinada e que continua a arruinar-se. Só quando os operários estiverem de novo lançados nessa estável situação, só quando o «turbilhão social» tiver sido eliminado para bem, é que o operário poderá naturalmente fazer também de novo uso da propriedade da «casa e lar» (…). Só que Proudhon esquece que, para realizar isto, tem primeiro de fazer o relógio da história mundial andar para trás cem anos e que, desse modo, tornaria os operários de hoje de novo em almas de escravos tão limitadas, rastejantes e hipócritas como o foram os seus tetravôs. (Engels)

O leitor perante esta última frase pode ficar admirado por ver Engels a dizer que «tornaria os operários de hoje de novo em almas de escravos tão limitadas, rastejantes e hipócritas como o foram os seus tetravôs». Ora, contextualizo isso com um importante trecho escrito páginas antes:

Para criar a moderna classe revolucionária do proletariado era absolutamente necessário cortar o cordão umbilical que ainda ligava o operário do passado à terra. O tecelão manual, que, além do seu tear, tinha a sua casinha, hortazinha e campozinho, era, apesar de toda a miséria e de toda a opressão política, um homem tranquilo e satisfeito, «muito devoto e honrado», tirava o chapéu aos ricos, aos padres e aos funcionários do Estado e era, interiormente, um escravo de uma ponta a outra. Foi precisamente a grande indústria moderna, que faz do operário preso à terra um proletário fora-da-lei*, completamente sem posses e liberto de todas as cadeias tradicionais, foi precisamente essa revolução económica que criou as condições sob as quais somente a exploração da classe trabalhadora na sua forma última, na produção capitalista, pode ser derrubada. (Engels)

* Vogelfrei, no original alemão. Há aqui um jogo de palavras, pois o termo alemão significa “fora-da-lei” e “livre como um pássaro” (Nota da edição portuguesa.)

No próximo post voltarei ao tema, pois tenho um trecho fantástico do livro que merece ser transcrito e destacado.

Para a Questão da Habitação – F. Engels

Há algum tempo que um livro não me prendia tanto o interesse. Talvez por me interessar por Urbanismo, aquela que deverá ser a área mais interligada com as ciências sociais na minha formação académica. Nesta obra de 1872/1873, Engels apenas refuta as ideias proudhianas para a questão da habitação e não faz, ao contrário de alguns possam imaginar, qualquer divagação acerca de um projecto futuro de uma cidade e um modelo de organização social relativo à posse e uso das habitações.

Especular sobre como uma sociedade futura regulará a repartição da alimentação e das habitações conduz directamente à utopia. (Engels)

Surpreendeu-me pela negativa as posições de Proudhon. Conhecendo mal as suas ideias, guardava do que li, uma visão diferente da que tenho agora dele; via-o como um ideólogo progressista, apesar de inconsequente, mas não como um reaccionário. A ideia proudhiana apresentada era que a solução da questão da habitação consistiria em cada um se tornar proprietário, em vez de inquilino, da sua habitação, mas com uma solução que não era mais que o regredir da história para antes da revolução industrial! (ver post seguinte)

As descrições sobre as condições de habitação dos operários são poucas, mas impressionantes, e o paralelismo com os tempos de hoje são inevitáveis. Ao lê-las, veio à memória a situação dos emigrantes ilegais mexicanos nos campos do sul dos EUA, onde vivem em casas alugadas, sem posses além de pouca roupa e uma TV partilhada na atolada casa sem mobília; casa onde semanas depois abandonam para noutra paragem prosseguir na apanha de um outro fruto. Parece que nada mudou desde o século XIX. E as descrições sobre o desenvolvimento das cidades assemelham-se muito à situação em Lisboa antes do 25 de Abril, onde as camadas trabalhadoras da população eram empurradas do centro para a periferia da cidade em bairros de lata, incapazes também de acomodar os milhares de pessoas em êxodo vindos dos campos. Bairros de lata, com outros nomes, é o que não faltam na maioria das grandes cidades deste planeta.

Mas que leva à falta de habitação ou a habitações insalubres?

não pode existir sem falta de habitação uma sociedade em que a grande massa trabalhadora depende exclusivamente de um salário, ou seja, da soma de meios de vida necessária à sua existência e reprodução; na qual novos melhoramentos da maquinaria, etc, deixam continuamente sem trabalho massas de operários; na qual violentas oscilações industriais, que regularmente retornam, condicionam, por um lado, a existência de um numeroso exército de reserva de operários desocupados e, por outro lado, empurram temporariamente para a rua, sem trabalho, a grande massa dos operários; na qual os operários são maciçamente concentrados nas grandes cidades a um ritmo mais rápido que o do aparecimento de casas para si nas condições existentes, na qual, portanto, se têm sempre de encontrar inquilinos mesmo para os mais infames chiqueiros; na qual, finalmente, o proprietário da casa, na sua qualidade de capitalista, tem não só o direito mas também, em virtude da concorrência, de certo modo o dever de extrair da sua propriedade os preços de aluguer máximos, sem atender a nada. Numa sociedade assim, a falta de habitação não é nenhum acaso, é uma instituição necessária e, juntamente com as suas repercussões sobre a saúde, etc, só poderá ser eliminada quando toda a ordem social de que resulta for revolucionada pela base. (Engels)

As soluções de Proudhon e de outros ideólogos burgueses para o problema da habitação ignoravam a necessidade de revolucionar tal base – que é económica. Mas, o valente Proudhon, sempre que deixa escapar a conexão económica — e isto acontece nele com todas as questões sérias — refugia-se no campo do direito e apela para a justiça eterna. Outros, remetiam-se à moral e aos apelos.

Esta obra de Engels tem muitos outros trechos interessantes acerca de variados assuntos, como exemplo, o desenvolvimentos das leis na história, a natureza de classe do Estado e a sua relação com a habitação e a alimentação, a ausência de execução de ideias proudhianas em favorecimento das ideias do socialismo científico durante a Comuna de Paris, descrições de modelos experimentados na época para a resolução do problema da habitação, descrições jornalísticas sobre as condições de vida nas cidades, e claro, a da supressão da oposição entre a cidade e o campo.

Finalizando: a solução da questão da habitação:

enquanto o modo de produção capitalista existir, será disparate pretender resolver isoladamente a questão da habitação ou qualquer outra questão social que diga respeito à sorte dos operários. A solução reside, sim, na abolição do modo de produção capitalista, na apropriação pela classe operária de todos os meios de vida e de trabalho. (Engels)

A democracia, um engodo para os tolos? (Jean Salem)

Sexta passada acorri ao congresso Marx em Maio para assistir à intervenção do professor Jean Salem, cujo livro Lénine e a Revolução já abordámos por aqui anteriormente. Como não estivemos todos presentes, decidi colocar neste blog as notas que tirei dessa intervenção.

democracia em obras

Para além do livro já referido e de entrevistas ao autor que já havia lido, o título da sua comunicação destacava-se da maioria por convocar uma reflexão em termos correntes (“piège à cons” até remete para populismo, não?). E as minhas expetativas foram totalmente correspondidas: não só Jean Salem não se alongou em citações de outros autores, como o seu discurso era muito bem estruturado e ilustrado por diversos exemplos. O que poderia parecer um apanhado de curiosidades, sem nexo, era integrado numa análise do fenómeno eleitoral na sociedade burguesa visivelmente ancorado na perspetiva marxista – e isto sem recorrer a Marx a cada duas orações. Read More

“Os objectivos (…) não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os”

«No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.»

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.

Para ler mais sobre este livro no blog, aqui.

O Gordo (2/2) – A Natureza de Classe

No post anterior referiu-se a enorme tragédia provocada pelas inundações em Esteiros. Vamos prosseguir onde deixamos a transcrição, aquando a desvalorização da tragédia por parte do Gordo:

- Ora, meu amigo. Isto é um lago, comparado com as inundações que eu já vi na América. Ai, sim. Povoações arrasadas, campos totalmente devastados, centenas de mortos…
O amigo interrompeu a digressão. – Em todo o caso há prejuízos de milhares de contos…
– Sim, convenho que é um rombo, em lavoura pobre como a nossa.
– O Meneses de Sá, coitado, perde mais de setecentos contos. Diz-se até que vai perder o palacete no Estoril.
O sujeito gordo calou-se por instantes. (…) Pensava salvar o seu amigo proprietário, comprando-lhe o palacete.

Diz-se que na tragédia há um conjunto de oportunidades para aproveitar. Tal como se ouve frequentemente falar nas oportunidades que a crise proporciona. O Gordo, à semelhança dos especuladores financeiros, ronda atento a tragédia procurando uma presa que ao detectar fixa como um abutre. Ele preparava-se para fazer uma espécie de «ajuda externa» ao “tio” Meneses de Sá.

Mas,

- Coitado do Meneses! Seiscentos contos…
– O Estado deve ajuda-lo – explicou outro. – Fala-se de numa grande reunião de lavradores.

E por fim, talvez não seja precisa a «ajuda» do Gordo, e fica esclarecido a natureza de classe do Estado, pois este será instrumentalizado para ajudar os lavradores, latifundiários, enquanto o resto da população perderá tudo do pouco que tinha nas inundações. É semelhante ao que se faz hoje com os bancos, imagino que os latifúndios eram demasiado grandes para cair, e era preciso acalmar os latifundiários.

O Gordo (1/2) – Erro de Paralaxe.

Em Esteiros (1941) de Soeiro Pereira Gomes:

O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via que luto à sua frente. (…)
Agora era um senhor gordo, com máquina fotográfica a tiracolo, quem apreciava o panorama.
– Afinal, onde está a maravilha?
– É grandioso, há-de concordar.
– Ora, meu amigo. Isto é um lago, comparado com as inundações que eu já vi na América. Ai, sim. Povoações arrasadas, campos totalmente devastados, centenas de mortos…

Em Esteiros, onde os personagens vivem mal remediados e subnutridos, o surgimento de um personagem gordo é sinal de que se tratará dum burguês. Se no post anterior fez-se referência a uma nota que alguém fizera dizendo que «ser menino era um “luxo” de classe», neste caso, acrescentar-se-á que ser-se gordo era um “luxo” de classe.

Faz pensar no contra-senso que existe hoje quanto à nossa alimentação e a moda dos ginásios. Muitos se alimentam de maneira a ter excesso de peso, enquanto contrariam isso por via de exercício extra auto-infligido. É uma grande quantidade de recursos alimentares (e não só) gastos, queimados em ginásios; para além muitas outras considerações que se poderia acrescentar, mas ficam aqui por referir.

Outro pormenor, em relação ao transcrito, é a diferença de perspectiva entre o “homem do sítio” e o Gordo perante as inundações. Enquanto o primeiro via uma tragédia, o segundo via algo maravilhoso – mas não tanto como noutras cheias lá na sua América. Portanto, mesmo quando a tragédia era na sua terra, no seu sítio, o Gordo achava-a maravilhosa. Logo, a diferença de perspectivas entre o “homem do sítio” e o Gordo não está apenas na distância da origem destes em relação à tragédia, mas é sobretudo uma perspectiva de classe.

Ora, um dos extremos da tragédia é a guerra. Recordo-me de ver há vários anos na RTP, sobre uma das guerras contra o Iraque, um programa em que Nuno Rogeiro levou brinquedos de plástico para elucidar o telespectador como era a guerra. Ele tinha réplicas em miniatura de aviões, misseis e outras coisas mais em cima da mesa e ia municiando de saber o telespectador sobre as maravilhas tecnológicas naquela guerra. Mais do que fazer o culto à tecnologia, naquele programa pretendia-se convencer a quem o via de que a guerra seria “limpa”, sem sangue civil. A guerra pela TV era espectacular e todos se lembram dos directos com câmaras de visão nocturna a captarem… não a tragédia, mas as luzes! Pelo menos, é aquilo de que melhor me recordo. Na época, era ainda menino, usufruía do facto de isso ter deixado de ser um “luxo” e passado a ser um direito humano satisfeito, e como menino que era, facilmente me deixei manipular pelos média em prol daquela guerra (de sonho).

Observando a guerra de longe escapa-nos a dura realidade das suas vítimas, tal como ao Gordo feito turista perante as inundações nos Esteiros. A tragédia é diminuída a meras luzes ou a um mero lago, isto é, ela fica reduzida à sua aparência, a estética. Mas há aqui diferenças nesta (falsa) analogia, pois enquanto o telespectador da RTP é iludido quanto à realidade, o Gordo ilude-se ele próprio por falta de sensibilidade e inteligência, ou então é o que é, e é mesmo um filho da puta.

Esta visão da tragédia reduzida à aparência, a estética, foi-me de certa forma introduzida por uma obra de Walter Benjamin. Há época li-a sem as capacidades para absorver o seu conteúdo, mas uma passagem me ficou. Ele citou um excerto dum manifesto que dizia:

(…) nos manifestamos contra o facto de se designar a guerra como anti-estética, (…) por conseguinte declaramos: (…) a guerra é bela porque fundamenta o domínio homem sobre a maquinaria subjugada, graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e tanques. A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, dos cessar-fogos, os perfumes e os odores de putrefacção. A guerra é bela porque cria novas arquitecturas, como a dos grandes tanques, a da geometria de aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder e muitas outras… poetas e artistas do futurismo… lembrai-vos destes fundamentos de uma estética da guerra, para que a vossa luta possa iluminar uma nova poesia e uma nova escultura!”

A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin (1955).

O excerto é do Manifesto Futurista, escrito por Marinetti, e o conteúdo de ideologia fascista. Quando li isto lembrei imediatamente da Guerra do Golfo e da cena surrealista de Nuno Rogeiro a brincar em directo na TV, maravilhado pela tecnologia de ponta em parelha com a guerra. E agora, lendo Esteiros, ligo tudo isto também ao Gordo que fotografa a beleza das inundações sôfrego por não serem maiores e mais bonitas.

Walter Benjamin após citar o Manifesto Futurista conclui:

“Fiat ars – pereat mundus”, diz o fascismo (…). Isto é, evidentemente, a consumação da “l’art pour l’art”. A humanidade que, outrora, com Homero, era um objecto de contemplação para os deuses no Olimpo, é agora objecto de autocontemplação. A sua auto-alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como a um prazer estético de primeiro plano. É isto o que se passa com a estética da política, praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com a politização da arte.

A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin (1955).

Penso poder acrescentar que o comunismo responde-lhe com a politização da arte e não só, mas de tudo, inclusivamente da tragédia. Por exemplo, no sismo no Haiti onde milhares morreram, os comunistas (e não só) lembraram imediatamente que o sismo teve as consequências que teve por causa da imensa pobreza naquele país. Não era uma consequência do azar ou dum sismo excepcionalmente intenso, mas (também) de causas sociais, logo políticas.

Cabe a nós procurar observar os acontecimentos cada vez mais a fundo e não nos ficarmos pela aparência, e para isso é necessário deixar de ver apenas com olhos de “gordos” (de burgueses). Assim libertarmo-nos da nossa mentalidade submissa.

«Ser menino é um “luxo” de classe»

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu em 1909 na aldeia de Gestaçô, concelho de Baião, no seio de uma família de pequenos agricultores do Douro. Em Novembro de 1941 publicou «Esteiros» pela editora Sírius com ilustrações de Álvaro Cunhal. Autor ligado ao neo-realismo português e militante do Partido Comunista Português. Morreu em 1949. [1]

A Dedicatória

O livro por onde leio foi comprado num alfarrabista. Um anterior dono sublinhou e escreveu no livro alguns apontamentos que me fazem imaginar de que se tratava duma professora que teve como tarefa leccionar esta obra. Ela assinou o livro e colocou a data de 1976… [2]

A causa deste post é precisamente um desses sublinhados com uma nota ao lado logo no início do livro. Soeiro Pereira Gomes escreveu:

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro.

Além de sublinhar, escreveu a leitora a seguinte nota:

Dedicatória.
Dedicatório colectivo.
Ser menino é um “luxo” de classe.

[3]

E assim era, ser menino era um “luxo” de classe. Voltará a sê-lo neste país?

__________________________________
[1] Fonte: «Avante!» Nº 1359 – 16.Dezembro.1999.
[2] Anita, Maio de 1976.
[3] Jerónimo de Sousa, no Alta Definição da SIC (emitido em 20-11-2011).

Portugal, hoje.

cliqueÁlvaro Cunhal faria hoje 98 anos. Sentimentos ambíguos tinha perante este homem. Lembro-me de não lhe ter grande afeição por aparentar ser frio e calculista, coerente com a imagem que tinha do que seria um soviético (!!), mas por outro lado, um homem corajoso, dedicado a uma causa nobre, herói antifascista que sempre lutara pela Liberdade e que me possibilitava estar então a estudar na escola o que foi o 25 de Abril – já agora, coerente com a imagem que tinha dum comunista. Hoje, a minha perspectiva de Álvaro Cunhal é diferente, a admiração é bem maior, porém confesso-me surpreendido por ele ser nesta fase do blog o autor mais referenciado, tal como se pode observar na barra lateral – o previsível era ser Marx ou Engels. É um sinal da sua importância no estudo do marxismo-leninismo, sobretudo para um português.

Em estilo de homenagem, transcrevo abaixo um excerto dum texto escrito por Álvaro Cunhal em 1994, publicado no blog Companheiro Vasco com as respectivas notas do Vasco. Faço-o pela pertinência que tem com a situação que vivemos no nosso país perante a U.E. (CEE à época).

Prefácio à 2ª edição (1994) de “A Revolução Portuguesa: o passado e o futuro”, de Álvaro Cunhal.

“(…)

Acompanhando as ofensivas antidemocráticas nestas quatro vertentes [económica, social, cultural e política], o governo de Cavaco Silva e do PSD sacrificam e submetem os interesses portugueses a interesses estrangeiros a troco de fundos da CEE que em grande parte são desviados dos seus declarados objectivos e metidos ao bolso de novos e velhos milionários, mas que apesar disso cobrem temporariamente carências graves e criam também temporariamente uma sensação de desafogo económico e financeiro.

Cavaco Silva, o governo, o PSD anunciaram que como resultado da acção do Governo, Portugal era o «oásis» da Europa, um país de «sucesso» em pleno desenvolvimento lançado como uma lebre no encalço da tartaruga da Europa.

A realidade é a progressiva destruição do aparelho produtivo (na agricultura, na indústria, nas pescas), a crise e a recessão económica geral. Sacrificam-se, comprometem-se e entregam-se ao capital estrangeiro empresas[1] e sectores básicos estratégicos e recursos e potencialidades materiais e humanas. Agrada-se a dívida do Estado. Agrava-se a balança comercial. Aumenta o distanciamento em relação aos países mais desenvolvidos em vez da «coesão económica» tantas vezes apresentada como objectivo em vias de ser atingido. São cada vez mais graves as limitações à independência e soberania nacionais pela aceitação servil, seguidista e capitulacionista do Tratado de Maastricht e da imposição a Portugal pelos países mais desenvolvidos de decisões supracionais contrárias a interesses vitais portugueses[2].

A continuar no poder Cavaco Silva e o governo de direita[3], Portugal corre o risco não só de ver substituída a democracia política por um regime autoritário de cariz ditatorial, mas também de um dia não muito distante, quando diminuir, como é inevitável e está previsto, o fluxo de fundos da CEE, ser mergulhado numa profunda crise de carências alimentares[4], energéticas[5], técnicas e tecnológicas para superar as quais uma solução será então extremamente difícil, na situação que está a ser criada.

A política do governo do PSD de destruição das conquistas e valores democráticos da Revolução de Abril é uma política que destrói recursos e potencialidades que vêm do passado, que provoca uma penosa crise no presente e que faz pesar sobre Portugal gravíssimas ameaças para o futuro.”

Notas minhas [do R.Vasco]:

[1] como por exemplo a Somincor, Sociedade Mineira de Neves Corvo, considerada durante os anos 90 uma das maiores e melhores empresas portuguesas, privatizada por valores ridículos, e hoje a render milhões a uma multinacional canadiana.
[2] o directório que Cavaco parece ter descoberto recentemente já vem de longa data…
[3] Cavaco foi derrotado um ano mais tarde, mas a continuação da política do seu governo foi assegurada por sucessivos governos PS,PS+CDS (entendimentos parlamentares), PSD+CDS e pelos acordos PS+PSD+CDS.
[4] supridas, no presente, por importações imensas, perante um cenário de incapacidade nacional de produzir o necessário para alimentar a população.
[5] a importação de energia é actualmente um dos elementos mais desequilibradores da balança comercial.

Não se pense que é futurologia, pois a justeza da análise e da previsão é fruto da riqueza que é o marxismo-leninismo e exemplo do extraordinário legado de Álvaro Cunhal.

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Teoria e Prática – uma relação dialéctica

Não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária¹. A teoria esclarece e orienta a actividade prática. Mas a teoria enriquece-se com os ensinamentos da prática, afere-se na prática e, quando separada da prática, torna-se estéril, vazia e inútil. Por isso, ao discutirem-se concepções acerca da situação política, dos objectivos da luta, do processo revolucionário, tem-se em vista a definição correcta das tarefas que se colocam às forças revolucionárias e a sua realização. Conforme com uma indicação célebre², o problema que se coloca aos comunistas não é apenas o de explicar e interpretar o mundo, mas o de transformá-lo.

Álvaro Cunhal, in «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista»³, 1970.

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[1] Referência a frase de Lénine escrita, salvo erro, em «Que fazer?»;
[2] A indicação célebre é referência à última das Teses sobre Feuerbach (1845) de Karl Marx;
[3] Citação retirada da 4º edição, página 17.