Leitura Capital

Aqui a Mais-Valia é a leitura

Mercedes Sosa (1935-2009)

Publicado por Bruno em 5 Outubro, 2009

Todo Cambia

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia…

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia…

Pero no cambia mi amor…

Outras ligações:

Artigo da Wikipedia
Lista de Vídeos no Youtube

w=480&h=360

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À Atalaia

Publicado por Luiz Esteves em 4 Setembro, 2009

a festa é sempre muito mais do que um momento de diversão – aliás, sinto que esta é bem maior durante a sua construção!

a festa é o local de encontro com os camaradas, aqueles com quem podemos contar e que podem contar connosco. mas é também o sítio onde podemos trazer os nossos amigos e mostrar-lhes um pouco mais do Partido do que o que é ventilado nos media.

À Atalaia

este ano, é claro, as conversas virão sempre ter à campanha que todos nós levamos a cabo, no dia-a-dia, nos nossos trabalhos e nas nossos locais de residência. partilharemos as dificuldades que sentimos e as experiências que resultaram; fortaleceremos a confiança e a consciência na mudança, na necessidade da ruptura.

estaremos, de atalaia!

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Publicado por Luiz Esteves em 30 Junho, 2009

Pedimos a todos os blogues que se unam à solidariedade com o povo hondurenho e que ajudem a romper o bloqueio informativo sobre o que se passa naquele país. Publiquemos este comunicado e divulguemo-lo entre os blogues amigos. Alerta que caminha a espada de Bolívar pela América Latina!

Este blogue condena o golpe de Estado nas Honduras e solidariza-se com o povo hondurenho e com o legitimo presidente Manuel Zelaya. Nesta madrugada, um grupo de militares golpistas invadiu a Casa Presidencial e sequestraram o presidente daquele país. A ministra hondurenha dos Negócios Estrangeiros e os embaixadores de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua foram sequestrados à margem da convenção internacional que protege e dá imunidade aos diplomatas. Os militares ocuparam as ruas e avenidas das Honduras. Ocuparam os meios de comunicação social e cortaram a distribuição de electricidade.

Esta foi a resposta da oligarquia à vontade do governo de convocar uma consulta popular para abrir uma Assembleia Constituinte que tomasse o povo hondurenho como protagonista da sua própria história. Manuel Zelaya pagou o preço de ter decidido seguir o caminho de uma verdadeira democracia. O golpe de Estado é tão ilegítimo que a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia já condenaram aquela acção. Manuel Zelaya foi eleito pelo povo hondurenho em 2005 e o seu mandato termina no próximo ano.

Todos recordamos o golpe de Estado contra Salvador Allende e o povo chileno. Os militares liderados por Pinochet e pela CIA afogaram o Chile em sangue. Todos recordamos o golpe de Estado executado pela oligarquia venezuelana com o apoio do imperialismo contra Hugo Chávez e o processo bolivariano. Foi derrotado pela acção do povo venezuelano. E esse exemplo ecoou por todos os países da América Latina que nestes últimos dez anos decidiram segui-lo.

Portanto:

1. Exigimos o respeito pelo mandato do presidente Manuel Zelaya
2. Respeito pela vida e liberdade do governo, de todos os seus apoiantes e dos diplomatas
3. Respeito pela decisão de abrir um processo de consulta popular para constituir um referendo para constituir uma Assembleia Constituinte
4. Um apelo a que os militares estejam do lado do povo, do governo por ele eleito e não do lado da oligarquia e do imperialismo
5. Um apelo à unidade latino-americana em torno de processos democráticas que tenham os povos no centro do poder
6. Que o governo português condene de forma clara o golpe de Estado
7. Que a comunicação social portuguesa apresente as informações sobre os acontecimentos nas Honduras de uma forma objectiva

Via Rádio Moscovo

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DÜHRING, Eugen (1833-1921); em «Os Princípios Elementares da Filosofia»

Publicado por Bruno em 28 Junho, 2009

Uma famosa obra de divulgação da filosofia, escrito a partir das aulas de Georges Politzer por um dos seus alunos na Universidade Operária de Paris, foi recentemente disponibilizada no site da Organização Regional de Lisboa do PCP: Os Princípios Elementares da Filosofia.

Visto que, aqui no blog ainda nos debruçamos  no livro Anti-Dühring, fui procurar o que diz em Os Princípios Elementares da Filosofia sobre o Sr. Dühring. No final, no índice dos nomes citados, diz:

DÜHRING, Eugen (1833-1921). – Filósofo e economista alemão, algum tempo encarregado do curso de filosofia e economia política na Universidade de Berlim. Cegando completamente pouco depois, viveu, até à morte, como escritor, primeiro, em Berlim, mais tarde, em Nowawes. O representante mais considerável de um socialismo burguês, que via nos «esforços naturais do espírito individual» o fundamento da ordem social, pregava a teoria da parte crescente dos operários no produto social, e esperava da conciliação dos antagonismos de classe a salvação do futuro; considerava-se um reformador da humanidade. Perante numerosos auditórios, fez conferências sobre os mais diversos assuntos, mas depressa foi privado da sua cátedra, em consequência dos seus vivos ataques públicos contra professores de Berlim. Entre 1870 e 1880, teve um grande número de partidários na social-democracia. Desenvolveu, em numerosas obras, um sistema particular sócio-filosófico, que se construirá com o auxilio de várias «verdades de última instância», absolutas, que julgava ter descoberto. Era um adversário do cristianismo e um anti-semita ardente. Prestou, indirectamente, e contra sua vontade, um grande serviço ao comunismo científico; os seus ataques apaixonados contra Marx e Lassalle e a sua «filosofia da realidade», sinal da mania das grandezas, provocaram, com efeito, a réplica do famoso panfleto clássico de Engels: «O sr. Eugen Dühring perturba a ciência» («Anti-Dúhring»), obra que depressa se tornou o guia filosófico da nova geração operária revolucionária. Nela, Engels desmontava, impiedosamente, todo o sistema de vilezas de Duhring, fazendo, pela primeira vez, com mão de mestre, uma exposição completa e clara do materialismo dialéctico. (Ver «Anti–Duhring», de F. Engels, Edições sociais.)

É possivel que no futuro voltemos a este livro. Por agora, assim que houver disponibilidade, seguiremos com o que falta de Anti-Dühring.

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Cap. III – divisão. apriorismo

Publicado por Luiz Esteves em 10 Maio, 2009

Nota prévia: Voltamos ao “Anti-Dühring”, naquilo que pretendemos que seja uma postagem mais frequente. Revisitaremos alguns capítulos sobre os quais já existem posts por pretendermos ganhar balanço e efectuar uma discussão mais colectiva.

O apriorismo de Dühring

É neste capítulo que Engels empreende a crítica às teses de Dühring, começando pela sua filosofia. Com base na profunda semelhança entre as ideias do influente filósofo alemão Hegel e as propostas por Dühring, Engels identifica este último como um pensador idealista, isto é, alguém que pretende “tirar da sua cabeça, sem utilizar a experiência que nos oferece o mundo exterior”, as formas desse mesmo “ser exterior”.

A abordagem de Dühring parte do estabelecimento de princípios “de todo o saber e todo o querer” através da filosofia. Este desenvolvimento da consciência permitiria depois aplicar um esquema de dedução lógica relativamente a todas as esferas particulares da vida: da organização do universo, aos fundamentos da natureza e, finalmente, aos da humanidade. Esta formulação pode ser denominada de apriorísitica pois estabelece princípios preexistentes ao mundo a partir dos quais  o mundo é concebido. Verifica-se que no limite, ao apresentar estes princípios, Dühring acaba por negar qualquer progresso para o conhecimento humano e para as suas ciências, adoptando uma postura omnisciente!

Bem, como a leitura das teses de Dühring é mediada por Engels, só o absurdo pode vir ao de cima. Interessa antes perceber como se constrói a crítica positiva de Engels, naquilo que é uma exploração dos fundamentos epistemológicos do marxismo.

As insuficiências do apriorismo

Como se forma, então, o conhecimento do mundo para o homem, ser pensante? Em contraponto com as posições idealistas, Engels traça uma perspectiva baseada e regida pela experiência humana:

Os princípios não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais; não se aplicam à natureza e à história humana, mas deles são extraídos; não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história.

Mas se isto parece tão simples, como explicar o caminho percorrido por Dühring, como compreender esta visão “de cabeça para baixo”? Engels aponta a concordância que os idealistas encontram entre a consciência e a natureza, levando-os a derivar esta da primeira. Mas este é um ponto fundamental: o que pensamos é produzido por um cérebro humano que por seu lado é produto da natureza e se desenvolve com no seu meio ambiente. Não devia, portanto, causar admiração a identificação entre o pensamento humano e a ordem da natureza.

Segundo Engels, a vanidade e a megalomania de Dühring justificam que este rejeite uma explicação tão simples e se atarefe a tornar o pensamento independente do homem e da base real que o sustenta.

Na fantasia de Dühring era possível a partir do mundo do pensamento determinar o sistema de funcionamento da Realidade. As tais preposições pré-existentes a partir dos quais  o mundo é concebido é quanto basta para deduzir o Todo.  Na presunção do Sr. Dühring seria então possível definir um sistema fechado e determinado das concatenações do universo, tanto físico, espiritual e histórico. Assim, teria chegado ao fim o ciclo – ou o processo – do conhecimento e da história. Tal não acontece, e Engels expõe-o nestas palavras:

Os homens vêm-se, pois, colocados ante esta contradição: de um lado, levados a investigar o sistema do mundo, englobando todas as suas condições e relações; de outro, por sua própria natureza e pela natureza mesma do sistema do mundo, não podem jamais resolver por completo esse problema.

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A Matemática, a Ciência… a crise… a Luta de Classes

Publicado por Bruno em 27 Abril, 2009

Podaríamos ficar surpreendidos como encontramos a luta ideológica nos lugares mais singelos. Desta feita, a Matemática, através dum artigo de Jorge Buescu, professor na Faculdade de Ciências, reconhecido divulgador científico.

(Para poder ler o artigo clique em parte 1 e parte 2.)

“Crise: a culpa é da Matemática?”

O título do artigo não engana ao que vem (“Crise: a culpa é da Matemática?”), o autor rejeita neste artigo uma visão moralista do descalabro económico actual, segundo a qual uns malvados agentes financeiros terão ultrapassado os limites de operação segura do sistema apenas com o objectivo de extensão do lucro. De forma acertada, o prof. Buescu aponta tal explicação simplista como uma cortina de fumo de objectivos políticos e sugere em seguida que “a Matemática pode ter desempenhado um papel crucial” na origem da crise financeira e, subsequentemente, no bloqueio da actividade económica produtiva.

Sumariamente, este artigo dá conta de alguns princípios da modelização matemática do risco financeiro envolvido em qualquer operação de troca de dinheiro por… dinheiro. O risco é, assim, alvo de quantificação e toma uma forma bastante intuitiva: o risco de um fundo ou de uma outra instituição financeira mede-se, por exemplo, pela quantidade mínima de dinheiro que na semana seguinte poderá ser perdido com uma probabilidade de 1%. Somas superiores de dinheiro perdido têm, nesta simulação, menor probabilidade de serem perdidas. As medidas tomadas pelos agentes financeiros são, então, no sentido de reduzir o risco associado, por exemplo separando os créditos em produtos financeiros diferentes.

O autor aponta então erros de concepção destes modelos: em geral não é tida em conta a dependência probabilística de acontecimentos (por exemplo, incumprimento de pagamentos), como se o sistema voltasse ao estado inicial a cada avaliação; os modelos são construídos com base em assunções de “normalidade” dos mercados, não sendo capazes de reflectir adequadamente situações “perturbadas” de funcionamento do sistema (como a actual crise). A estas dificuldades ainda se juntaria uma errada aplicação de controlo de risco, uma vez que dados errados acerca do mercado de hipotecas estavam a viciar o modelo matemático.

Sejamos sinceros, este artigo enche-nos de esperança: ao serem tratadas estas incorrecções dos modelos e voltando o sistema financeiro ao que era, poderemos estar mais descansados quanto à estabilidade da nossa economia. E não é verdade que estes empréstimos arriscados eram a forma de proporcionar um maior consumo às famílias e com isso aumentar o seu nível de vida? É esta passividade “cientifizante” face ao fundo político da crise que prentendemos questionar, uma vez que este artigo toma (necessarimente) tanto partido quanto os moralistas que acusam os gananciosos banqueiros.

Reenquadremos isto (um pouco)

Estão a lembrar-se deste livro?

A ciência no seu caminho de criar concepções racionais de interpretação e previsão dos fenómenos naturais, encontra logo de inicio um problema: o Universo é uno, todos os fenómenos estão interconectados entre si. Por motivos práticos, é naturalmente necessário isolar um fenómeno para o poder estudar. É fundamental saber isolar o fenómeno em estudo sem lhe retirar interdependências dominantes. Fácil de compreender isto com um exemplo: para se prever a temperatura em Lisboa amanha, é completamente supérfluo o movimento das placas tectónicas, mas já não o é a humidade no ar.

Não ficamos admirados em notar que esses modelos matemáticos, usados para maximização do lucro por via financeira, cometem logo o erro de isolar os processos para o lucro sem ter em conta que o capital é uma relação social. É a ciência, dada muitas vezes como imparcial na luta de classes, a demonstrar como cega perante os interesses da classe dominante. Perdendo assim a sua função de interpretar e prever os fenómenos para melhorar as condições de vida ao conjunto da humanidade.

É importante relembrar que o avanço das forças produtivas devido às conquistas da ciencia e da técnica só poderão ser um progresso social efectivo, se houver condições políticas para tal, e para isso é necessário alterar o objectivo social dominante.

# Colectivo Leitura Capital

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Salários vs Lucros: vira o disco…

Publicado por Bruno em 31 Março, 2009

Foi – e é – por necessidades sociais que os humanos começaram a trocar mercadorias (M). Outrora trocando-as directamente, surgiu a determinado momento histórico o dinheiro (D) como meio para facilitar a troca entre mercadorias. Surge também a possibilidade de sobressaltos na circulação, que ocorrem quando por algum motivo as pessoas deixam de colocar dinheiro em circulação, são as ditas crises. Entretanto, no capitalismo, o dinheiro deixou de ser um meio para trocas entre mercadorias de valor equivalente, passando elas a ser o meio para a obtenção de mais-dinheiro (D’), sendo agora este a ser o fim. Porque a partir de uma quantidade de dinheiro busca-se obter mais dinheiro – D’ -, tornaram-se as crises inerentes ao capitalismo. De que forma?

Mais-Valia, Taxa de Exploração; Taxa de Lucro; Composição Orgânica do Capital

O Lucro decorre da Mais-Valia (m). Sendo que esta provém da diferença entre o valor produzido por um trabalhador e o salário que lhe é pago. Por outras palavras, é o tempo de trabalho não remunerado. Logo, o lucro vem directamente ou indirectamente do trabalho humano, do trabalhador. Daí, ainda podemos calcular a taxa de exploração (m’), por exemplo, se o valor produzido por um trabalhador durante um ano é de 40000$ e a mais-valia de 20000$, então: [1]Taxa de Exploração

O que interessa ao capitalista é o lucro e a busca por maiores taxas de lucro. Ele precisa de saber se o valor que legalmente rouba aos seus trabalhadores – a mais-valia (m) – é superior ao capital que investe em capital constante (k) e capital variável (v). Sendo o capital constante a maquinaria, matérias-primas… e o capital variável a compra de força de trabalho aos trabalhadores. Logo, matematicamente a taxa de lucro representa-se assim: Taxa de Lucro

Juntando as duas equações, em que m=m’v, obtemos:Taxa de Lucro (incluindo a taxa de exploração)

Ficando claro que a taxa de lucro (l’) é proporcional à taxa de exploração (m’). E além desse pormenor completamente insignificante², vê-se a interdependência entre a taxa de lucro e a composição orgânica do capital, que é a relação entre capital constante (k) e capital variável (v).Composição Organica do Capital

O incessante e impetuoso desenvolvimento técnico, impulsionado pela concorrência entre capitalistas, obriga-os a investirem em maquinaria (capital constante) que lhes permite produzir o mesmo com menos tempo de “trabalho vivo” (capital variável). Portanto, na sua busca pela reprodução de capital, tendem a investir mais em capital constante (k) e menos em capital variável (v), aumentando tendencialmente a composição orgânica do capital (coc) e a taxa de lucro tende a diminuir. O desemprego resulta deste maior investimento em capital constante em prejuízo do capital variável, tornando-se assim também mais difícil aos capitalistas obter a mais-valia.

Os capitalistas para contrariar a tendência para a baixa taxa de lucro tendem a aumentar a taxa de exploração. Simultaneamente, incentivam ao consumo enquanto o poder de compra dos trabalhadores tende a baixar. Esta diminuição poder de compra – que em Portugal conhecemos bem – é um dos motivos para se comprar menos mercadorias. Assim, a tal circulação D-M-D’ abranda e… dão-se as crises.

O capitalismo para “sobreviver” às suas próprias contradições desenvolveu uma enorme financeirização da economia, trocando-se o dinheiro directamente por mais dinheiro e sem passar directamente pela produção. Tal não tem utilidade social e funciona meramente por considerações especulativas. O D-D’ é a espera de que as mercadorias, onde os “pacotes de investimento” se levantam, subam de valor. Mas a valorização dessas mercadorias estão limitadas pela dita economia real – como explicado acima – e o sistema financeiro tem sempre o momento em que cai na realidade…

É certo que o funcionamento da economia não tem esta simplicidade, mas limitamo-nos a referir a base onde toda a dinâmica capitalista – cada vez mais complexa – assenta.

O lado A e B dos singles da música dominante

Esta rápida excursão pela teoria económica marxista não pretende ser um mero exercício de doutrina. Estamos conscientes dos perigos da cristalização dos conceitos e princípios. E antecipamos o juízo taxativo, ou preconceituoso, nos termos do nosso post anterior: “lá estão eles com a k7″. Sendo assim, gostaríamos de passar em revista algumas tendências do discurso dominante, uma vez que reconhecemos nele algumas das características do… vinil.

LADO A

Em primeiro lugar, o defeito do disco riscado. Há que aumentar a competitividade da nossa economia para responder às exigências crescentes da economia num contexto globalizado, repetem-nos exaustivamente. E, lá pelo meio, dizem (e fazem!) o que verdadeiramente lhes interessa: há que aliviar a pressão do Trabalho na actividade económica. E para isto pode contribuir a subtracção do poder de negociação e reivindicação da classe trabalhadora – como foi o caso do Código Laboral do PS – ou, de forma mais palpável, a diminuição dos salários. Em ambas as formas revemos a luta empreendida pela classe dirigente para o aumento da taxa de exploração, como explicitada acima.

E contudo, a coberto da crise, vemos surgir apelos claros para que esta tendência objectiva do Capital seja interiorizada pelos trabalhadores, criando bases subjectivas para que os salários não subam, justificando-se com a defesa do emprego. Apelos que para o a classe assalariada subscreva – uma vez mais: lá está o disco riscado! – os ditames da ordem capitalista.

LADO B

Uma outra característica dos discos de vinil, e em particular dos singles (amontoam-se as analogias políticas sofríveis), é a do lado B dos discos, que correspondia às versões alternativas das músicas do lado A. E muitas vezes apenas para ocupar o espaço de gravação que restava…

Para ir direito ao assunto, nas suas expressões actuais, o lado B defende essencialmente um relifting do neo-liberalismo para um “capitalismo regulado e ético“, como consequência da profunda “crise de valores” a que o “anterior” modelo nos conduziu. Segundo esta versão alternativa da realidade houve uns quantos tipos imorais que ora montavam elaboradas fraudes financeiras, ora executavam empréstimos que deixaram uma série de desgraçados endividados; quando não dispersavam os seus capitais por investimentos que prometiam altos lucros, tantas vezes aproveitando-se excessivamente de offshores que visavam tão só incrementar o desenvolvimento de regiões empobrecidas.²

Nós cá não gostamos de singles

Acontece que a crise não é resultado da falta de ética dos seus intervenientes, mas ocorreu pela confrontação destes intervenientes com os limites de estabilidade do sistema em que actuam. Sistema este da troca D-D’ que, como explicitado acima, tem os seus limites (também) na produção económica.

Contudo, as respostas que os “lados B” encontram para superar as contradições em que a sociedade se encontra passam por defender a continuidade do sistema, puxando o lustro à ética dos especuladores e dos governantes que com eles sempre pactuaram. Como se a moral dominante não fosse um reflexo das condições materiais da sua época…

O discurso destes vinis é que já se encontra gasto! É necessário que as massas trabalhadoras e não monopolistas ganhem consciência dos limites do nosso sistema económico actual, para a tendência real de diminuição das suas condições de vida e de incremento das desigualdades – em particular na presente altura de crise. E é urgente que esta tomada de consciência se efective em acção social e política! Quer nas negociações dos salários e na defesa do emprego com direitos, quer em iniciativas de contestação ao aumento da taxa de exploração. E é isso que nós andamos a fazer.

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Escrito para o Cheira-me a Revolução!
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[1] não se trata do escudo. É uma mera representação para o exemplo.
[2] uso fantástico, por parte dos autores, de um recurso estilístico! ironia/sarcasmo.
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Algumas imagens – e consulta – são mais-valia retirada do blog anonimo sec xxi
consultado ainda Conceitos Fundamentais de O Capital, de Lapidus e Ostrovitiano, Reading Marx’s Capital with David Harvey e Capitalism Hits the Fan: A Marxian View
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# Colectivo Leitura Capital

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Apenas um anúncio e uma “lista-guia”

Publicado por Bruno em 16 Março, 2009

Entramos na 2ª parte do livro que é dedicada à Economia Política. Dado ao método e às conclusões do Sr. Dühring, pelos motivos e exemplos já apresentados em posts anteriores, pouco me debruçarei sobre ele.

Esta segunda parte contêm os seguintes dez capítulos:

Capítulo I – Objecto e Método
Capítulo II – Teoria da violência
Capítulo III – Teoria da Violência (Continuação)
Capítulo IV – Teoria da Violência (Conclusão)
Capítulo V – Teoria do Valor
Capítulo VI – Trabalho Simples e Trabalho Complexo
Capítulo VII – Capital e Mais-valia
Capítulo VIII – Capital e Mais-valia (Conclusão)
Capítulo IX – Leis Naturais da Economia – A Renda Territorial
Capítulo X – Sobre a”História Crítica”

Os próximos posts, de forma semelhante ao que tem sido feito, deverão apresentar o essencial desta 2ª parte. É a isso que me proponho, dependendo muito da disponibilidade – que tenderá a ser menor  – nos próximos tempos.

Adivinhando um período de baixa frequência de posts, deixo aqui uma pequena lista-guia, com o objectivo de facilitar aos interessados a leitura do que foi anteriormente publicado sobre o Anti-Dühring.

“LISTA-GUIA”

1) – Estes dois posts contextualizam no tempo o livro e a necessidade de Engels de escreve-lo. A ler:

kick-off

[I] evolução das ideias socialistas

2) – Os próximos dois debruçam-se sobre a Moral e o Direito, tendo ainda o primeiro uma breve explicação sobre o método de Dühring. A ler:

A Igualdade

Liberdade e Necessidade

3) – Depois, após inserido um post sobre as Leis da Dialéctica a partir duma tradução do artigo da Wikipédia, os seguintes links apresentam vários exemplos dados no livro sobre cada umas das leis. É importante ler alguns dos comentários deixados. A ler:

Capítulo: Dialéctica. A lei da unidade e conflito de opostos

Capítulo: Dialéctica. Lei das mudanças quantitativas em qualitativas

Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (1)

E em continuação do link anterior, mas contextualizando com os conceitos Forças Produtivas, Relações de Produção e Modo de Produção. A ler:

Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (2)

Espero que ajude.

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Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (2) – em Anti-Dühring

Publicado por Bruno em 8 Março, 2009

O Sr. Dühring achava a Dialéctica um absurdo, pois lhe era inaceitável que algo pudesse ter compreendido duas características opostas simultaneamente, e que uma delas pudesse resultar na negação da outra. Engels apoiando-se no trabalho desenvolvido por Marx em O Capital resume aquilo que Dühring classificara como «arabescos imaginativos».

Irei transcrever esse resumo, mas porque ele tem em si outros conceitos importantes para o marxismo, aproveitarei para apresentar uma muito breve referência a eles. Para isso coloco um trecho retirado do blog Anónimo do Séc XXI¹ onde se faz referência a esses conceitos: Forças Produtivas, Relações de Produção e Modo de Produção.

FP - Forças Produtivas;

FP - Forças Produtivas; R de P - Relações de Produção

Enquanto as forças produtivas (FP) se desenvolvem incessantemente, as relações de produção (RdeP) definem estádios ou patamares adequados às fases desse desenvolvimento, definindo modos de produção (MdeP), que começam a ser instáveis (a sofrer crises…) quando, face à continuidade do progresso nas forças produtivas, perdem adequabilidade e se criam situações de rotura, que podem ser remediadas, adiadas, que podem mesmo travar o desenvolvimento das FP, mas roturas que, inevitavelmente, virão a concretizar-se por passagem a novo patamar de RdeP e a novo MdeP.

Agora, penso que será muito mais rica a leitura do que se seguirá e, tal como fiz acima, coloco a negrito alguns termos para facilitar a preensão do texto. Passo a transcrever²:

Antes de advir a era capitalista, dominava, pelo menos na Inglaterra, a pequena indústria baseada na propriedade privada do operário sobre os meios de produção. A chamada acumulação primitiva do capital se caracterizou, nestas condições, pela expropriação desses produtores imediatos, isto é, pela abolição da propriedade privada, baseada no trabalho do próprio produtor. Efectivou-se tal coisa porque aquele regime de pequena indústria era compatível somente com as proporções limitadas e primitivas da produção e da sociedade, engendrando, tão logo os meios materiais de produção atingiram um certo grau de progresso, a sua própria destruição. Esta destruição, que consistiu na transformação dos meios individuais e dispersos de produção em meios de produção socialmente concentrados, constitui a pré-história do capital. A partir do momento em que os operários se transformam em proletários, em que as suas condições de trabalho passam a ter a forma de capital, a partir do instante em que o regime capitalista de produção começa a se mover por sua própria conta, a socialização do trabalho e a mudança do sistema de exploração da terra e dos demais meios de produção, e, portanto, a expropriação dos proprietários privados individuais, é preciso, para continuarem progredindo, que seja adoptada uma nova forma.

E continua, mas agora citando Marx directamente:

“Não se trata mais de expropriar o operário que produz por sua própria conta, mas o capitalista explorador de muitos operários. E essa nova expropriação se realiza pelo jogo das leis imanentes da própria produção capitalista, pela concentração dos capitais. Cada capitalista devora muitos outros. E, ao mesmo tempo em que alguns capitalistas expropriam a muitos outros, desenvolve-se, em grau cada vez mais elevado, a forma cooperativa do processo de trabalho, a aplicação técnica e consciente da ciência, sendo a terra cultivada mais metodicamente, os instrumentos de trabalho tendem a alcançar formas que são manejáveis unicamente pelo esforço combinado de muitos, economizam-se os meios da produção em sua totalidade, ao serem aplicados pela colectividade como meios de trabalho social, o mundo inteiro se vê envolvido na rede do mercado mundial, e, com isso, o regime capitalista passa a apresentar um carácter internacional cada vez mais acentuado. E, deste modo, enquanto vai diminuindo progressivamente o número dos magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, aumenta no pólo oposto, proporcionalmente, a pobreza, a opressão, a escravização, a degradação e a exploração. Mas, ao mesmo tempo, cresce a revolta da classe operária e esta se torna cada dia mais numerosa, mais disciplinada, mais unida e organizada pelo próprio método capitalista de produção. O monopólio capitalista transforma-se nas grilhetas do regime de produção que com ele e sob as suas normas floresceu. A concentração dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se tornam incompatíveis com o seu envolto capitalista, e o envolto se desagrega. Soou a hora final da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.

Acho que se percebe porque hoje (quase) ninguém ouviu falar de Dühring, e pelo contrário, Marx e Engels são uma referência fundamental na nossas vidas.

Em Relação com a Actualidade

Com tudo isto, parece-me pertinente perguntar:

Não será a grave crise económica que vivemos um sintoma de que as relações de produção estão desadequadas às forças produtivas, e é cada vez mais urgente os expropriados se tornem agora nos novos expropriadores, construindo um mais adequado e avançado modo de produção?

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[1] de Sérgio Ribeiro; e trecho transcrito da etiqueta Materialismo Histórico, episódio 14.
[2] transcrição retirada de Capítulo XIII – Negação da Negação.
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Capítulo: Dialéctica. Lei da Negação da Negação (1) – em Anti-Dühring

Publicado por Bruno em 1 Março, 2009

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica expostos em Anti-Dühring. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2). As transcrições[1] serão relativas à Lei da Negação da Negação.

No Reino Vegetal

Todos os dias, milhões de grãos de cevada são moídos, cozidos, e consumidos, na fabricação de cerveja. Mas, em circunstâncias normais e favoráveis, esse grão, plantado em terra fértil, sob a influencia do calor e da unidade, experimenta uma transformação específica: germina. Ao germinar, o grão, como grão, se extingue, é negado, destruído, e, em seu lugar, brota a planta, que, nascendo dele, é a sua negação. E qual é a marcha normal da vida dessa planta? A planta cresce, floresce, é fecundada e produz, finalmente, novos grãos de cevada, devendo, em seguida ao amadurecimento desses grãos, morrer, ser negada, e, por sua vez, ser destruída. E, como fruto desta negação da negação, temos outra vez o grão de cevada inicial, mas já não sozinho, porém ao lado de dez, vinte, trinta grãos.

Onde a frequência da repetição do fenómeno da negação é maior, é mais óbvia a observação do desenvolvimento preconizado pelo organismo.  Engels exemplifica

Se tratarmos a semente [duma dália ou orquídea] e a planta que dela brota, com os cuidados da arte da jardinagem, obteremos como resultado deste processo de negação da negação, não apenas novas sementes, mas sementes qualitativamente melhoradas, capazes de nos fornecer flores mais belas; cada repetição deste processo, cada nova negação da negação, representará um grau a mais nesta escala de aperfeiçoamento.

No Reino Animal

Engels dá aqui o exemplo das mariposas:

Nascem, estas, também, do ovo, por meio da negação do próprio ovo, destruindo-o, atravessando depois uma série de metamorfoses até chegar à maturidade sexual, se fecundam e morrem por um novo ato de negação, tão logo se consume o processo de procriação, que consiste em pôr a fêmea os seus numerosos ovos.

Assim, ele reforça com exemplos do reinos do mundo orgânico o fundamento da Lei da Negação da Negação.

Na Geologia

Toda a geologia não é mais que uma série de negações negadas, uma série de desmoronamentos de formações rochosas antigas, sobrepostas umas às outras, e de justaposição de novas formações. A sucessão começa porque a crosta terrestre primitiva, formada pelo resfriamento da massa fluida, vai-se fracionando pela ação das forças oceânicas, meteorológicas e químico-atmosféricas, formando-se, assim, massas estratificadas no fundo do mar. Ao emergir, em certos pontos, as matérias do fundo do mar à superfície das águas, parte destas estratificações se vêm submetidas novamente à ação da chuva, às mudanças térmicas das estações, à ação do hidrogênio e dos ácidos carbônicos da atmosfera; e a essas mesmas influências se acham expostas as massas pétreas fundidas e logo depois esfriadas que, brotando do seio da terra, perfuram a crosta terrestre. Durante milhares de séculos vão se formando, dessa forma, novas e novas camadas que, por sua vez, são novamente destruídas em sua maior parte e, algumas vezes, são utilizadas como matéria para a formação de outras novas camadas.

Na Matemática

Tomemos uma qualquer grandeza algébrica, por exemplo a. Se a negarmos, teremos -a (menos a). Se negarmos esta negação, multiplicando -a por -a, teremos +a2, isto é, a grandeza positiva da qual partimos, mas num grau superior elevada à segunda potência. Mas aqui não nos interessa que a este resultado (a2) se possa chegar multiplicando a grandeza positiva a por si mesma, pois a negação negada é algo que se acha tão arraigado na grandeza a2, que esta encerra, sempre e de qualquer modo, duas raízes quadradas, a saber: a do a e a do -a. E esta impossibilidade de nos desprendermos da negação negada, da raiz negativa contida no quadrado, toma, nas equações dos quadrados, um carácter de evidência marcante.

Agora um exemplo em calculo diferencial:

Começamos, então, por diferenciar as duas grandezas, x e y isto é, por supor que são tão infinitamente pequenas que desaparecem, comparadas com qualquer outra grandeza real, por pequena que seja, não restando, portanto, de x e y nada mais que sua razão ou proporção, despojada, por assim dizer, de toda a base material, reduzida a uma relação quantitativa da qual se eliminou a quantidade dy/dx, isto é, a razão ou proporção das duas diferenciais de x e y, se reduz, portanto, a 0/0, mas esta fórmula – nada mais é que a expressão da fórmula y/x. (…) Mas o que se fez senão negar x e y, negar, como a metafísica que omite e prescinde do que nega, senão negar de modo conforme com o caso presente? Substituímos as grandezas x e y pela sua negação, chegando, assim, em nossas fórmulas ou equações a dx e dy. Isso feito, seguimos nossos cálculos operando com dx e dy como grandezas reais, embora sujeitas a certas leis de exceção e ao chegar a um determinado momento, negamos a negação, isto é, integramos a fórmula diferencial, obtendo novamente, em vez de dx e dy, as grandezas reais x e y. E, ao fazê-lo, não tornaremos a nos encontrar no ponto do qual partimos, mas teremos resolvido o problema contra o qual se debateram, em vão, por outros caminhos, a geometria e a álgebra elementares.

Na Filosofia

A filosofia antiga era uma filosofia materialista, porém primitiva e rudimentar. Esse materialismo não seria capaz de explicar claramente as relações entre o pensamento e a matéria. A necessidade de se chegar a conclusões claras a respeito desse problema, levou à criação da teoria de uma alma separada do corpo e logo depois se passou à afirmação da imortalidade da alma e, por fim, ao monoteísmo. Desse modo, o materialismo primitivo se via negado pelo idealismo. Mas, com o desenvolvimento da filosofia, também o idealismo se tornou insustentável e, por sua vez, teve de ser negado pelo materialismo moderno. Este não é, entretanto, como negação da negação, a mera restauração do materialismo primitivo, mas, pelo contrário, corresponde à incorporação, às bases permanentes deste sistema, de todo o conjunto de pensamentos, que nos provêm de dois milênios de progressos no campo da filosofia e das ciências naturais e da história mesma destes dois milênios. Não se trata já de uma filosofia, mas de uma simples concepção do mundo, de um modo de ver as coisas, que não é levado à conta de uma ciência da ciência, de uma ciência à parte, mas que tem, pelo contrário, a sua sede e o seu campo de ação em todas elas. Vemos, pois, como a filosofia é, desse modo,”cancelada”, isto é,”superada ao mesmo tempo que mantida”; superada, com relação à sua forma; conservada, quanto ao seu conteúdo.

O próximo post continuará com mais dois exemplos da Negação da Negação, onde em ambos, o desenvolvimento das forças produtivas tem um papel directo.

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[1] Todas as transcrições foram retiradas de Capítulo XIII – Negação da Negação.
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Charles Darwin, o revolucionário relutante. – Comentário

Publicado por Bruno em 25 Fevereiro, 2009

O artigo «Charles Darwin, o revolucionário relutante» hoje publicado em Resistir.info foi há dias apresentado no blog «Cheira-me a Revolução!». No final do artigo traduzido deixamos um comentário que hoje nos parece pertinente aqui inserir, é o seguinte:

1 – O evolucionismo foi um marco na história da ciência que extravasou a pura discussão científica. A observação da Natureza e o espírito crítico e integrador de Darwin resultaram numa concepção dinâmica da vida, dos seres e da Terra; definiram-se novos vectores de investigação que, cheios de curiosidade e atentos à dialéctica da Natureza, procuraram colmatar os espaços em branco da história evolutiva. Muitas pegadas foram seguidas – e nem falámos ainda aqui da vertigem que foi a descoberta do DNA, verdadeira “prova do crime” da Evolução -, num processo de permanente desenvolvimento.

2 – Mas é emocionante testemunhar o paralelismo do pensamento marxista e deste salto revolucionário na ciência. Pelo seu conteúdo e pelas alterações que promoveu na luta ideológica: o confronto com as posições obscurantistas duma intervenção divina na criação. E este artigo ilustra bem a receptividade que Marx e Engels deram à obra de Darwin, sabendo despi-la do clima de dominação ideológica em que era exposta.

3 – Como este artigo procura demonstrar, o arrojo das ideias contidas na Origem levou Darwin a esconder as suas ideias e à contradição com a verdade científica. Talvez esperasse um tempo melhor para as expor em todo o seu alcance? Esta também poderá ser uma lição: as ideias que suscitem infidelidade à ideologia imposta poderão ser recalcadas pelo próprio indivíduo – a subjectividade agrilhoada.

4 -

Existimos porque um grupo particular de peixes tinha uma anatomia de barbatanas peculiar, que se pôde transformar em pernas de seres terrestres; porque a terra nunca congelou completamente durante uma idade do gelo; porque uma espécie pequena e tenaz, vinda de Àfrica há cerca de um quarto de um milhão de anos, conseguiu, até hoje, sobreviver por todos os meios. Podemos desejar uma resposta mais “elevada” – mas nenhuma existe.

Stephen Jay Gould

Pois, mas a crença religiosa é obliquamente sorrateira. Durante séculos defendeu a geração divina, hoje apela a que se entenda a evolução, a hereditariedade genética como um desígnio de Deus. Que é desta que não é mentira, que a retirada da ignorância face ao avanço do conhecimento estancou; não deixa de haver nessas pessoas e instituições uma grande desfaçatez moral.

5 – Darwin foi o brilhante intérprete da ideia da Evolução, tomando de forma crítica os elementos que o seu tempo e ele, pessoalmente, haviam recolhido. Mas podia ter sido outra pessoa, como se relembra no artigo (Alfred Russel Wallace). A ideia estava madura para ser colhida. Ou por outra, a construção humana do saber é colectiva e múltipla.”

# Colectivo Leitura Capital

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Capítulo: Dialéctica – em Anti-Dühring (2)

Publicado por Bruno em 14 Fevereiro, 2009

Este post apresentará alguns exemplos da aplicação da Dialéctica. Para uma melhor compreensão sobre o tema, aconselho a (re)ler o post Materialismo Dialéctico: Leis da Dialéctica (2). As transcrições serão relativas à lei das mudanças quantitativas em qualitativas.

É preciso um determinado valor de troca para se converter em capital

Engels cita Marx:

“nem toda a soma de dinheiro ou de valor, qualquer que seja, pode ser convertida em capital, sem que esta transformação suponha antes, a existência de um determinado mínimo de dinheiro ou de valor de troca nas mãos do possuidor de dinheiro, ou de mercadorias.”

E de seguida explica o exemplo dado por este:

Num ramo qualquer de trabalho, o operário trabalha para si mesmo 8 horas diárias, ou seja, para criar o valor de seu salário, trabalhando outras 4 horas para o capitalista a fim de produzir a mais-valia que vai então para os seus bolsos. Para isso, deve, necessariamente, existir alguém que disponha de uma soma de valor que lhe permita fornecer aos operários matérias-primas, meios de trabalho e salários, do modo a poder embolsar, todos os dias, a mais-valia necessária para poder viver, pelo menos, tão bem como dois de seus operários.

Mas como a produção capitalista não tem como objectivo simplesmente o de viver e se sustentar, mas também, o de incrementar a riqueza, não será suficiente que o nosso empresário tenha esses elementos, para que, utilizando os seus dois operários, seja um verdadeiro capitalista. Para poder viver duas vezes melhor do que um operário comum e para voltar a transformar em capital, a metade da mais-valia produzida, deveria dar trabalho a oito operários, possuindo portanto, quatro vezes a soma de valor de que tiveram necessidade para sustentar dois trabalhadores.

Estado Sólido, Líquido e Gasoso

[A] transformação dos estados da agregação da água que, sob a pressão normal do ar, ao chegar a 0 ºC, se converte de um corpo líquido em corpo sólido e aos 100º, de líquido em gasoso, caso esse que demonstra como, ao alcançar esses dois pontos decisivos, uma simples mudança quantitativa de temperatura provoca uma transformação qualitativa do corpo.

Mais exemplos na Química

Das séries homólogas de combinações de carbono, muitas das quais já são conhecidas [1], cada uma delas tendo a sua própria forma algébrica sintética. Assim, pois, Se, do mesmo modo que os químicos, chamarmos um, átomo de carbono de C, um átomo de hidrogênio de H um átomo de oxigênio de O e por n o número dos átomos de carbono encerrados em cada combinação, podemos expor as fórmulas moleculares de algumas dessas séries, do seguinte modo:

Série da parafina normal: CnH2n+2
Série de alcooes primários: CnH2n+20
Série dos ácidos graxos monobásicos: CnH2n O2.

Se tomarmos como exemplo a última dessas séries e adotarmos, sucessivamente, n=1, n=2, n=3, etc., teremos os seguintes resultados (deixando de pôr os isómeros):

ácido fôrmico – CH2O2 – ponto de ebulição: 100 º – ponto de fusão: 1.º
ácido acético – C2H4O2 – ponto de ebulição: 118º – ponto de fusão: 17.º
ácido propriônico – C3H6O2 – ponto de ebulição: 140º – ponto de fusão: -
ácido butirico – C4H8O2 – ponto de ebulição: 162º – ponto de fusão: -
ácido valeriânico – C2H10O2 – ponto de ebulição: 175º – ponto de fusão: -

e assim sucessivamente, até chegar ao ácido melíssico (C30H60O2) que não se funde até os 80º e não tem ponto de ebulição pela simples razão de que esse ácido se decompõe ao se evaporar.

Temos, pois, aqui, toda uma série de corpos qualitativamente distintos, formados pela simples adição quantitativa de elementos que são, além do mais, agregados sempre na mesma proporção. Esse fenômeno ainda se torna mais claro quando todos os elementos, que entram na composição, variam na mesma proporção e na mesma quantidade, como acontece com a série das parafinas normais (CnH2n+2). A primeira fórmula é o metano (CH4) que é um gás; a fórmula mais elevada que se conhece é o hecdecano (C16H34), corpo sólido formado por cristais incolores, que se funde a 21º, e que só atinge o seu ponto de ebulição a 278º. Em ambas as séries basta acrescentar CH2 ou seja, um átomo de carbono e dois de hidrogênio, à fórmula molecular do membro anterior da série, para que se tenha um corpo novo; donde se conclui que uma mudança puramente quantitativa da fórmula molecular faz surgir um corpo qualitativamente diferente.

Testemunho de Napoleão

Este é um exemplo curioso! Diz Engels:

Para terminar este capítulo vamos dar um testemunho final a favor da mudança da quantidade em qualidade: o testemunho de Napoleão. Napoleão descreve o combate travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão:

“Dois mamelucos sobrepujavam, indiscutivelmente, a três franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100 franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1.000 franceses derrotavam, inevitavelmente, 1.500 mamelucos”.

Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a força da disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças, com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta de melhores montarias e de soldados tão bravos pelo menos quanto os outros.

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[1] Anti-Dühring é de 1877…

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“A única forma de sermos livres, é sermos cultos.”*

Publicado por Bruno em 22 Janeiro, 2009

Com surpresa e agrado, há semanas fomos convidados pelo colectivo Cheira-me a Revolução a integra-lo. Estreamo-nos ontem nesse novo desafio, com um texto escrito colectivamente pelo dois autores  do Leitura Capital, que também aqui gostaríamos de apresentar.

Olá a todos;

O “Leitura Capital” surgiu da curiosidade e do estudo da filosofia, em particular do marxismo, por parte dum pequeno grupo de amigos. O primeiro texto lido e que nos inspirou foi «A Cultura Integral do Indivíduo» de Bento de Jesus Caraça.

Contendo a matéria de uma conferência realizada para a inauguração da União Cultural «Mocidade Livre» em 25 de Maio de 1933, época de grave crise económica e grandes transformações na Europa. Na Alemanha subia Hitler ao poder, e no nosso país, em particular, o fascismo foi a resposta encontrada para as contradições que se faziam sentir.

No texto, Bento de Jesus Caraça define dois conceitos: “Grau de Civilização” e “Grau de Cultura“.

Grau de Civilização

O grau de civilização de um povo mede-se pela quantidade e qualidade dos meios que a sociedade põe à disposição do indivíduo para lhe tornar a existência fácil; pelo grau de desenvolvimento dos seus meios de produção e distribuição; pelo nível de progresso dos seus meios de produção e distribuição; pelo nível de progresso científico e utilização que dele se faz para as relações da vida económica.

À sua época, Bento de Jesus Caraça, matemático de formação, assinalava os progressos que se haviam feito na teoria física – a relatividade e a mecânica quântica -, assim como os avanços na aplicação dos maquinismos, da exploração da energia, das telecomunicações, da organização do trabalho – enfim, da 2ª revolução industrial.

Porém, este esforço de conquista técnica não reverteu a favor da Humanidade, como mostrava a história recente. As guerras (por recursos, por mercados), as depressões (com nomes que parecem saídos da actualidade! – Longa Depressão e Grande Depressão), as próprias respostas políticas aos problemas sentidos não sustentavam que o progresso técnico-científico o fosse igualmente social.

Grau de Cultura

É da necessidade de contextualização histórica e social da aplicação da técnica que Bento de Jesus Caraça formula o conceito de Cultura:

O grau de cultura [duma sociedade] mede-se pelo conceito que ele forma do que seja a vida e da facilidade que ao indivíduo se deve dar para a viver; pelo modo como nele se compreende e proporciona o consumo; pela maneira e fins para que são utilizados os progressos da ciência; pelo modo como entende a organização das relações sociais e pelo lugar que nelas ocupa o homem.

A cultura não é, pois, uma aquisição imediata e determinada pelo grau de civilização. E se, por outras palavras, a consciência não é um mero reflexo das circunstâncias de existência em dado momento, é também factor influenciador da nossa organização social.

Se o desenvolvimento da civilização, entendida como acima, só por si, pode conduzir ao automatismo e à consequente escravização do homem, o que nos é mostrado pela civilização capitalista actual, é isso devido, não a um alto mas sim a um baixo grau de cultura que permite que os meios de progresso sejam utilizados num ambiente de completo abandono dos objectivos superiores da vida.

A questão que Bento de Jesus – premente no seu tempo, tal como no nosso – é a da tomada de consciência pelos povos como sujeitos da história, capazes de ser agentes de mudança e tomar o seu futuro em mãos. É necessário um “despertar da alma colectiva das massas!“.

Despertar da Alma Colectiva das Massas!

No entanto, o seu despertar, se falseado, não basta para que estas resolvam suas necessidades. Na década de 30 o poder foi tomado por forças como de Hitler, subjugando as massas, ou no presente – de forma não tão dramática – o seu despertar deu lugar aos motins de França e Grécia, sem que elas tivessem conseguido agir assertivamente para a resolução das suas necessidades.

Os desenvolvimentos técnicos além de terem potenciado o grau de civilização, também potenciam o grau de cultura dos povos. A Internet é um dos melhores exemplos disso. Com a nossa acção, desejamos contribuir para a elevação do Nosso grau de cultura, com o objectivo de colocar o progresso técnico e cientifico em prol de todos nós, da Humanidade.

Mas afinal, o que será um homem culto?

É aquele que:

  • Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
  • Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
  • Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.

E assim, que nos próximos despertares se sinta um intenso Cheiro a Revolução!

* citando José Martí

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Solidariedade para com o povo palestiniano!

Publicado por Luiz Esteves em 7 Janeiro, 2009

Entretanto já vai sendo hora de romper o silêncio. (Quais estudos, férias ou trabalhos?)

Neste blog estamos solidários com Gaza, repudiamos o genocídio que tem vindo a ser cometido pelo Estado israelita e condenamos a passividade da comunidade internacional. O cessar-fogo nunca foi cumprido por Israel, que não levantou o bloqueio imposto e se preocupou em estabelecer um plano de invasão.

Esta não é uma guerra de defesa ou de prevenção, é uma matança indiscriminada, desmascarando a hipocrisia do direito internacional. Tempos graves, revoltantes.

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Harold Pinter (1930-2008)

Publicado por Bruno em 26 Dezembro, 2008

“Em 1985 escrevi:
‘Não existe uma verdadeira distinção entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo’.

Creio que estas afirmações continuam válidas e se aplicam à exploração da realidade através da arte. Portanto, enquanto escritor defendo-as mas enquanto cidadão não posso fazê-lo. Enquanto cidadão tenho que perguntar: O que é que é verdadeiro? O que é que é falso?…”

Harold Pinter, «Arte, Verdade e Política», em 2005

Seu discurso «Arte, Verdade e Política» aquando a entrega do Nobel:

Ver o vídeo, aqui.

Transcrição do discurso em inglês e em português.

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